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Tuire Kaiapó e as mulheres guardiãs da Floresta

Tuire Kaiapó e as mulheres guardiãs da Floresta

Os Kaiapó brasileiros vêm lutando há décadas contra o desmatamento de seu lar. Agora as mulheres estão na linha de frente da guerra para salvar a floresta.

Por Pinar Yolacan e tradução por Thomas Robinson. Tradução do inglês por Marina Schnoor.

Escondidas entre a densa floresta amazônica estão as habitações simples feitas de folhas de palmeiras dos caiapós. Seus vilarejos se espalham ao longo do Rio Xingu, alguns tão remotos que até os anos 50 os caiapós viviam quase sem contato com o mundo exterior.

Estima-se que mais de 8.500 caiapós vivem em comunidades numa área de mais de 11 milhões de hectares nos estados do Pará e Mato Grosso — a maior área de floresta protegida por uma tribo no mundo.


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Nas últimas três décadas, as comunidades caiapós se tornaram cada vez mais expostas ao mundo exterior, trazendo grandes mudanças na estrutura social da tribo. Uma das mudanças mais recentes e inesperadas tem sido o surgimento de chefes mulheres, que agora estão no comando de vilarejos espalhados por um grande pedaço da floresta amazônica.

Tuire é a chefe do vilarejo Kapran-Krere. Em maio último, o fotógrafo Pinar Yolacan a visitou lá. Com ajuda de um tradutor, Tuire disse a Yolacan:

“Sou a terceira geração de liderança; meu tio e o pai dele eram líderes da nossa comunidade. Quando meu tio morreu e não havia ninguém para tomar o lugar dele, decidi lutar pela posição. Mesmo sendo mulher, eu já estava estudando com meu tio e fui treinada por ele.”

Houve alguma resistência da comunidade a ter uma mulher como líder?

“Não. Minha comunidade me respeita.”

Tradicionalmente, os papéis dos caiapós são divididos entre gênero e idade. Mulheres são consideradas tão importantes quantos os homens na sociedade — elas são responsáveis pelos rituais de pintura corporal dos caiapós, por exemplo —, mas a agora as mulheres estão tomando papéis que antes eram reservados apenas aos homens.

Chefes como Tuire estão à frente de protestos contra desmatamento e mineração ilegais, e já se provaram líderes valiosas e porta-vozes apaixonadas e corajosas.

Também em maio, o New York Times publicou uma reportagem perturbadora sobre o aumento da violência contra tribos indígenas na Amazônia, depois da manchete sobre um ataque de madeireiros contra um grupo de aldeões que feriu 22 pessoas na região norte.Bephnhoti — cujo “nome branco” é Amaury — é o porta-voz da Floresta Protegida, uma ONG indígena que representa 17 comunidades caiapós. Ao falar com a VICE, do quartel-general da FP em Tucumã, Bephnhoti explicou: “No passado todos os chefes eram homens; os homens dominavam os vilarejos, as comunidades. Mas hoje, como nas cidades, os papéis das mulheres estão se aproximando dos dos homens”.

Agora são três chefes mulheres no total, incluindo Ngreikamoro no vilarejo de Aukre. Bephnhoti está claramente impressionado com ela. “No dia em que se tornou chefe, ela fez um discurso dizendo que iria se comprometer com o diálogo com outros vilarejos caiapós, para evitar as pequenas brigas internas que estamos sempre tendo.

Ela quer que todo mundo viva bem e se dê bem com os outros”, lembra ele. “Ela quer garantir que todos os vilarejos estejam unidos para lugar contra as ameaças exteriores.”

União não é algo fácil de conseguir. O modo de vida remoto dos caiapós — além do fato de que muitos vilarejos só são acessíveis com ajuda de avião e habitados por pessoas que não falam português ou sequer têm conhecimento do “homem branco” — significa que é muito difícil atrair atenção para suas questões e a batalha atual contra desmatamento e mineração ilegais que invadem a fronteira de quatro mil quilômetros de suas terras.

O trabalho da FP é apoiar a comunicação entre os chefes dos vilarejos e o mundo exterior, ajudar com a administração, fomentar o desenvolvimento sustentável e o financiamento para que os vilarejos estejam melhor equipados para se defender. Monitoramento e controle territorial é outra preocupação, disse Bephnhoti. “Recebi uma mensagem de um dos chefes de que um fazendeiro vizinho está espalhando veneno nos limites das terras caiapós, para matar a floresta e ter mais pasto para seu gado”.

Mineração e formação de pastos ilegais são lugar-comum há décadas, mas há novas ameaças perturbadoras para comunidades como as chefiadas por Tuire e Ngreikamoro — dessa vez ameaças sancionadas pelo governo.

