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Sangradores de seringueiras

21Sangradores de seringueiras

O historiador ambiental Warren Dean concluiu sua obra A luta pela borracha no Brasil em um tom pessimista. O país, que é o berço genético das seringueiras, teria falhado em estabelecer plantações significativas até meados dos anos 1980.

No final da mesma década, no entanto, ao escrever um posfácio à edição brasileira do livro, o autor anunciou uma possível reversão deste quadro, com o crescimento e sucesso de plantações desta espécie amazônica no interior de São Paulo.

De lá para cá, São Paulo se consolidou como o maior produtor de borracha natural do país, tendo produzido cerca de 55% do total brasileiro no último ano.

Os plantios cresceram a partir de variedades clonais selecionadas no Sudeste Asiático. A partir dos anos 1950, esse material genético começou a ingressar no Brasil, mas foi desde os anos 1980 – e sobretudo nos últimos 20 anos – que os plantios cresceram no interior paulista.

Atualmente uma variedade clonal malaia (RRIM 600) é plantada em cerca de noventa por cento dos seringais de São Paulo. Uma das principais razões para esse crescimento é ecológica.

O chamado planalto ocidental do estado de São Paulo é considerado uma área de escape climático do fungo causador do mal-das-folhas (Microcyclusulei), doença que inviabilizou ou dificultou plantios na Amazônia (como o célebre fracasso de Fordlândia no Pará) e no litoral da Bahia. Nessa região paulista há chuva suficiente para manutenção das árvores, mas não umidade bastante para favorecer a proliferação do mal-das-folhas.

A região de São José do Rio Preto, no noroeste paulista, é hoje o centro da produção de borracha no Brasil, atraindo inclusive trabalhadores especializados vindos de outras partes do país. São os sangradores, como se chamam localmente os seringueiros, responsáveis pelas atividades de extração do látex.

A sangria é a principal atividade dos seringais. Consiste em cortes precisos realizados nas cascas das árvores em painéis delimitados em formato de meia espiral. Os cortes não podem ser nem muito rasos, nem muito fundos. Se muito rasos, não geram boa produção; se fundos além do limite, geram ferimentos nas árvores, e podem danificar todo o seringal.

Há também outros aspectos da sangria que são controlados pelo trabalhador, como o consumo de casca (grossura da fita que se corta a cada vez), a manutenção da declividade do corte, a frequência de sangrias (de quantos em quantos dias se volta a uma mesma árvore) e o ritmo de trabalho durante uma jornada.

Os patrões dependem das habilidades técnicas manuais dos sangradores para que os seringais sejam rentáveis e duráveis. Os sangradores em sua maioria são contratados em regime de parceria agrícola, mas há uma controversa transição para o regime de assalariamento com carteira assinada.

Além de trabalhadores treinados na própria região, muitos ex-funcionários de grandes plantações de uma corporação pneumática no Mato Grosso e no litoral da Bahia foram atraídos nos últimos anos pelos emergentes seringais paulistas explorados em regime de parceria.

Os preços da borracha atingiram uma grande alta no ano de 2010, coincidindo com o fechamento do então maior seringal das Américas, no Cerrado do Mato Grosso. De lá vieram muitos sangradores especializados, que na região interagem com os sangradores locais, patrões e técnicos agrícolas.

A seringueira se expande também em regiões de estados vizinhos a São Paulo, como no sul do Mato Grosso do Sul e no triângulo mineiro, áreas consideradas aptas à heveicultura. No entanto, atualmente o clima é de desânimo, devido a uma forte queda no preço da borracha.

De mais de quatro reais por quilo em 2010, o preço caiu para cerca de um real e sessenta centavos em média no ano passado. É um mercado dominado pelas corporações pneumáticas e pelos principais países produtores, localizados no sudeste asiático.

Os sangradores de seringueira são verdadeiros artesãos especializados em um ofício manual no mundo rural. Seguem seu trabalho, não obstante essas variações de preço, que têm impacto significativo em seus ganhos.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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