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O presidente e seu exército de Brancaleones

O presidente e seu exército de Brancaleones

Por Sérgio Araújo 

Jair Bolsonaro não sabe falar direito. Se atrapalha com a língua pátria e por isso mesmo tropeça nas ideias e não consegue se fazer entender. O que se por um lado é ruim – transparência não só é uma exigência constitucional para quem exerce cargo público, mas uma pré-requisito cada vez mais cobrado pela sociedade -, por outro é bom, pois evita que o pior dele seja explicitado e gere mais temor pelo que está por vir.

Pensando melhor, acho que não, pois foi assim, sem tornar conhecida as suas dificuldades, carências e deficiências, que ele se ausentou dos debates na campanha eleitoral e acabou vencendo a eleição. Bem, o fato é que essa dificuldade de se expressar se tornou uma marca pessoal e de governo. E os tropeços também.

Sem uma comunicação apropriada, o que não é dito adequadamente piora quando é feito por escrito. Ainda mais se ideias ruins forem redigidas de maneira incorreta. Que o diga o próprio presidente e seus filhos, usuários obcecados pelas redes sociais e contumazes praticantes do disse não disse virtual.

Por falar em castigar o dialeto, o ministro Abraham Weintraub se tornou um especialista no assunto. Os frequentes erros de português cometidos em suas manifestações pelo Twitter, como escrever impressionante com ‘C’ e paralisação com ‘Z’, por si só atestam sua incapacidade para o exercício do cargo de ministro da Educação.

Mas como a norma para ocupação de cargos nesse governo parece priorizar a truculência verbal ao intelecto – dia desses me disseram que o critério para integrar o primeiro escalão do governo Bolsonaro era fazer exame psicotécnico e que só eram aprovados os que rodavam no teste -, o vírus do despreparo técnico e da falta das noções básicas de civilidade se propaga indiscriminadamente.

E são muitos os exemplos. Os que mais tem se destacado são os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, do Meio Ambiente, Ricardo Salles e da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

Tentando atenuar o problema, bolsonaristas dizem que os tropeços linguísticos não são uma exclusividade de Bolsonaro. Verdade. Mas nenhum outro presidente teve um conjunto de deficiências cognitivas e comportamentais como as que estamos observando. Anteriormente quando um presidente não tinha uma formação educacional consolidada ele se fazia assessorar por quem as tinha. Não é o que acontece atualmente.

Porém não é apenas o conhecimento teórico que faz um bom gestor. A vivência política e a prática administrativa são complementos importantes para o êxito de qualquer administrador, ainda mais em se tratando de um presidente da República ou de um ministro de Estado. E convenhamos, Jair Bolsonaro e os ministros anteriormente referidos não possuem esse currículo.

Certamente é isso que faz com que os critérios para seleção dos componentes do atual governo estejam em simetria com os valores defendidos pelo presidente. E é por isso também que as barbeiragens dos ministros são toleradas e até mesmo incentivadas.

Tanta trapalhada, tanto desatino, tanto absurdo fez com que a comunidade internacional e os brasileiros conscientes deixassem de ver Bolsonaro como uma liderança excêntrica, quiçá burlesca, passando a vê-lo como um governante inconsequente e, por que não, perigoso. Ou seja, o que parecia cômico era na verdade trágico. No mínimo uma reedição abrasileirada do incrível exército de Brancaleone. Mas há quem diga que se pareça mais com um governo de frankensteins. Faça a sua escolha.

(*) Jornalista

Fonte: Sul 21

 

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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