Com similaridades marcantes com o caso da Reserva Sioux Standing Rock nos EUA, o governo está sendo pressionado por grandes corporações e proprietários de terra que querem um pedaço lucrativo da Amazônia. Tramita no Legislativo um projeto de emenda constitucional (PEC) que transfere ao Congresso a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação no Brasil. Atualmente, somente o Poder Executivo, e seus órgãos técnicos, como a FUNAI, pode decidir sobre essas demarcações. A situação é similar à de Trump que forçou o avanço do oleoduto Dakota Access, enquanto os caiapós podem ver seus direitos às terras retirados pelo governo.


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“Sou apenas uma mulher, uma guerreira, uma combatente, mas eles precisam me respeitar. Esta é a minha natureza, esta é a minha terra.”

A PEC 215 estabelece que apenas terras ocupadas por indígenas desde 1988 serão consideradas reservas. Qualquer terra da qual eles tenham sido expulsos antes dessa data não serão elegíveis.

“Sinto que a discriminação contra as comunidades indígenas é ainda maior hoje por causa das palavras do presidente Temer e de pessoas de seu governo, que falam mal dos indígenas e dizem que não merecemos as terras que temos”, disse Tuire. “Ele está apoiando a PEC 215, uma lei para remarcar os territórios indígenas, que vai deixar os fazendeiros e os mineradores usarem nossas terras.”

 

Segundo Barbara Zimmerman, ecologista e diretora do programa caiapó do Fundo Internacional de Conservação do Canadá, essa última legislação é um desastre para todos os grupos indígenas e o meio ambiente que eles protegem. “As pessoas têm que entender que os indígenas brasileiros protegem grandes áreas de floresta no Brasil. Se essas leis forem aprovadas, se as indústrias tiverem permissão para entrar nas terras indígenas, será um desastre para o mundo, não só para o Brasil.”

“A situação é preocupante”, ela acrescenta. “A pressão pelas terras deles está pior a cada ano — de gente que quer ouro, madeira ou terras — e eles estão lutando muito para proteger o que têm.”

O modelo de conservação do estilo de vida caiapó é o que torna a existência deles tão vital — não só para o Brasil, mas para uma questão ambiental mais ampla. Em 2016, o desmatamento na Amazônia aumentou 29%. “O que as pessoas precisam entender é que a floresta é o lar deles: é o que eles protegem, é o que fornece seu sustento, é a base de sua cultura. Eles não protegem a floresta do mesmo modo como os ambientalistas ocidentais pensam em proteger a natureza, eles estão protegendo sua casa. Eles não têm uma separação entre eles e a natureza — eles são parte da natureza.”

Um dos protestos mais famosos dos caiapós aconteceu na cidade portuária de Altamira em 1989, contra um projeto de uma mega represa no Rio Xingu. A publicidade internacional que se seguiu obrigou o Banco Mundial a abandonar o financiamento do projeto. Protestos e atenção da mídia global podem ser as ferramentas mais poderosas à disposição dos caiapós, mas como o caso de Standing Rock provou, isso não é suficiente. Organizar viagens de membros da tribo do Pará para Brasília também é caro, e com recursos limitados, os protestos indígenas estão se tornando menores e menos frequentes.

Durante o projeto da represa, Tuire confrontou o então líder da FUNAI diretamente. “Fui lá com a minha faca, que ainda guardo em casa, e coloquei na cara dele para ele parar de falar mal do nosso povo. Sou apenas uma mulher, uma guerreira, uma combatente, mas eles precisam me respeitar. Esta é a minha natureza, esta é a minha terra.”Essa atitude “guerreira” dos caiapós é o que mais impressiona Zimmerman. Eles protegem suas terras e seu modo de vida — às vezes com violência — contra as investidas do capitalismo, e se recusam a ceder apesar da pressão cada vez maior e dos recursos limitados.Nos próximos meses, isso significa que os líderes das comunidades tribais terão um papel central. “Fico um pouco emotiva quando olho a natureza. Ela é sagrada para mim”, disse Tuire. “Todas essas árvores existem não apenas para nós, os indígenas, mas para todos sobreviverem. Elas nos dão o ar para respirar, o oxigênio que precisamos. Há tantos tipos de criaturas aqui; pássaros, papagaios, macacos, tatus… Se as pessoas continuarem a destruir a natureza, onde esses animais vão viver? É por isso que não deixo ninguém destruir a natureza.”Uma coisa é certa: Tuire não vai desistir. “Vou voltar para Brasília, para o Congresso Nacional, e na presença de todas aquelas pessoas do governo, eles vão ter que me ouvir dizer de novo que não podem tirar nossas terras e fazer isso com os indígenas da comunidade caiapó.”Fonte: Vice


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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