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“Sabia que chegaria a morte sem avisar”

“Sabia que chegaria a morte sem avisar, porém a morte é semente, quando há um povo por trás”

Uma canção nicaraguense que Chico Mendes conhecia, pois foi um dos admiradores da revolução sandinista, diz, ao relatar a morte de um dos seus dirigentes, “… sabia que chegaria, a morte sem avisar…”.

Por Gomercindo Rodrigues 

Com Chico Mendes não era diferente. Desde 1977, ele  vinha recebendo constantes ameaças de morte por parte dos fazendeiros, que se diziam “os principais prejudicados” pelo trabalho de organização dos seringueiros na região de Brasiléia e Xapuri, que tinha por base a realização dos “empates” contra as derrubadas.

Em 21 de julho de 1980, pistoleiros a soldo assassinaram o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, Wilson Pinheiro, primeira grande liderança sindical da região do Vale do Acre, com quem Chico Mendes trabalhava desde 1975. 

De acordo com relato do próprio Chico, em depoimento gravado pela atriz e militante Lucélia Santos, em maio de 1988, naquele mesmo dia ele também deveria ter sido morto, só que não foi encontrado pelos assassinos, porque andava de viagem pelo Vale do Juruá, em outra região do estado do Acre. 

Após o enterro de Wilson Pinheiro em Brasiléia e, principalmente, depois da morte do testa-de-ferro de fazendeiros na região,  conhecido como Nilão, Chico teve de passar cerca de dois meses na semiclandestinidade, dormindo cada dia em um lugar, sendo permanentemente seguido por pistoleiros que aguardavam uma chance de matá-lo. 

Por seis vezes, Chico esteve muito próximo de ser assassinado e conseguiu escapar por acaso, mudando trajetos de deslocamentos ou simplesmente adiando, por outros motivos, viagens já marcadas. Outras vezes, avisado de que havia emboscada armada, Chico mudava a direção. 

Todos os anos as ameaças se repetiam, principalmente na época das derrubadas, em função da resistência organizada dos trabalhadores. Em um  registro feito numa agenda de 1987, Chico Mendes anotou no quadro do dia 10 de agosto: “2 horas da madrugada, ameaças, tentativa pelo girau (local onde se lavam utensílios de cozinha) do Sindicato”.  

Naquela madrugada em que, por sorte, Chico não estava sozinho na sede do STR em Xapuri, alguém tentou invadir o Sindicato pulando pela janela do girau.  Só não conseguiu porque a madeira, apodrecida, cedeu sob o peso do pistoleiro, que fugiu, deixando as marcas de seus pés na lama existente embaixo da janela.

Poucas semanas antes de ser assassinado com um tiro de escopeta, no quintal de sua casa, em Xapuri, em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes deixou um bilhete para uma amiga no Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA), em Rio Branco, dizendo que fora seguido o dia todo por pistoleiros.

Chico sabia que estava “marcado para morrer” e denunciou sua morte amplamente anunciada durante todo o ano de 1988 – foram enviadas não poucas correspondências a autoridades do Acre e federais. A imprensa e os políticos acreanos encaravam tais registros como de alguém que queria ficar em evidência na mídia.

A cada vez que proferia uma palestra, durante o ano de 1988, ao viajar de volta para o Acre, Chico sempre se despedia dos amigos como se fosse a última vez que os veria. Isso ficou muito patente nas palestras proferidas em Piracicaba, no estado de São Paulo (7 de dezembro), e na cidade do Rio de Janeiro (9 de dezembro), quando, ao falar das ameaças de morte, frisou que talvez estivesse voltando para sua terra para ser morto.

Como na música em homenagem ao revolucionário sandinista comandante Gaspar: “… sabia que chegaria, a morte sem avisar, porém a morte é semente quando há um povo por trás…”.

MILITÂNCIA E  RESISTÊNCIA 

Os primeiros tempos de Chico Mendes como liderança sindical coincidem com a realização dos primeiros “empates” dos seringueiros contra a derrubada de suas florestas, que resultaram  em um enfrentamento cada vez mais acirrado com os fazendeiros que invadiam, desmatavam e devastavam os seringais acreanos. 

