“Bela, avançada e do bar”! Então, venha ver quem é, venha ver quem é! A deliciosamente ácida senhora Teffé!

Por Iêda Vilas-Boas

Nair de Teffé nasceu como no ditado: em berço de ouro. Filha de Antônio Luís Von Hoonholtz, o Barão de Teffé, e Maria Luísa Dodsworth. Teve sorte e inúmeras oportunidades com uma infância rica, financeiramente e culturalmente. Seu pai, como diplomata, viajou o mundo, e Nair, ainda menina, esmerilou pelos melhores lugares, de escolas a festinhas: requintados espaços da elite europeia. De nascimento era carioca, de Petrópolis, e estreou na vida no dia 10 de junho de 1886.

Segue, bebezinha, para ser criada finamente em Paris e Nice. Nairzinha só retorna ao Brasil, em 1905. Tinha 19 anos e retornava com a cabeça cheia de novidades, influenciada pela Belle Époque. A mocinha falante e inteligente tinha um jeitinho danado de bom para o desenho e, dizem, conseguia capturar bem o caráter das pessoas e o prender no papel. Logo começou a fazer suas famosas caricaturas e a trabalhar para as revistas e periódicos da época.

Mas a moça vinha de Paris… moderna, Très chic, adorava um bar, um bom drinque e tinha sempre entre os dedos ou o lápis ou uma elegante cigarrilha. Seu bar preferido era o do Jeremias, lugar bem frequentado por “gente fina”, e a bela causava um verdadeiro frisón por onde andava. Esses novos costumes vindos do Velho Mundo causavam também fofocas, invejas e disse-me-disses.

Nair de Teffé é considerada a primeira mulher cartunista do mundo e adorava brincar com os figurões e figurinhas da sociedade. Driblando o machismo, inicialmente assinava suas caricaturas como Rian, que era o seu nome Nair espelhado, de trás para frente. E brincava com a sonoridade semelhante de Rian com rien, que significa em francês: nada. Mas havia muito em Nair: em suas caricaturas a revelação de sutilezas despercebidas, havia um tanto de ironia e um monte de inteligência desafiadora.

Como haveria de ser, não lhe faltavam pretendentes e nem bons partidos e foi batata: apareceu em sua vida o presidente da República Marechal Hermes da Fonseca. Bom para ela que estava acostumada com corte e luxo. Ruim para as gentes em geral que perderam a cartunista, já que as duas funções não combinavam. Ser primeira-dama da nação, tendo por marido um homem insosso, exigia-lhe muito.

Casou-se com o Marechal, viúvo, em 08 de dezembro de 1913. Ela tinha 27, ele 57. Na cerimônia, em sinal de total repúdio a nítida ausência de seus filhos: nenhum apareceu por lá.

Entretanto, a moça era acostumada aos chiliques parisienses e não se deixou abater. Casou-se e foi impondo seu espírito ousado e transgressor. Inovava com sua alegria, dava ares modernos aos salões, levou para o Palácio do Catete o maxixe de Chiquinha Gonzaga, ela mesma tocava ao violão, e o falatório fervia pelos ambientes. Onde já se viu moça bem-educada cantar esse tipo de música e ainda tocar violão, instrumento de boêmios e sem reputação? Fosse pelo menos um piano, de cauda, é claro!

A estonteante Nair foi a responsável por introduzir o uso de calças compridas ao guarda-roupa das mulheres brasileiras. Um salto rumo ao empoderamento feminino: mulher também poderia montar a cavalo como um homem. O machismo não poderia deixar passar em branco um barulho desse, e a moça atraiu para si a ira de Rui Barbosa que, no Senado, desabafa em 7 de novembro de1914:

Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa de recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o “Corta-jaca” à altura de uma instituição social. Mas o “Corta-jaca” de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o “Corta-jaca” é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”

A bela Nairzinha não se abate e se segura no posto até o fim do mandato do Marechato. Cansada do preconceito estampado, inclusive na Tribuna do Senado, a bela foi descansar na Europa e retornou a tempo de participar da Semana de Arte Moderna de 1922.

Em 1928, volta a morar em Petrópolis e seu ativismo se dirige às letras e artes. Foi eleita presidenta da Academia de Ciências e Letras e posteriormente funda a Academia Petropolitana de Letras. Também foi presidenta da Academia Fluminense de Letras e fundou o Cinema Rian – um dos mais bem-conceituados cinemas do Rio de Janeiro, que resistiu até 1983. Mudou-se para Pendotiba, Niterói, e ali realizou seu desejo maternal, adotando três crianças: Carmen Lúcia, Tânia e Paulo Roberto.

Nair de Teffé voltou a desenhar aos 70 anos e aos 95 anos, no dia de seu aniversário, partiu, encantou-se – como diz muito bem o Rosa.

Essa maravilhosa pessoa nos deixou imenso legado de viver plenamente, enfrentar críticas, sobreviver de cabeça erguida às crises financeiras e recomeçar. Para ela está reservado um lugar especial entre as Grandes Mulheres da História.

Salve Nair de Teffé!

Iêda Vilas-Bôas – Escritora. Presidenta da Academia de Letras do Nordeste Goiano – ALANEG


 

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