PALAVRAS QUE DANÇAM COM A FOLIA

PALAVRAS QUE DANÇAM COM A FOLIA

PALAVRAS QUE DANÇAM COM A FOLIA

Em meio à folia de Nossa Senhora d’Abadia, em um pouso na Chácara de nome Picina de Silòé, que tradicionalmente acontece no Vale da Esperança, zona rural de Formosa-GO, entre o som da caixa, os versos cantados e o cheiro de café e chá de capim-santo, o que mais me prendeu não foi só a fé nem a festa: foi a língua. 

Por Vinícius Farias

Palavras como: mussunga; benze; canturio; ladainha; bendito; caixeiro; munssungueiro; catira; curraleira, entre outras que a cidade quase esqueceu, mas que no giro da Folia continuam vivas, precisas e cheias de significados. 

A mussunga, por exemplo, não é qualquer cozinha. É o ponto de encontro ambulante onde os foliões se aquecem, guardam as traias, contam casos e se preparam para o próximo pouso. O munssungueiro, por sua vez, cuida desse espaço sagrado de convivência. A catira e a curraleira não são só danças, carregam muita sincronia, sonoridade e memória em movimento. O bendito de mesa agradece a comida e a companhia. A ladainha e o canturio representam uma herança cultural de rezas populares transmitidas de geração a geração, de forma oral, durante séculos. Já o caixeiro marca o ritmo que guia o grupo. 

Essas palavras não estão nos manuais de português padrão. Elas pertencem a uma tradição que pesquisadores como Ionara Pereira já chamaram de “folionês”, que significa a linguagem das folias da roça de Formosa e região. Estudos mostram que esse falar guarda arcaísmos, cria termos novos e se adapta sem perder a raiz. É língua de quem gira, de quem pede pouso, de quem beija a bandeira e de quem acredita que o Divino caminha junto. 

No Vale da Esperança, como em tantas comunidades rurais goianas, a folia não é só festa religiosa. É também resistência cultural. Enquanto o asfalto avança e a cidade impõe seu vocabulário, a mussunga continua sendo chamada de mussunga. O caixeiro continua sendo caixeiro. E a catira continua batendo no chão com o mesmo nome de sempre. 

Essa riqueza linguística é patrimônio vivo. Nasceu do encontro entre a fé popular, a memória africana e a vida no Cerrado. É a mesma língua que acompanha a Romaria de Nossa Senhora d’Abadia no território Kalunga e em tantas outras comunidades rurais do nordeste goiano. Uma língua de resistência, de afeto e de identidade, que corre sérios riscos de desaparecer. Não porque a juventude não se interesse, pois muitos jovens ainda acompanham os giros, tocam e dançam.

O problema talvez seja outro: o difícil acesso às oportunidades no campo. Sem escolas de qualidade voltadas à educação no campo, apoio à agricultura familiar, sem valorização da cultura local, os jovens precisam sair. E, quando saem, levam no bolso a esperança de voltar, porém muitas vezes acabam ficando. A tradição fica para trás, guardada na memória de quem ficou. 

O poder público tem responsabilidade nisso. Educação do campo de verdade, com currículos que incluam a história e a língua das comunidades. Incentivo aos mestres e mestras de folia. Políticas que permitam aos jovens viver dignamente onde nasceram ou voltar com dignidade. Cultura não se preserva só em museu: se preserva quando as pessoas podem permanecer no território e transmitir o que sabem. 

Valorizar essas palavras é valorizar as pessoas que as carregam. É reconhecer que a diversidade linguística do Brasil não está só nos livros: está no giro, na reza, na dança e no café da madrugada. Está no Vale da Esperança, onde a Folia de Nossa Senhora d’Abadia ainda ensina que a língua também pode ser festa, fé e memória. 

Que essas palavras continuem dançando. E que as próximas gerações ainda continuem ouvindo. 

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Vinícius Farias – Licenciado em Matemática pela Unidade Estadual de Goiás, pós-graduado em Matemática Financeira e Estatística pela Faculdade Dom Alberto e pós-graduando em Educação para Cidadania pelo Instituto Federal de Goiás.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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