Essa situação de permanente convivência com o conflito ajudou-o a fortalecer seu caráter de líder sindical coerente, duro quando necessário, mas ao mesmo tempo capaz de negociar em pé de igualdade com seus inimigos, característica, aliás, que nem seus maiores adversários políticos negam.

Foi do trabalho como liderança sindical que surgiu a possibilidade do Chico se candidatar – e se eleger –  como  vereador (1º de fevereiro de 1977 a 30 de novembro 1982) pelo partido da oposição, o MDB, no município de Xapuri. Desde o início de seu mandato, Chico tenta fazer com que sua ação como parlamentar sirva como ponto de denúncia para a situação de violência e exploração que enfrentavam os seringueiros. 

Por esse modo de atuar fica, no início, marginalizado inclusive dentro de seu partido, sendo ameaçado de cassação de mandato e forçado a “maneirar” mais sua atuação. Ainda em 1977, por  seu trabalho em defesa dos povos da floresta, surgem as primeiras ameaças de morte contra Chico Mendes.

Na primeira sessão do ano legislativo de 1979, conseguiu eleger-se vice-presidente do Parlamento municipal. O presidente eleito pertencia ao partido apoiado pela ditadura, a ARENA e, no dia seguinte, tendo em vista a destituição do prefeito nomeado, assumiu interinamente o Executivo municipal, permanecendo como prefeito em exercício até o início do ano seguinte, quando foi empossado o novo prefeito nomeado.

Assim, Chico Mendes assumiu a presidência do Legislativo municipal  no dia 2 de março de 1979, permanecendo no cargo até 29 de novembro do mesmo ano, quando foi forçado a renunciar para não perder o mandato.

No dia 7 de abril de 1979, fez um duro pronunciamento, em que enfatizou que “os políticos acreanos parece que esqueceram seus compromissos assumidos para com o povo às vésperas da última eleição. Tinham eles prometido lutar por uma melhor estrutura agrária em favor do homem do campo e até agora tudo neutralizado, nenhuma esperança para o seringueiro, e o que se nota é as constantes injustiças aos seringueiros”. 

Continuando, teceu críticas aos órgãos de competência a zelar pela referida causa. “Senhores não devemos chorar mais tarde os atos de violência por causa da omissão das competentes autoridades que não agiram em tempo em proveito da justiça” (transcrito com a redação conforme constante na Ata da 8ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Xapuri).

O próprio Chico Mendes, nove anos mais tarde, viria a ser uma das vítimas dos “atos de violência” sobre os quais já alertava as autoridades muito tempo antes deles ocorrerem. Importante ressaltar que a omissão das autoridades continuou por anos a fio, somente vindo a encontrar eco as palavras de Chico quando ele foi a vítima.

Como presidente em exercício da Câmara Municipal, além dos pronunciamentos que fazia desde o primeiro mês de mandato como vereador, no dia 17 de novembro promoveu, no Parlamento municipal, uma grande reunião com seringueiros e trabalhadores rurais para discutir os desmatamentos, a violência e a superexploração dos seringueiros.

A reunião contou com a participação de outros vereadores, e um deles, João Simão, teria sido vaiado. Magoado com a situação, embora fossem ambos do mesmo partido, Simão entrou com representação para cassação do mandato de Chico Mendes.

Na sessão do dia 23 de novembro de 1979, Chico Mendes teve contra si, além da representação de Simão, o pronunciamento contrário de praticamente todos os vereadores que o criticavam por ter cedido a Câmara para a reunião com seringueiros. 

Sob pressão e após muita negociação, Chico Mendes apresentou seu pedido de renúncia ao cargo de vice-presidente da Câmara, devidamente acatado. Com isso, a representação foi arquivada.

É interessante registrar que, embora forçado a renunciar à vice-presidência da Câmara Municipal, quando seu mandato na mesa iria até o início de 1981, na eleição seguinte para a mesa diretora – biênio janeiro de 1981/janeiro de 1983 – , Chico Mendes foi novamente eleito, dessa vez para o cargo de secretário, contando com o apoio total da bancada do PDS e sem os votos de seus dois ex-companheiros de partido, no caso Wagner Bacelar e João Simão. 

