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Rio Araguaia: A história de um velho com várias feições juvenis

Rio Araguaia: a história de um velho com várias feições juvenis

Rio Araguaia: a história de um velho com várias feições juvenis

A noção de que um rio “novo” é aquele que ainda está definindo o seu leito principal não é correta, como também não é correto calcular a idade de um rio tomando como base a quantidade de sedimentos que transporta, ou simplesmente atribuir a idade a um rio pela idade geológica dos terrenos percorridos por suas águas.

Por Altair Sales Barbosa

Meandros abandonados, ao invés de significarem indícios juvenis, podem significar indícios de longevidade, são capítulos da história evolutiva de um rio. O transporte e o depósito de sedimentos dependem das formações geológicas regionais e das feições geomorfológicas. Se a idade geológica dos terrenos fosse também o único padrão utilizado para determinar a idade de um rio, isso causaria uma extrema confusão.

O rio Araguaia, por exemplo, percorre terrenos da idade Paleozóica com milhões e até bilhões de anos, assim como percorre terrenos de idades bem recentes, que ele próprio formou pelo transporte de sedimentos, que às vezes não atingem o tempo de um século.

A idade de um rio é definida por vários fatores: pela largura e extensão de sua bacia, pelos fenômenos geológicos ocorridos, pela arqueologia das paisagens, ou seja, a história evolutiva que possibilitou a organização das paisagens atuais. Entretanto, nada disso é compreensível, se não tivermos em mente que um rio não avança para baixo, mas para cima, sempre à montante.

Nessa perspectiva, o rio Araguaia pode ser considerado como um dos mais antigos da história hidrográfica moderna da América do Sul. Teve suas origens associadas aos fenômenos de ordem geológica, climática e geomorfológica que formaram as paisagens modernas do planeta, ou seja, as paisagens que existem atualmente e que se consolidaram a partir de 35 milhões de anos Antes do Presente.

Essa idade é apenas uma fração em relação às primeiras paisagens da Terra, que datam de 4 bilhões e 600 milhões de anos, mas, por outro lado, é o mais antigo capítulo evolutivo da história recente do planeta.

A história do Araguaia antecede a história do Cerrado, mas foi consolidada a partir dos fenômenos que permitiram a formação deste Sistema Biogeográfico. Os movimentos de origem tectônica que formaram o Planalto Central Brasileiro mudaram a direção de alguns cursos d’água que hoje correm para o Araguaia e possibilitaram que o próprio rio Araguaia começasse uma trajetória que o levasse através do Tocantins/Amazonas até o Oceano Atlântico.

Rio Araguaia: A história de um velho com várias feições juvenis

 

 

O rio Araguaia nasce em território goiano ao norte de uma extensão de área sedimentar de idade Mesozoica denominada geologicamente Bacia Sedimentar do Paraná, em cotas próximo a 900 m, na região do Parque Nacional das Emas, no Município de Mineiros.

No curso de seus primeiros 300 km, o rio Araguaia se faz em rochas sedimentares, com seu vale bem encaixado, seguindo estrutura tectônica dessas rochas, até atingir a Planície do Bananal-Araguaia, próximo à cidade de Aragarças e Registro do Araguaia.

A principal feição geológica nesse trecho é o Domo do Araguainha, que é uma estrutura de impacto de meteoro que, embora tenha seu núcleo de impacto em Mato Grosso, na cidade homônima, possui grande reflexo em território goiano.

A partir do início da Planície do Bananal, afloram em seu leito rochas gnáissico-granítica e vulcano sedimentares, de idade Pré-Cambrianas, que formam o embasamento ou substrato da grande Bacia Sedimentar do Paraná.

Desde sua nascente, por anomalias geológicas, o rio Araguaia desce de cotas de 900 m para cotas próximo de 300 m, adquirindo feições de rio juvenil encaixado, passando, a partir da Planície, a desenvolver seu percurso sinuosamente em meandros por toda a Planície do Bananal-Araguaia, evidenciando assim formas geomorfológicas com características de rio de curso normal. As rochas que afloram a partir da planície são Cenozoico/Quaternárias, de deposição recente, em contato sobreposto às rochas Pré-Cambrianas.

A Planície do Bananal-Araguaia é uma extensa fossa tectônica em atividade, que tem o seu fundo, já subsidio em aproximadamente 5.000 m desde o período Cretáceo e continua neste processo dinâmico de movimento descente.

O comportamento dessa fossa termina na ponta norte da fossa tectônica, já no estado do Tocantins, extremo norte da Ilha do Bananal.

A partir daí o rio adquire uma nova feição de rio juvenil encaixado em rochas estritamente Pré-Cambrianas até sua barra no rio Tocantins, junto à cidade de Marabá, na região conhecida como Bico do Papagaio.

Obs.: publicado originalmente em 16 de dez de 2015

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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