ENGOLE O CHORO. ENGOLE SAPO. CALA A BOCA

ENGOLE O CHORO. ENGOLE SAPO. CALA A BOCA

Engole o choro. Engole sapo. Cala a boca
 
“Cala o peito. Mas o corpo fala, e como fala. Fala a ponta dos dedos batendo na mesa. Falam os pés inquietos na cama. Fala a dor de cabeça. Fala a gastrite, o refluxo, a ansiedade. Fala o nó na garganta atravessado. Fala a angústia, fala a ruga na testa. Fala a insônia, o sono demasiado.
 
 
Galeano Dia de Luz Portal Luteranos
Candle in two hands at the dark
 
Você se cala, mas o falatório interno começa.
 
As pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas dentro de seus corações. O normal do ser humano seria a comunicação e conseguir dizer o que está sentindo. Mas nem todos se habilitam para esse difícil exercício.
 
Nem sempre digerimos bem aquelas pequenas coisas, como mensagens mal respondidas, as palavras que machucam…
Você finge que não ouviu, engole e tudo isso vai se acumulando até que um dia enche.
 
Esses pequenos fatos indigestos percorrem a garganta, entram no estômago, invadem o peito, e se deixarmos, calará nossa boca e nossa paz.
 
O importante é não deixar acumular ou achar que simplesmente vai aliviar com o passar dos dias. O tempo até tem um papel importante, mas não resolve tudo.
 
Tentar mostrar que tudo sempre está bem requer muita energia, o desgaste emocional é grande. Não dá pra engolir tudo e dizer amém! Eu sei. Também não dá pra cometer sincericídios por aí e sair vomitando as coisas entaladas na sua garganta.
 
Mas dá para se expressar.
 
Tem hora que o sentimento pede pra ser dito, entendido, descodificado, traduzido.
 
Tudo que ele quer é ser exorcizado pela palavra ou pela via que lhe cabe melhor. Expressar tranquiliza a dor. Dor não é pra sentir pra sempre. Dor é vírgula.
 
Então faz uma carta, um poema, um livro. Canta uma música. Pega as sapatilhas, sapateia. Faz uma aquarela. Faz uma vida. Faz piada, faz texto, faz quadro, faz encontro com amigos.
 
Faz corrida no parque. Fala pro seu analista, fala para Deus, para o universo… se pinta de artista. Conversa sozinho, papeia com seu cachorro, solta um grito pro céu, mas não se cale.
 
Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se afoga”.”
 
 
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Leonardo Boff para Darcy Ribeiro: “O que é, é. E o que é, é para sempre.” 

Palavras de Leonardo Boff para Darcy Ribeiro no momento em que Darcy se preparava para virar pó de estrela e se diluir na poeira cósmica 

Por Blog do Pedro Eloi via Teresinha Gaia

Darcy Ribeiro (pensador, sociólogo, antropólogo, militante dos direitos humanos, escritor…) em testamento pediu que seu corpo fosse encomendado por Frei Betto e Frei Leonardo Boff. Frei Betto não pode estar na ocasião de modo que somente Leonardo Boff esteve com ele em suas últimas horas. Leonardo Boff narra esses últimos momentos dele com Darcy:
 
Darcy – “Quero discutir com você o tema da morte, porque estou enfrentando a morte, meu grande e último desafio.”
 
Em seguida faz Boff ler o prefácio do, então inédito, “Confissões”, livro no qual Darcy faz uma leitura da vida. E Boff leu o seguinte: “Pena que a vida , tão carregada de lutas e fracassos, e vitórias, e vontade de trabalhar, seja marcada por uma profunda desesperança, porque nós voltamos, através da morte, ao pó cósmico, ao esquecimento e ficamos na memória que é curta e só de algumas pessoas, e voltamos à diluição cósmica.”
 
Então ao final da leitura Boff diz:
 
Boff – “Darcy, acho que é uma interpretação de quem vê de fora. É como você ver a borboleta, e ver o casulo. Você pode chorar pelo casulo que foi deixado para trás e ver que ele morreu. Mas você pode olhar a borboleta e dizer: “Não, ele libertou a borboleta, e ela é a esperança de vida que está dentro do casulo”.
 
Boff continua – “Darcy, deixa te dizer como imagino tua chegada , o teu grande encontro. Não vai ser com Deus Pai porque para você Deus tem de ser Mãe, tem de ser mulher…” (risos)
 
Darcy – “Então vai ser uma Deusa”
 
Boff – “Imagino assim: que Deus, quando você chegar lá em cima, vai te dizer com os braços abertos: “Darcy, como você custou para chegar, eu estava com uma saudade louca de você, finalmente você veio, você não queria vir, você teve de vir e agora chegou.” E te abraça, te afaga em seu seio, e te leva de abraço em abraço, de festa em festa”
 
Darcy – “De farra em farra…” (risos)
 
Boff – “Isso será pela eternidade afora”
 
Boff narra que nesse momento Darcy parou, olhou de lado, como que o interrogando e disse: Darcy – “Como gostaria que fosse verdade! Minha mãe morreu cheia de fé e morreu tranquila, eu invejo você, que é um homem inteligente e de fé. Eu não tenho fé. Como gostaria que fosse verdade. E então começam as partes mais lindas. Palavras que somente um sábio poderia falar, ao dizer que a fé não importava, o que importava era o amor.
 
“E você Darcy, a que dedicaste a tua vida. Tua vida foi um só ato de amor, um único ato de amor: atendeste aos famintos, às crianças abandonadas, aos índios marginalizados, aos negros e às mulheres oprimidas e, mais, ninguém louvou tanto às mulheres, quanto você. Quem fez o que tu fizeste terá o reino, a eternidade e a Deus”.
 
Leonardo faz então um jogo maravilhoso entre as palavras fé e amor. “O amor é o que vale, pois é verdade de vida, enquanto a fé é uma convicção mental”. Cita ainda palavras de Jesus, de que não se deve ter preocupações, pois estas geram pessoas doentes, neuróticas e ansiosas. Fala ainda da árvore e de seus frutos. Não há árvore boa que dê maus frutos e nem o contrário.
 
As palavras finais são mais lindas ainda. “O que é, é. E o que é, é para sempre. Entre a fé, a esperança e o amor, o maior sempre será o amor, pois o amor permanece para sempre. Enquanto que a fé acabará quando tudo for revelado, da mesma forma que a esperança, que não fará mais sentido, quando o esperado for alcançado. E então haverá apenas o amor e ele permanecerá por toda a eternidade, pois Deus é amor e nós o seremos com Ele”.
 
Darcy ainda consegue se dirigir a Leonardo para lhe dar um último recado: “Então, nos vemos na farra”! Pode existir fala mais tranquilizadora? Darcy deve ter partido em estado de muita felicidade. Eu de minha parte, desde que não seja para muito já, quando eu tivertir…, vou querer me integrar nesta farra, pois, conviver com estas companhias, deve ser para lá de bom.
 

BOFF PARA DARCY: "O QUE É, É. E O QUE É, É PARA SEMPRE"

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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