Com a pressão gerada por seu trabalho, Chico Mendes enfrentou os primeiros e duros interrogatórios realizados pela Polícia Federal, coordenados, já nessa época, por um personagem que mais tarde reapareceria de forma trágica na vida – e morte – de Chico Mendes: o delegado Mauro Spósito. Nunca gostou de falar sobre os “interrogatórios” que respondera secretamente nas dependências do Hotel Xapuri, que era de propriedade do município. Segundo ele, foram horas a fio de “interrogatórios” extenuantes e violentos. 

Chico Mendes continuou como vereador e, como tal, sempre denunciou as violências contra os seringueiros e reforçou a atuação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri.

Nesse período, foi fundamental a assessoria prestada por alguns padres progressistas da Igreja Católica que foram vigários na cidade naquela época: os padres Destro, Cláudio e Luciano.

UM LÍDER À FRENTE DE SEU TEMPO

Como vereador, Chico Mendes foi, sem nenhuma dúvida, um político muito à frente de seu tempo. Já em 1977, em plena ditadura, quando começava a “distensão”, fez vários discursos apoiando a atuação da Contag e a criação do próprio Sindicato dos Trabalhadores de Xapuri. 

Também, durante todo o seu mandato, fez inúmeros pronunciamentos denunciando a situação humilhante e o abandono dos seringueiros, bem como as expulsões das posses, inclusive com a atuação da polícia, além de falar contra a devastação da Amazônia, cobrando uma política de preservação da floresta.

Falar em preservação da Amazônia no final dos anos 1970 era algo bastante novo, especialmente quando isso ocorria não no debate de estudantes universitários dos grandes centros urbanos, mas em uma pequena cidade situada dentro da própria floresta.

Em várias oportunidades, Chico Mendes também usou a tribuna para denunciar os desmatamentos, a violência contra seringueiros, a “violação dos direitos humanos” praticada por policiais militares etc.

No dia 2 de maio de 1980, Chico Mendes anunciou seu desligamento do partido e sua filiação ao Partido dos Trabalhadores, sendo o primeiro vereador acreano filiado ao PT.

Os fragmentos de seus discursos transcritos – parece que os pronunciamentos integrais não podem ser recuperados – dariam um belíssimo livro do próprio Chico, e tais trechos mostram não só que era coerente com suas posições, que as defendia com firmeza, mas sobretudo que pôs em discussão temas que ainda “engatinhavam” em nível nacional, como a questão da devastação da floresta amazônica.

Chico assumiu de forma decidida o mandato de vereador para colocá-lo a serviço dos trabalhadores rurais e, embora tenha feito indicações, criticado problemas administrativos municipais, a condição das ruas, da energia elétrica, do abastecimento da água de Xapuri, centrou forças para divulgar a real situação dos seringueiros. 

Denunciou as violências, sofreu ameaças por sua atuação, mas, como repetiu várias vezes, “continuou sempre na luta” em defesa dos mais humildes, dos trabalhadores rurais, dos seringueiros…

ACIMA DE TUDO, UM MILITANTE

Depois de sua morte, Chico Mendes passou muito mais a ser um “mártir ecológico”, no sentido quase pejorativo e despolitizado da expressão, do que um “militante político”. Essa confusão precisa ser desfeita até como um reparo à memória dele, que fez do seu dia a dia uma permanente militância política.

Quando de sua primeira participação como candidato a vereador, Chico procurou o único partido que, naquela época, fazia oposição à ditadura militar.

Em 1979, Chico Mendes já podia ser chamado de um “militante de esquerda”, pois sua atuação como vereador e a liderança dos seringueiros eram frontalmente contra os interesses dos grandes fazendeiros e dos políticos tradicionais da época – a prioridade eram os interesses dos trabalhadores.

Chico adere ao PT desde o princípio. Durante todos os seus anos de militância política, atuou não só como filiado a um partido, mas também como dirigente sindical. Foi fundador e primeiro secretário do STR de Brasileia, depois fundador da Central Única dos Trabalhadores, de cuja direção nacional era suplente quando foi assassinado, presidente do STR de Xapuri e fundador do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS).

