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Sem freio, crise do clima pode extinguir anfíbios globalmente

Sem freio, crise do clima pode extinguir anfíbios globalmente

Além de suas funções ecológicas, esses animais auxiliam a medicina, a controlar pragas e até indicam perigos ambientais.

Por Aldem Bourscheit/O Eco

Desmate e doenças posicionaram sapos, salamandras e cecílias entre os animais mais ameaçados do globo. Mas, tais perigos ganharam um reforço. Um artigo publicado na revista Nature afirma que a pode exterminar grande parte das espécies de anfíbios nas próximas décadas.

Especialista ligada à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e uma das principais autoras do estudo, Jennifer Luedtke Swandby detalha que esses animais viram “reféns do clima” à medida que a humanidade altera seus habitats e as temperaturas médias globais.

“Os anfíbios são incapazes de se deslocar muito longe para escapar do aumento da frequência e da intensidade do calor extremo, dos incêndios florestais, da seca e dos furacões acarretados pelas alterações climáticas”, explica Swandby, gestora para Parcerias de Espécies da ong Re:wild.

artigo atualiza a primeira avaliação mundial sobre a situação dos anfíbios, de 2004, e aponta que 41% das espécies avaliadas enfrentam riscos de extinção, de diferentes níveis. É o maior índice quando comparado aos mamíferos (26,5%), répteis (21,4%) e aves (12,9%).

A publicação mostra que em dezoito anos, de 2004 a 2022, ameaças críticas aproximaram mais de 300 tipos de anfíbios da extinção. No período, a crise do clima foi o maior perigo para 117 (39%) dessas espécies. Novos estudos podem aumentar essa taxa de risco.

O trabalho recente descobriu que a destruição ambiental e as alterações climáticas podem desaparecer com três em cada cinco espécies de salamandras. Isso as torna o grupo de anfíbios mais ameaçado do mundo. Suas maiores populações estão na América do Norte.

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A distribuição de espécies de anfíbios globalmente ameaçadas. Cores mais escuras correspondem a uma maior riqueza de espécies. Imagem: Ongoing declines for the world's amphibians in the face of emerging threats (Nature, October 2023)

A publicação lista quatro espécies declaradas extintas, desde 2004: o sapo-arlequim (Atelopus chiriquiensis), da Costa Rica, a rã-de-focinho-afiado (Taudactylus acutirostris), da Austrália, a rã Craugastor myllomyllon e a salamandra-de-riacho (Pseudoeurycea exspectata), ambas da Guatemala. 

A situação também piorou para 27 espécies que, antes, eram criticamente ameaçadas e, agora, estão possivelmente extintas. Isso elevou para mais de 160 os anfíbios criticamente ameaçados que são considerados provavelmente banidos do planeta. 

“Os riscos são extraordinariamente elevados. Se alguma vez houve um momento para agir para salvar os anfíbios e os seus habitats, esse momento é agora”, destaca Ariadne Angulo, coautora do artigo e copresidente de um time de especialistas em anfíbios da UICN. 

Barramento de riscos

A destruição e degradação de ambientes naturais pela agropecuária, obras e industrialização afetam 93% de todas as espécies de anfíbios ameaçadas. Além disso, doenças causadas pelo fungo quitrídio dizimaram populações de anfíbios em vários continentes.

“O fungo ainda não foi detectado nos , mas como pessoas e outros animais podem introduzi-lo em novos locais, pode ser apenas uma questão de tempo até vermos a segunda pandemia da doença nos anfíbios”, avalia Dede Olson, pesquisador do Serviço Florestal dos Estados Unidos. 

Nesse sentido, o estudo recente da Nature pode dar maior qualidade a planos e ações de conservação de anfíbios, ajudar a buscar mais recursos financeiros para protegê-los e até influenciar para reverter sua tendência de extinção.

“O estudo mostra que não podemos continuar subestimando esta ameaça. Proteger e restaurar [ambientes naturais] é fundamental, não só para salvaguardar a , mas também para combater as alterações climáticas”, ressalta Jennifer Swandby, da Re:wild.

Mestre em Ciências da e da Pesca e co-autora do estudo da Nature, Kelsey Neam reforça que proteger os anfíbios ajuda a enfrentar a crise do clima, pois eles mantêm a saúde de ambientes que armazenam , um dos gases que ampliam o efeito estufa. 

“Os anfíbios estão desaparecendo mais rapidamente do que podemos estudá-los, mas a lista de razões para protegê-los é longa, incluindo seu papel na medicina, no controle de pragas, alertando-nos para as condições ambientais e tornando o planeta mais bonito”, disse a pesquisadora.

Testes científicos vêm usando girinos e anfíbios adultos para indicar a qualidade da água de rios em estados como Minas Gerais e Rondônia. Eles são excelentes indicadores ambientais, pois são muito sensíveis à qualidade da água e do ar.

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A bela salamandra-de-fogo é encontrada em Israel. Foto: Robin Moore / Re:wild

Proteger espécies de anfíbios depende de tarefas como estabelecer e manter amplas redes de parques nacionais e de outras unidades de conservação de proteção integral, todas conectadas por corredores de vegetação nativa através de propriedades públicas e privadas.

A tarefa de casa vale também para o , cujas cerca de 1.200 espécies de anfíbios o tornam o país com maior diversidade mundial desses animais. Mas de 2004 para cá, saltaram de 37 para 189 as espécies de sapos e seus parentes com algum grau de ameaça no país. 

O cenário pode ser ainda pior, pois 26 delas foram classificadas como possivelmente extintas. Afinal, não foram mais avistadas em ambientes naturais ao menos desde a década de 1980. 

“Num país onde as alterações ambientais pioram a situação das espécies, é importante ampliar políticas e ações de preservação e mitigar efeitos das ”, diz Iberê Farina Machado, presidente da ong Instituto Boitatá e coautor do artigo editado esta semana na Nature.

Provas de que esses trabalhos funcionam são a recuperação de certas populações de anfíbios. Desde 1980, melhorou o status de conservação de 120 espécies no mundo. Dessas, 63 espécies foram alvo  direto de ações de conservação, como melhorar a proteção e a gestão dos ambientes onde vivem.

No Brasil, ao menos 9 espécies tiveram melhoras em sua conservação, como a perereca-de-Alcatrazes (Ololygon alcatraz) e a rã-das-pedras-de-Alcatrazes (Cycloramphus faustoi). Ambas vivem na Ilha de Alcatrazes, no litoral do estado de São Paulo. 

“Conservar os anfíbios já é uma necessidade imperativa. Focar em áreas que tradicionalmente recebem atenção conservacionista não é mais suficiente, o esforço deve ser global”, arremata Amaël Borzée, coautor do artigo e professor na Universidade Florestal de Nanjing (China).

Com informações da UICN, Instituto Boitatá e Re:wild.

Aldem Bourscheit Biólogo e Jornalista. Fonte: O Eco. Foto: Jaime Culebras/Photo Wildlife Tours.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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