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Atravessando o tempo com Angela Davis

Atravessando o tempo com Angela Davis

Dia Latino-Americano e Caribenho da Mulher Negra, 25 de julho. Reitoria da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, lotada para ouvir uma aula emocionante de Angela Davis, ativista norte-americana da luta pelos direitos dos negros e das mulheres.

A filósofa e professora apresentou reflexões sobre a sociedade que impetuosamente mantém o racismo subjugando a população negra, onde as mulheres negras ocupam as piores posições. Ainda assim, sobrevivendo à crueldade, essa situação configura-se como um incitamento à organização das mulheres negras por uma sobrevivência coletiva, construída, ao longo dos anos, a base de sua identidade, em ligação com outras lutas, contra todos os preconceitos e pelo bem viver.

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“Mulheres negras representam o futuro. Porque mulheres negras representam uma possibilidade real de esperança na liberdade.”

Ao expor sobre a luta contra o racismo no Brasil, nos Estados Unidos e no mundo, Davis destaca a liderança da mulher negra a partir de uma análise interseccional, onde raça, gênero e classe agem combinados, como nos ensinou Lélia Gonzalez. Angela dá lições de uma vida viva, e viva por que nós reagimos à violência racial, como instigou Luiza Bairros.

Não é por menos que Davis entoou na UFBA: REISTIREMOS. “Nós resistiremos ao racismo, à exploração capitalista, ao hetero patriarcado. Nós resistiremos ao preconceito contra o Islã, ao preconceito contra as pessoas com deficiência. Nós defenderemos o meio ambiente contra os insistentes ataques predatórios do capital. Aqui em Salvador, no dia 25 de julho, dedicado às mulheres negras na América Latina e no Caribe, afirmamos ainda de forma mais forte: com a força e o poder das mulheres negras dessa região, nós resistiremos”.

Entusiasmada, citando a organização da Marcha Nacional das Mulheres Negras Contra o Racismo e Pelo Bem Viver (Brasília/2015), a luta pela preservação da cultura de Matriz Africana, expressa na Irmandade da Boa Morte e no Terreiro de Mãe Stella de Oxóssi, Angela enfatiza que o movimento de mulheres negras no Brasil desperta a atenção no seu país.

“Como já foi dito e reiterado várias vezes, o movimento social liderado   por mulheres negras é o movimento social mais importante do Brasil. Após o golpe antidemocrático que resultou na deposição de Dilma Roussef, as mulheres negras criaram a melhor esperança para este país”.

Muitas de nós, nos Estados Unidos, estamos entusiasmadas acompanhando a Marcha das Mulheres Negras no Brasil desde novembro de 2015. Nós continuamos a sentir as reverberações dessa Marcha”. Não tenho dúvida de que a aula de Angela é lição irreparável para o enfrentamento ao racismo, especialmente para os quadros cantos das escolas no país. Afinal, os educadores têm que ampliar, cada vez mais, o seu papel na luta contra o racismo.

Não é por acaso que o nome da palestra da professora Davis é Atravessando o Tempo e Construindo o Futuro. É SOBRE NÓS e as possibilidades de transformação da sociedade em que vivemos. Não podemos pular essa página na nossa história.

Devemos apreender sempre com essa caminhada de muitos enfretamentos. Angela analisa com exatidão que estamos vivendo tempos de turbulência. “Este é um momento difícil para o nosso planeta por vários motivos, mas, sobretudo, por termos uma guinada à direita na Europa, nos Estados Unidos, na América do Sul e especialmente no Brasil. Não tenho nem como começar a explicar para vocês qual é o sentimento de morar nos Estados Unidos onde Donald Trump é presidente”.

Mas, nós resistiremos! Nesse confronto posto contra o racismo, que destrói a possibilidade do acesso da população negra ao emprego, saúde, educação, moradia, a “liderança feminina negra” tem um papel de destaque. Lembrando o papel de Luiza Bairros, Lélia Gonzales e Carolina de Jesus, Angela afirma que é necessário enfatizar a condição da mulher negra na perspectiva de gênero e de raça, reconhecendo também que implica nisso classe, sexualidade e gênero, para além da convenção binária. “As mulheres negras estão entre os grupos mais ignorados, mais subjugados e também os mais atacados deste planeta.

As mulheres negras estão entre os grupos mais sem liberdade do mundo. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres negras têm uma trajetória histórica que atravessa fronteiras geográficas e nacionais de sempre manter a esperança da liberdade viva. As mulheres negras representam o que é não ter liberdade sendo, ao mesmo tempo, as mais consistentes na tradição, que não foi rompida, da luta pela liberdade, desde os tempos da colonização e escravidão até o presente”.

Como não fazer da lição de Angela Davis a nossa tarefa de casa. É sobre nossa luta para alterar a sociedade para além dos privilégios racistas e do patriarcado heterossexual  mantidos institucionalmente. A palestra de Davis, que foi uma iniciativa do Instituto da Mulher Negra Odara, do Núcleo de Estudos Interdisciplinar da Mulher (NEIM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

e da Universidade Federal do Recôncavo, entra para a história de luta contra o racismo. Nessa caminhada de luta, há vinte anos (1977) Angela esteve pela primeira vez no Brasil, na Jornada Lélia Gonzalez, organizada por, Dulce Pereira, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado.

O Reencontro na Bahia nos fortalece. Estamos em marcha. Sim Angela Davis, Sim, Luiza Bairros, Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Carolina Jesus, Mãe Hilda Jitolu, Mãe Beata. Nós estamos atravessando o tempo e construindo um futuro, sem volta. Estamos preparadas!!!

Iêda Leal
Professora da Rede Pública de Ensino, Secretária de combate ao racismo da CNTE, Coordenadora do C. R. Lélia Gonzales, Tesoureira do Sintego e Vice-presidente da CUT – GO


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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