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“Se morrer um, é uma história, uma vida”

“Se morrer um, é uma história, uma vida”

Por Clara Roman, Silvia de Melo Futada

No Jalapão, agências de turismo pressionam para reabertura, enquanto comunidades quilombolas resistem. Não querem perder ninguém para a Covid-19

Em meio à pandemia da Covid-19, as comunidades quilombolas do Jalapão estão sendo pressionadas a retomar a visitação turística, mas resistem. Afinal, cada vida importa, e ninguém deve ser exposto ao risco de contaminação. Enquanto isso, empresas de turismo tentam convencer autoridades sobre a reabertura dos parques estaduais e o retorno da visitação. Mas nem sempre consideram as pessoas que habitam esses lugares.

Os quilombolas também dependiam do turismo para sobreviver, mas optaram por diversificar suas fontes de renda em vez de arriscar perder parentes para a Covid-19. Na contramão do governo brasileiro que, ao supostamente priorizar a economia, ajudou o Brasil a chegar à triste marca de 130 mil mortos pela nova doença.

Localizado no Tocantins (TO), o Parque Estadual do Jalapão tem 158.885 hectares paradisíacos, com cachoeiras, trilhas e muitas outras atrações da natureza. Na região, também há outras Unidades de Conservação fechadas desde março.

Ao longo de todo esse território, vivem oito comunidades quilombolas, que estão ali desde muito antes da criação das Unidades de Conservação. As famílias tinham participação ativa tanto no turismo tradicional quanto no de base comunitária. Além do quilombo Mumbuca, as comunidades quilombolas do Rio Novo, Carrapato, Formiga e Ambrósio, no município de Mateiros, e a comunidade Prata, em São Félix, também recebiam turistas antes da pandemia.

Em Mumbuca, onde Ana vive, a Covid-19 ainda não chegou. Isso graças ao esforço da própria comunidade, que encerrou todas as visitações. “Se morrer um, é uma história, uma vida. A gente não faz contagem de número”, diz ela.

Os moradores também evitam frequentar a cidade mais próxima, Mateiros, onde já há casos confirmados. Ana descreve o perigo caso o novo coronavírus chegasse na comunidade. “Somos pessoas coletivas, grupos. Não existe um só”, explica.

Por isso, a possibilidade do isolamento social dentro é muito menor. Se uma pessoa se contaminar, a chance de transmissão é muito maior. O objetivo, então, é que ninguém se contamine. Mateiros liberou o retorno das atividades turísticas para o dia 5/10. São Felix do Tocantins, para o dia 10/9.

Mumbuca decidiu permanecer fechado. Mas, caso o parque reabra e as agências tradicionais retomem a atividade, a comunidade continua ameaçada. A circulação no entorno vai aumentar, e a probabilidade é de que os casos nas cidades mais próximas disparem. E mesmo que os quilombolas não frequentem a cidade, compartilham o mesmo posto de saúde, onde podem igualmente se contaminar.

“A reabertura do turismo é de luxo, de ricos, que não estão no mesmo barco que nós. São pessoas que tão dispostas a pagar, e pagar caro. E a usufruir do que a gente sempre cuidou”, afirma. Já os quilombolas só têm acesso a saúde pública da região, que não tem dado conta de responder à pandemia. “Não tem teste, não tem estrutura sanitária nenhuma”, diz.

Outro receio da comunidade é ser retaliado pelas agências por sua decisão e perder espaço nas rotas turísticas. O Parque Estadual do Jalapão foi criado em 2001, assim como a UF federal como a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins.

As comunidades já estavam nessa região há séculos, mas, mesmo assim, tiveram que parar com algumas atividades tradicionais como o plantio de roças. Isso os deixou mais dependentes do turismo e da economia externa. “A nossa forma de existir foi impactada pela criação do parque. Quando o parque foi criado não pudemos fazer as nossas roças”, diz ela.