Sua militância expressou-se não poucas vezes nos debates com os próprios trabalhadores rurais, nas assembleias do STR de Xapuri, nas reuniões que precediam aos “empates”, falando sempre de um projeto de sociedade, interpretando a luta de classes a partir da realidade regional. Por isso era respeitado local e nacionalmente.

Seu engajamento rendeu-lhe processo com base na Lei de Segurança Nacional, junto com Lula e outros sindicalistas que estavam fundando o Partido dos Trabalhadores. Foi absolvido duas vezes, em primeira e segunda instância.

Dois meses antes de ser assassinado, fez uma afirmação que colocava sua posição naquele momento, quando se tornara um “ecologista” conhecido, muito mais do que um dirigente sindical. A palavra “ecologia” não fazia parte do dicionário dos seringueiros. Era algo estranho. 

No entanto, a luta deles era, e continua sendo, uma luta em defesa da Amazônia, pois isso era defender o pão de cada dia. Defender a floresta, para os seringueiros, é muito mais do que defender o “verde” porque é belo, ou o ar que se respira, é defender o local onde eles sobrevivem e de onde retiram seu sustento.

A origem da palavra “ecologia” vem do grego “oikos”, que significa “casa”, ou seja, seria o “estudo da nossa casa”, numa definição etimológica. Assim, os seringueiros, embora não soubessem o significado da palavra, eram “ecologistas” radicais, defendiam, como defendem até hoje, suas casas, nestas incluída a floresta. É a ecologia levada à radicalidade.

A forma de luta dos seringueiros, desde a participação de Wilson Pinheiro, de Chico Mendes e de outras lideranças que não estão vivas para contar a história, traz, sim, embutida, uma proposta de sociedade nova, em que não haja exploração nem violência. Esse conceito, Chico Mendes verbalizou inúmeras vezes.

O enfrentamento com os fazendeiros era entendido como um enfrentamento de classes, no qual o capital era representado pelos ricos fazendeiros, pelos grandes grupos econômicos, e o trabalho tinha como seus representantes os posseiros, os seringueiros, aqueles que tinham, e têm, somente a sua força de trabalho.

Pode parecer muito distante da realidade dos seringueiros, e efetivamente o era. Eram conceitos que, de forma abstrata, pareciam difíceis de ser absorvidos, mas traduzidos nos enfrentamentos do dia a dia, dos “empates”, da luta para que cada posseiro continuasse em sua colocação, ficava fácil de ser entendido… E isso Chico Mendes sabia fazer como ninguém.

Afinal de contas, não era difícil discutir com os seringueiros o porquê da violência, de a Justiça estar sempre ao lado dos poderosos, a ponto de pôr policiais militares para “proteger” os desmatamentos, além de, sempre, expulsar o posseiro e dar o direito ao “proprietário”, mesmo que, muitas vezes, não se fizesse uma análise mais detalhada da “documentação” da terra.

Chico Mendes não era um “político de ocasião”. Era um militante . político 24 horas por dia, sete dias por semana, e mostrava isso onde quer que estivesse, fosse numa reunião com seringueiros dentro do seringal, fosse nas assembleias gerais do STR de Xapuri e, depois, nos encontros regionais de seringueiros, fosse nas palestras que proferiu.

BILHETE PARA A JUVENTUDE 

Embora não tivesse escolaridade regular, Chico Mendes gostava muito de escrever e tentava, sempre, fazer comunicados por escrito, fossem para os delegados sindicais nos seringais, fossem para autoridades. 

O homem da floresta escrevia sempre que podia. Registrava suas reclamações por escrito. Era uma forma de mostrar que não tinha medo de assumir a responsabilidade daquilo que denunciava. Era, também, um ato de cidadania.

Antes de ser assassinado, escreveu vários artigos, alguns deles foram publicados especialmente pelos jornais Folha do Acre e A Gazeta. Escreveu inúmeras correspondências para autoridades (governador, superintendente da Polícia Federal, juiz da Comarca de Xapuri, secretário de Segurança Pública, entre outros) avisando que estava marcado para morrer, que havia risco concreto de ser assassinado. Não foi levado a sério…

Mas não era somente para autoridades que Chico Mendes escrevia. Também mandava mensagens por escrito para os delegados sindicais, escreveu para entidades não governamentais pedindo ajuda para o movimento dos seringueiros ou denunciando as ameaças de morte. 

