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Xandão e as fake news nas bancas de tacacá

Xandão e as fake news nas bancas de tacacá

Naquela tarde calorenta de , o sino da igreja de Aparecida bimbalhou as 18h00. As três irmãs saíram de sua casa no Beco da Escola, cada uma com sua cuia bordada de flores por artistas de Monte Alegre, lá de Santarém. Maria Regina – a Maré, Maria Júlia – a Maju e Maria da Fé – a Mafé, trajando vestido godê com bolinhas coloridas, subiram a rua Xavier de Mendonça até a banca de tacacá da dona Alvina, na esquina da Alexandre Amorim. Elas não sabiam, mas eram precursoras das fake news.

Por José Bessa Freire

A banca de tacacá foi, na realidade, o berço das fake news, como comprovam as campanhas eleitorais para governador do . Quando o mundo ainda nem sonhava com a mídia digital, as fake news já circulavam com cheiro de tucupi. O atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes (o Xandão) precisa saber que as cuias de tacacá abrigaram as milícias não digitais do jambu.

Orlando Silva, relator do projeto da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630/20), votação prevista e adiada nessa terça, 2 de maio, devia explicar aos deputados como as postagens orais dos fregueses eram difundidas nas bancas de tacacá, numa época em que a televisão não chegara na sociedade oralizada do Amazonas, onde não se cultivava o hábito de ler jornais e o rádio de pilha não havia sido inventado.

Por isso, os amazonenses ficaram sabendo da morte de Getúlio Vargas de forma distorcida. Alguém ouviu a notícia num rádio de válvula, com recepção fraca, baixo volume, um zumbido e um chiado causados pelo capacitor precário. Espalhou, então, com muita rapidez, a versão de que o presidente havia sido assassinado por Carlos Lacerda, e não que se suicidara, preenchendo com sua imaginação a ´causalidade´ que faltava. Era fakemas com um fundo de verdade, considerando as calúnias responsáveis por seu suicídio disparadas por Lacerda.

MÁ FÉ

O poder viral da banca de tacacá deixava no bolso FacebookTelegram, WhatsApp, Instagram, Twitter e oscambau a quatro. Quem sofreu na pele foram os candidatos a governador do Amazonas, em 1954, especialmente Plínio Coelho (PTB), mas também Rui Araújo (Coligação PSD, UDN, PDC e PTN) e Gama e Silva (PSP). Conto o caso como o caso foi testemunhado por dona Alvina.

Plínio Coelho não era mulherengo, mas, para prejudicá-lo, convenceram as pessoas de que ele engravidara a Maju e a Maré cheia. O boato se disseminou pelas bancas de tacacá com tanta velocidade, que as pessoas ficaram com os lábios dormentes e entorpecidos, o que foi agravado pela anestesia do jambu. Até a irmã mais nova das duas, a Mafé, acreditou que ia ser tia devido à fama do principal cabo eleitoral do PTB, Gilberto Mestrinho, que dois anos depois se tornaria prefeito de Manaus.

Dona Alvina, porém, se antecipou em algumas décadas à Agência Lupa, criada pela Revista Piauí e decidiu checar a informação. Rastreou os disseminadores do boato e localizou sua origem: Severino Pão-Duro, marketeiro da UDN que morava no bairro, era o criador da mentira, misturada com uma verdade. Era fato que o Boto passava o cerol em quem vestia saia godê, mas era falso que as moças estivessem grávidas. Disso, a tacacazeira entendia.

Sua banca alimentava a freguesia com um tacacá supimpa, banana frita no palitinho, croquete de pirarucu desfiado, bolo de mandioca, tapioca e, para rimar, muita fofoca. Mas dona Alvina cuidava da vida alheia com senso profissional e seriedade. Atestado de virgindade assinado por ela valia mais do que qualquer exame ginecológico. Ela não passava nada adiante, sem antes checar as fontes. Com olhar percuciente, conferiu as barrigas de Maré e Maju e concluiu que nenhuma delas estava grávida.

A notícia era falsa e dona Alvina não deixou que seu conteúdo fosse compartilhado, botando uma dose mais forte de pimenta murupi para queimar a boca dos linguarudos, entre elas a própria Mafé, que inventara ter subido numa jaqueira para falar com Jesus, havendo confirmado com Ele a gravidez das irmãs.