“Estamos com muito medo da retaliação dessas agências. A gente precisa sensibilizar as pessoas para entender o que estamos passando e não nos boicotar”, afirma. Para isso, criaram a campanha Jalapão com Vida, com mobilizações sobretudo pelo Whatsapp e redes sociais.

A luta para se garantir economicamente não tem sido fácil. Mas, mesmo assim, a comunidade decidiu priorizar as vidas. “Todo mundo se conhece, tem relação familiar, de amizade, afetiva”, conta ela.

 

E COMO ESTÁ A SITUAÇÃO NAS UCs FEDERAIS?

Na quarta-feira (26/8) foi publicada a Portaria ICMBio nº 890/2020, que generaliza a permissão de reabertura da visitação pública nas UCs federais, bastando sua inclusão na listagem do site do ICMBio e seguimento dos protocolos gerais, ou seja, sem dependência da publicação de novas normativas individuais.

As UCs federais, cuja visitação pública fora suspensa temporariamente em 24 de março, começaram a retomar atividades no início de junho. Os primeiros parques a abrirem foram os Parques Nacionais Aparados da Serra e Serra Geral (RS/SC), seguidos pelo Parque Nacional do Iguaçu (PR) e outros.

Ao todo, 14 UCs haviam retomado atividades de uso público até hoje. Em todos os casos, foram publicadas normas que trouxeram protocolos básicos de segurança como uso de máscara, álcool gel, ventilação e higienização de ambientes e equipamentos específicos para mergulho e restaurantes.

Também foram feitas orientações específicas para cada UC, como redução do número de visitantes a 30%, 40% ou 55% da capacidade usual, limitação por atrativos, fechamento de locais de visitação, além da menção aos protocolos dos estados e municípios.

Todas essas especificações podem ser vistas em nosso site, nas sessões de cada uma das UCs. Foram elas:

Parque Nacional do Iguaçu (PR)
Parque Nacional Aparados da Serra (RS)
Parque Nacional da Serra Geral (RS)
Parque Nacional de Brasília (DF)
Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
Parque Nacional da Tijuca (RJ)
APA Costa dos Corais (AL)
Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes (SP)
Parque Nacional de Fernando de Noronha
Parque Nacional do Itatiaia (RJ/MG)
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros
Parque Nacional do Jaú
Parque Nacional de Anavilhanas  e Jericoacoara.

Dessas UCs cuja visitação pública já havia sido retomada, os Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral, reabertos em 9/6, se sobrepõem parcialmente com o território da comunidade quilombola São Roque, que optou por manter suspensas suas atividades de turismo de base comunitária com a chegada da pandemia. Com documentos que comprovam a ocupação quilombola ao menos desde 1824, a comunidade foi certificada pela Fundação Palmares em 2004 e tem seu território parcialmente declarado com cerca de 7.327 hectares.

A precaução fez com que, até o início do mês, a comunidade seguisse sem nenhum caso de Covid-19. “A terra aqui continua produzindo, com pandemia ou sem pandemia. A prioridade deve ser a saúde e barriga cheia”, afirma Eliseu Santos Pereira, presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombo São Roque. O Quilombo São Roque situa-se em um dos locais mais belos da região, o Vale da Pedra Branca, com diversas trilhas de diferentes graus de dificuldade e com piscinas naturais.

O TBC constitui-se de compartilhar da rica vivência da comunidade, com hospedagem nas casas familiares, visitas na roça e plantio de acordo com a fase da lua, aprendendo como trabalhar com a terra e os valores da vida comunitária.            “As pessoas saem daqui com felicidade pelo que viram e aprenderam e de visitantes se tornam amigos”, complementa Seu Eliseu.
No Maranhão, a Portaria do ICMBio nº 752, que normatizou as condições de reabertura do Parna Lençóis Maranhenses, especificou: “a visitação nos locais de posse de moradores tradicionais que oferecem hospedagem, alimentação ou outros serviços, somente poderá ocorrer mediante consulta e autorização expressa dos mesmos”.

Clara Roman, Silvia de Melo Futada – ISA, em https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/se-morrer-um-e-uma-historia-uma-vida

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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