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Um salve para Martinha do Coco!

Um salve para Martinha do Coco!

Marta Leonardo ou Martinha do Coco é artista e moradora do Paranoá há 40 anos. Nasceu em Olinda, PE, de onde migrou com sua família para a antiga Vila do Paranoá aos 17 anos de idade…

Por Coletivo Território Cultural do Paranoá/Romulo Andrade

Desde então, trabalhou como empregada doméstica para ajudar no sustento da casa.
Em uma dessas experiências de trabalho, teve contato com uma musicista que percebeu seu talento artístico e a ajudou a retomar seu amor pela música. Seu primeiro experimento musical foi uma banda com instrumentos reciclados, quando trabalhou como gari, varredora de rua.
Martinha teve a oportunidade de iniciar sua carreira artística cantando samba de coco no grupo de percussão da Organização Tambores do Paranoá – TAMNOÁ – e é uma das fundadoras do Ponto de Cultura Tambores do Paranoá. A partir daí, ela vem desenvolvendo um trabalho autoral com as influências culturais da terra onde nasceu e cresceu – coco, maracatu e ciranda.
Em 2013, Martinha do Coco recebeu do Ministério da Cultura o título de Mestra da Cultura Popular e em 2019 recebeu foi homenageada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.

Captura de Tela 2022 07 12 às 18.26.20
Desde o início de sua carreira, em 2006, Martinha do Coco realizou apresentações com sua banda em diferentes eventos dentro e fora do DF, tendo se apresentado no show de comemoração do Aniversário de 54 anos de Brasília, na semana de extensão universitária da UnB e em diversos festivais, como o Festival de Música e Cultura Popular do Paranoá, o Festival Latinidades, o Festival de Cultura Popular de Bonito/GO, Festival de Cultura Como Rosa para o Sertão de Sagarana/MG, o Festival de Rabeca de Bom Jesus/PI e o Festival Rythmes et Formes du Monde, em Toubab Dialaw/Senegal.
Mulher negra e periférica, Martinha do Coco é hoje uma referência de tradição para os moradores no Distrito Federal e promove todo ano, no Paranoá, um pré-carnaval de rua com o bloco Segura o Coco.

Captura de Tela 2022 07 12 às 18.30.28
Martinha foi minha aluna nas oficinas de Arte, Cultura e Cidadania que como professor pude organizar de 2003 a 2005 no EJA – Educação de Jovens e Adultos –, trabalhando no CEF 03 do Paranoá sob a direção da professora Miriam.
Por conta do apoio e da sensibilidade dessa diretora, promovemos uma experiência das mais criativas, enriquecedoras e alegres com alunos de 15 a 60 anos. Aos alunos era dado o direito de escolher o que iam desenvolver em nossas atividades, e o resultado foi excelente.
Educação de qualidade, descolonizada, é uma chave pra se repensar as relações na sociedade – aí é que pode estar a mudança revolucionária que sonhamos: asi, paso a paso seguimos ‘agrietando el capitalismo’ (abrindo fendas na pesada estrutura do sistema econômico) – expressão usada entre as comunidades do movimento zapatista do sul do México.

Romulo Andrade – Artista visual, poeta e ativista dos Direitos da Natureza. Perfil produzido a partir do conhecimento próprio e de informações contidas em release do Coletivo Território Cultural do Paranoá. Imagens cedidas por Romulo Andrade.

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http://xapuri.info/a-lenda-do-lago-paranoa/
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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