AS ÁGUAS VÃO ROLAR

Grato pela ação da dona Alvina, que restaurou a verdade, Plínio Coelho realizou seu último comício na sexta-feira, 1º de outubro, em um palanque armado ao lado da banca de tacacá dela, ali na Alexandre Amorim, de frente para a Xavier. Lembro bem do dia da semana, porque era a primeira sexta-feira do mês e eu havia assistido à missa do Apostolado da Oração com meu pai. Antes de seu discurso, explodiu no alto-falante a marchinha Saca-Rolha do Zé da Zilda, lançada naquele ano, e que se transformou em sucesso em todo o .

Foto: Divulgação/ Reuters

Plínio Coelho, que tinha fama de grande orador, aproveitou a deixa e começou sua fala citando a letra da música:

As águas vão rolar…. Deixa as águas rolar… E neste domingo, três de outubro, o PTB levará os eleitores às urnas num turbilhão de votos, para derrotar a mentira com uma cachoeira de verdades.

Eu era um garoto de sete anos, mas estava lá, no meio da multidão, ao lado de Luiz Pucú, que já era poeta, e do Euclides Coelho de Souza, primo da Freida Bittencourt. Foi justamente endereçado a nós, crianças, o jingle do penúltimo orador, uma paródia da música infantil Fogo, fogo, fogo, cantada nos folguedos nas ruas de Manaus. Com essa propaganda musical, o candidato ao Senado, Mourão Vieira, mirava o voto dos pais e mães. Ficou assim:

Povo, povo, povo, o senador do povo, oi (bis). Antóvila Mourão Vieira no Amazonas tudo novo.

O PTB, que trazia um vento de renovação na vida política do Amazonas, elegeu Plínio Coelho governador e os dois senadores Cunha Melo e Antóvila Mourão Vieira, derrotando os velhos caciques conservadores: Álvaro Maia (PSD vixe vixe) e Severiano Nunes (UDN vixe vixe). Este último, aliás, foi citado nos discursos, porque todas as casas de Manaus, que haviam sido dedetizadas, tinham na sua fachada: SNM – Serviço Nacional da Malária, traduzido como Severiano Nunca Mais. Taí o Pucú e o Euclides que não me deixam mentir. Ou deixam?

O XANDÃO DE SAIA

No capítulo A mulher do tacacádo seu livro Introdução à Sociologia da Amazônia (Editor Sérgio Cardoso, 1956, pgs 308 a 310), André Araújo traz alguns elementos que permitem aprofundar a reflexão aqui apresentada:O povo bom e humilde rende o preito de recordação emotiva a essas mulheres notáveis que são as tacacazeiras, porque elas constituem a beleza das ruas, as vozes das praças, a alegria das estradas e o conforto da meninada sequiosa por comer”.  

O folclorista e pintor Moacir Andrade, que residia bem em frente à banca da Dona Alvina, reverenciou-a também em dois quadros: A tacacazeira (1972) Tomando tacacá (sem data), reproduzidos no seu livro Manaus, Ruas, Fachadas e Varandas (Editora Calderaro, 1985, pgs 99 a 101). Lá, ele nomeia as tacacazeiras famosas da cidade, “com seus vestidos e aventais brancos imaculados”, que sabiamtratar os fregueses com muita amabilidade.

Foi assim que dona Alvina, de forma eficiente, contribuiu para eleger o governador e os dois senadores do PTB, ao identificar a notícia falsa e impedir que seu conteúdo fosse compartilhado. Não seria exagero dizer que Dona Alvina foi o Xandão de saia.

P.S. Quem me iniciou nos segredos da “Tacacalogia” há mais de 40 anos foi Ernesto Renan Freitas Pinto, uma das inteligências mais brilhantes do Amazonas, que recebeu o merecido título de professor emérito da UFAM na terça, 2 de maio, no Auditório Rio Solimões. Sua tese de doutorado (PUC-SP, 1992) Sociologia de Florestan Fernandes, orientada por Octavio Ianni, foi editada pela Edua. Seu pós-doutorado na USP sobre Theodor Adorno rendeu livro de autoria coletiva com Tenório Telles e Davyd Spencer.

Jose Ribamar BessaJosé Bessa Freire – Sociólogo. Professor Universitário. Jornalista. Escritor. Membro do Conselho Editorial da . Suas crônicas são pulicadas, semanalmente, em seu blog Taquiprati. Foto: Divulgação.

 
 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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