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Marighela: Relato de um torturado

Relato de um torturado

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(…) Como dizia, fui levado imediatamente à Polícia Central e espancado pelos “tiras”. Recebi alguns murros no peito, nas costas, no rosto e, em seguida, apresentaram-me ao Sr. Serafim Braga, delegado da Ordem Social.
A Polícia, que se entregava às ações subversivas, estava dividida em dois ramos: a Delegacia de Ordem Social e a Delegacia de Ordem Política.

(…)
O Sr. Serafim Braga mandou se procedesse, de imediato, a um espancamento inicial, sem mais preâmbulos.
O Sr. PLINIO BARRETO, PRESIDENTE: – Mesmo sem ouvi-lo?
O Sr.  MARIGHELLA: – Sim. No meu bolso se encontravam vários documentos que revelavam a situação do país sob o regime da ditadura, os espancamentos que sofríamos, porque eu havia participado de todas as lutas dos estudantes na Bahia, contra o fascismo. Havia pertencido mesmo à Aliança Nacional Libertadora e também tinha ideias comunistas, sendo ainda filiado ao Partido Comunista.

O que se encontrou no meu bolso no momento foram documentos que revelavam, para o estrangeiro, as atrocidades que se cometiam no . Nos envelopes não haviam sido inscritos os verdadeiros nomes dos destinatários, porque sabíamos a situação em que se
achava reduzido o país, naquelas condições. O que desejavam saber, em primeiro lugar, era a quem se destinavam as comunicações. Eu não revelava os destinatários, mesmo porque ignorava seus nomes. Devia entregar a correspondência ao cidadão que ia procurar na manhã em  que fora preso.

O fato é que fui submetido a esse espancamento inicial, feito por uma turma de investigadores, da qual participava um de nome Matos, o único que pude gravar, porque, nesses espancamentos, eles têm o cuidado de não revelar os nomes uns dos outros. Esse investigador é muito conhecido pelos que passaram pela Polícia Central, àquela época. De borracha em punho, juntamente com os demais “tiras”, também colaborou no espancamento. Fui agarrado pelas pernas e braços e o Sr. Serafim mandou que iniciasse pela sola dos pés. Foi-me tirado o calçado. Como, porém, não desse grande demonstrações de me achar abalado, passaram a espancar-me nos rins. Depois de certo tempo,
o próprio Serafim Braga teve seus receios e mandou que suspendessem aquele tratamento. Queria que eu confessasse minhas atividades e dissesse com quem mantinha contato, enfim, o que fazia como militante do Partido Comunista.

Fizeram-me várias perguntas, levando-me, para efeitos de intimidação, para uma saleta especial, destinada aos espancamentos. Mais tarde, depois de ter ficado sem comer durante toda a manhã, fui entregue ao Sr. Emílio Romano, Delegado da Ordem Política e Social, que havia chegado e reassumido o cargo. Fui interrogado, com o objetivo de obter de qualquer maneira uma confissão. Queriam que confessasse que estava conspirando, que exercia atividades subversivas, e que o Partido Comunista se destinava a fazer uma revolução e que prosseguia, portanto, nas suas atividades subversivas, conforme eles informavam.

Sob as ordens de Emílio Romano passou-se então a uma nova forma de espancamento: eram murros mais ou menos nesta altura da cabeça (indica a região), até que comecei a lançar sangue pelo nariz.
Depois de ter desfalecido, fui ameaçado, no meio das tropelias, gritos e urros dos Investigadores, de ser levado para a Polícia Especial, onde teria de sofrer ainda mais, caso não confessasse. Com efeito, cumpriram a ameaça. À noite, fui levado para a Polícia Especial, onde se reuniram, no pátio, todos os investigadores – os que tinham vindo da Polícia Central, e, mais, os que já se encontravam no quartel da Polícia Especial, naquele momento sob o comando do Tenente Euzébio de Queirós, se não me engano, então chefe daquela corporação. Fui colocado numa roda em que pude distinguir o investigador Galvão, conhecido espancador que trabalhava na Polícia Central e na Polícia Especial.

