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Sobre ruas, flanelas e coletes

“Brasília não foi feita pra pobre”, diz Carlos, “foi feita pra político e pra polícia”. Faltou acrescentar: e pra carro. O tom amargo marca a frase do guardador e lavador de carros que poderia ser dita por qualquer um dos milhares de “flanelinhas” que ocupam o centro da capital federal em busca de sobrevivência.

Sim, sobrevivência, pois vive-se com um pouco mais de um salário mínimo, descontado o transporte coletivo e o “de comer”. Trabalha-se muitas vezes 12 horas por dia, de segunda a sábado, para conseguir pagar o aluguel e as demais contas do mês, quiçá fazer uma “comprinha básica”.

O termo flanelinha, embora de uso corrente, pode soar pejorativo hoje em dia, sobretudo após a obrigatoriedade do cadastramento, que veio à tona por decreto em 2009. Desde então estabeleceu-se uma distinção nítida entre os que operam legalmente e os que permanecem na clandestinidade. Ao que tudo indica, parece que a pecha de “marginal” não recai mais sobre os trabalhadores que usam colete e crachá.

Sabemos, no entanto, que isso não é completamente verdade. Muita gente ainda vê o trabalho feito nas ruas, qualquer que seja, como ocupação de delinquente e vagabundo, disfarce ou manobra para o crime. “Não dá para confiar, porque eles vêm e arranham nosso carro se a gente não paga, ameaçam, xingam. Tem muito bandido e traficante de droga por aí fingindo que trabalha”, diz uma motorista estressada com a falta de vagas no Setor Comercial Sul. “Eles compram, roubam o colete, sei lá, dão um jeito e vêm pra cá fazer m—–”, diz outro mais exaltado.

E até mesmo a polícia, embora tenha se comportado melhor desde a regulamentação, vez em quando ainda oprime o trabalhador com interrogatórios fúteis, como é frequente em seu ofício. Carlos que o diga:
“Outro dia eu tava aqui em pé conversando com o instrutor da autoescola. Vieram dois PM de lá pra cá. Chegou aqui e mandou eu abrir a perna… botaram a mão na cabeça, a mão no meu bolso e tinha 40 conto. Disseram: ‘que dinheiro é esse?', eu disse é meu, eu trabalhei. ‘Cêtrabalha aonde?' Eu trabalho aqui. ‘Tem família?' Não tenho porque já larguei. ‘É proibido isso aqui, cê tem documento?'  Tenho. E mostrei o documento e ele disse ‘ah, não fica traumatizado não'…”

E de pensar que Brasília talvez seja uma das últimas cidades onde existe (e resiste) esse tipo de profissional. A privatização dos estacionamentos é uma ameaça constante; a implantação pelo governo do sistema “Faixa Azul” é um fantasma que assombra a todos. Embora existam trabalhadores, como Carlos, que não se consideram empregados, fazendo de seu ofício um bico entre tantos outros, existe uma parcela importante de pessoas que sobrevivem exclusivamente às custas de guardar e lavar carros.

Se é verdade que o preconceito leva a população a encará-los com desconfiança, por outro lado muita gente vê no guardador de carros um apoio essencial à lida diária.

Nas horas de maior movimento, ele libera o motorista do infortúnio de esperar que a vaga surja no momento oportuno. “Tenho cliente aqui que paga por mês; chega, me entrega a chave e vai trabalhar, sem problema”, diz Neném, morador do Recanto das Emas, que lava e manobra no centro de Brasília desde os anos 70. Das seis da manhã às seis da tarde.

Evidentemente o trabalho nas ruas, por mais regularizado que seja, corre o risco de ser perturbado pelos problemas sociais que o circundam e o envolvem. E por mais que o guardador esteja atento às dezenas de carros sob a sua guarda, é natural que por descuido aconteça algum furto. O espaço que a rua instaura é tipicamente propenso a isso. Não há como se furtar de todo ao furto. No entanto, há como se prevenir. O Setor Comercial Sul, por exemplo, tem o estacionamento dividido por áreas de controle: em certo pedaço quem domina são irmãos, noutro alguns primos, aqui e ali um grupo estabelecido há bastante tempo. “Somente pessoas confiáveis”. Inclusive não deve ser nada fácil iniciar o ofício desprovido de alguma peixada.

O baiano Carlos (69 anos) prefere trabalhar sozinho: não bota ninguém, que é pra evitar o azar de um vidro quebrado. O brasiliense Neném (54) também não precisa de ajudante. O carioca Alberto (37) e o baiano Evangivaldo (58) admitem que a regulamentação proporcionou maior segurança ao trabalho. Para se inscrever na SEDEST e receber o número de cadastro é preciso que o requerente tenha suas fichas limpas.

E, além do mais, esse crivo fez com que a polícia oprimisse um pouco menos o trabalhador autônomo que está em dia com os requisitos da profissão.

Resta saber agora se o sistema da “Faixa Azul”, implementado em outras cidades, chegará aqui, como receiam Alberto e companhia. Se acaso for, o que será então dos milhares que por aí estão, rotineiramente, a corujar e a limpar carros em troca de alguns reais, suficientes apenas para o sustento de si e dos seus?

Temos de convir que as ruas estão morrendo em Brasília, lentamente estão morrendo. Aos poucos vão se calando as vozes: cedo ou tarde restarão apenas motores ecoando por entre os prédios…

flanelinha

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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