No Ventania, um jornalzinho mimeografado, publicado sem periodicidade definida pelo Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores, escrevia muitos textos, especialmente pequenas notas, as “curtas”,  muito lidas e comentadas, em que atacava violentamente o então prefeito de Xapuri.

O próprio texto, que depois se tornou o “testamento” de Chico Mendes, aquele destinado ao “jovem do futuro”, foi escrito enquanto tentava fazer uma ligação interurbana na noite de 6 de setembro de 1988. Escreveu-o e deixou pregado com fita adesiva sobre o meu telefone. 

Achei o texto fantástico e o guardei. Cometi apenas um erro: não pedi que ele o assinasse. Foi uma pena, pois tenho o original do texto que não tem sua assinatura, mas sua letra é inconfundível.

CHICO MENDES HERÓI DO BRASIL

Nos 34 anos da partida forçada de Chico Mendes do espaço físico deste mundo, encerro esta homenagem ao meu amigo Chico Mendes com o texto que se segue, contribuição do presidente Lula para o livro Vozes da Floresta, lançado pela jornalista e militante Zezé Weiss, editora da Revista Xapuri, durante as celebrações dos 20 anos do assassinato de Chico Mendes, em dezembro de 2008: 

Chico talvez nem soubesse o que queria dizer ecologia e muito menos holocausto ecológico quando começou sua romaria pela floresta, para organizar a peãozada dos seringueiros. Primeiro, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais [de Brasiléia, em 1975, e Xapuri, em 1977] e, mais tarde, para criar o PT.

Nessas caminhadas pela mata, ele acabou juntando numa bandeira só a luta ecológica, a luta sindical e a luta partidária, porque sabia que elas são indissolúveis: uma alimenta a outra no mesmo ciclo de vida na floresta. E, feito inimaginável naquele tempo, para defender as mesmas lutas, sob a mesma bandeira,  Chico liderou a união de índios, ribeirinhos e seringueiros na grande Aliança dos Povos da Floresta. 

Quando estive em Xapuri, no Acre, para ajudar na campanha do Chico a prefeito, em 1985, a barra já estava pesando. Os fazendeiros do Centro-Sul do Brasil, que tinham invadido a região, não escondiam de ninguém que ele estava marcado para morrer. Logo o Chico, que foi um dos mais apaixonados defensores da vida que já conheci, homem tão puro e tão limpo como a água da chuva da mata, que foi sua companheira inseparável.

É em memória de todos os companheiros e companheiras que, como o Chico, tombaram em defesa da terra, da floresta e da vida, que seguimos lutando para implantar no Brasil as políticas públicas sonhadas por ele. Políticas públicas voltadas para a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável  capaz de gerar riquezas para o País e para os povos da floresta e, ao mesmo tempo, de preservar a nossa Amazônia [em pé] para as gerações presentes e futuras. 

Lá num cantinho do céu, Chico hoje deve estar feliz por saber que, nesses últimos 34 anos, nem nós esmorecemos, nem seu trabalho deixou de ser multiplicado por nosso Brasil afora. Nós hoje [seguimos firmes, na luta] por um Acre melhor, uma Amazônia melhor e por um Brasil melhor. 

Como companheiro, celebro as vitórias alcançadas por todos nós a partir dos empates de Xapuri. Como brasileiro, celebro Chico Mendes, herói do Brasil, por continuar servindo de norte para a nossa luta por dias ainda melhores para todos [e todas] nós e, especialmente, para os povos da Floresta. Luiz Inácio Lula da Silva, companheiro de Chico Mendes, pela terceira vez eleito presidente do Brasil, em 30 de outubro de 2022. 

Gomercindo RodriguesAdvogado. Assessor e amigo pessoal de Chico Mendes. Membro do Comitê Chico Mendes e do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Esta matéria de capa da Xapuri 98, edição de dezembro de 2022, em homenagem à memória e em respeito ao legado de Chico Mendes,   resume o capítulo 3 do livro Caminhando na Floresta, (Editoras UFAC-Xapuri, 2009), publicado em inglês pela Editora da Universidade do Texas com o título Walking into the Forest with Chico Mendes, com tradução de Linda Rabben.

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

 

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