No meio deles também se encontrava o investigador ou polícia especial Julião que, como aliás o próprio Galvão, também era da Polícia Especial, mas trabalhava em permanente contato com a Polícia Central.As torturas a que fui submetido foram as seguintes:
depois de murros, pontapés e outros golpes que me aplicaram, fui queimado por todo o corpo com pontas
de cigarros que os próprios investigadores estavam fumando. Além disso, o investigador Galvão tirou seu alfinete de gravata, que enfiou debaixo de minhas unhas, deixando-as em sangue. Em seguida, fui submetido ao chamado “aperto de escrotos”; reuniram-se todos
e, através dos golpes chamados “chave de braço”, fui levado ao chão várias vezes, o que me produziu um ferimento na testa, como se pode  verificar pela cicatriz que apresento. Os jornais da época publicaram fotografias. Nesta que aqui tenho se vê bem o esparadrapo no
lugar do ferimento. Vossa Excia., Sr. Presidente, pode verificar o que afirmo pela fotografia, que é uma prova incontestável.

Na  Polícia Especial, o espancamento durou até a madrugada. Cheguei lá mais ou menos às 7 ou 8 horas da noite, e só de madrugada suspenderam o que chamavam de “sessão”. Em virtude de ter desfalecido, fui levado para curativos na própria enfermaria da Polícia
Especial. Depois desse curativo, com ameaças de ser sangrado e outras mais, fui posto de castigo na chamada Sala Santa Fé, da Polícia Especial. Apesar de estar todo machucado em consequência das surras e torturas, não podia deitar-me, nem sentar-me. Tinha
de ficar passeando no interior da saleta, que aliás é pequena. Assim fiquei com as roupas completamente estraçalhadas e ensopadas de sangue os trapos que restavam, mas, mesmo nessas condições era obrigado a permanecer de pé. O polícia especial de nome Gaúcho, que montava guarda de mosquete em punho, obrigava-me a levantar e marchar, até o momento em que caí exausto.

marighella

EBC

Depois disso, fui novamente removido para a Polícia Central, onde recomeçaram os espancamentos. O Sr. Emílio Romano deu ordem, diante do fato de que eu procurava reagir aos espancamentos, para que eu fosse algemado. E, assim, com as mãos para trás e deitado de bruços na cama, fui espancado a canos de borracha que me atingiram as costas, as nádegas e as
solas dos pés. Em seguida, fui submetido a novo tipo de torturas. Levado à noite para uma sala em completa escuridão, sem saber o que poderia suceder ali, e agarrado por mãos invisíveis, fui obrigado a sentar-me numa cadeira. Lançaram então sobre o meu rosto uma
lâmpada de grande poder, projetada diretamente sobre os meus olhos, e um investigador que se encontrava do outro lado e que eu não podia ver, fazia-me perguntas, a fim de que eu indicasse onde se encontrava a oficina do Partido, a imprensa da “Classe Operária”, e fazia outras perguntas no sentido de levar avante a provocação que o Governo tinha em vista, e informando, mesmo, que o Sr. Presidente da República já havia oferecido tudo para que se encontrasse a imprensa onde era publicada a “Classe Operária”, que o Partido publicava
clandestinamente no Distrito Federal e que tinha circulação em todo o país.

Esses espancamentos se deram no dia 1º de Maio e, depois de alguns dias para curativos, e de novas ameaças, chegou o dia 23 de maio. Nesse dia, tornava-se urgente a publicação das diligências que haviam sido feitas. Não havia, porém, grandes possibilidades para isso , porque precisavam de fotografias, e eu não estava em condições de ser fotografado para os jornais. O Sr. Romano, considerando que não era possível conseguir uma fotografia apresentável, que não servisse de indício e prova, chegou à conclusão de que se fizesse de qualquer  maneira, e por isso os jornais publicaram a fotografia como aqui se encontra, em que se vê que fui espancado da maneira mais brutal. Mais tarde, os jornais aperfeiçoaram e retocaram a fotografia e conseguiram, por meio de processos químicos, fazer desaparecer os esparadrapos.
Nesse período estavam também presos cerca de 400 marinheiros, pude observar que estes também eram terrivelmente espancados. Cumpriram pena em Fernando Noronha, na Ilha Grande, na Casa de Correção e na de Detenção, no Pavilhão dos Primários, etc.

Excerto do livro: Carlos Marighela: comunista e poeta de todas as horas – Escrito por

Gilney VianaIara Xavier Pereira

https://xapuri.info/elizabeth-teixeira-resistente-da-luta-camponesa/

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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