MACONHA ARGENTINA QUEIMA LEGALMENTE NO BRASIL

Neste verão, tem maconha argentina queimando legalmente no Brasil

Turistas do país vizinho têm conseguido autorização da Justiça enquanto Brasil demora com regulamentação

Por Matias Maxx/APublica

Arte: Sechat

Do Rosa, em Santa Catarina, à Pipa, no Rio Grande do Norte, passando ali por Búzios, no Rio de Janeiro, neste verão a orla brasileira está mais cheirosa: cada vez mais turistas argentinos trazem de casa, além da tradicional erva-mate, suas flores de maconha autocultivadas. E trazem pela porta da frente, de maneira legal.

Desde 2021, a Argentina mantém o REPROCANN, um registro nacional criado pelo Ministério da Saúde que autoriza pacientes a auto cultivar cannabis para fins medicinais ou ter um cultivador autorizado — o chamado cultivador solidário.

Como o Brasil reconhece o uso medicinal da maconha e permite sua importação, escritórios de advocacia desenvolveram teses que permitem a esses turistas conseguirem Habeas Corpus para ingressarem no país com seus medicamentos à base de cannabis. O trâmite, feito com antecedência e documentação médica, pode custar entre 500 e mil dólares.

Segundo o advogado Clayton Medeiros, que já atendeu dezenas dessas situações, o primeiro caso que se tem notícia foi em 2015, quando o advogado Emílio Figueiredo da Rede Reforma conseguiu um HC para uma brasileira que mora na Alemanha trazer seu medicamento ao Brasil. Em 2023, surgiu o primeiro caso de um argentino com REPROCANN, e desde então a demanda vem crescendo.

A estratégia jurídica desenvolvida baseia-se na omissão do Estado brasileiro em regulamentar o uso medicinal e o cultivo da cannabis por aqui. A legislação brasileira, tanto a antiga de 1976, quanto a atual de 2006, prevê possibilidades de cultivo para fins medicinais, mas na prática há lacunas deixadas pela agência reguladora, a Anvisa, criando um vácuo regulatório que só se preenche, na maioria dos casos, por iniciativa judicial.

“O brasileiro, o nacional, ele consegue fazer a importação de maconha via RDC 660, beleza, né? Agora o estrangeiro que às vezes quer entrar quase que com a mesma maconha que o brasileiro importa, ele não consegue ingressar no Brasil. Ele não consegue nem fazer o registro na Anvisa, pois ele não tem CPF, não tem residência fixa.

Imagem: Agência Pública

Nas associações também não consegue fazer o cadastro pelos mesmos motivos. Então ele fica nesse limbo, nesse vácuo de omissão legislativa, de omissão do Executivo, de uma omissão de uma regulamentação geral no Brasil e a saída dele é impetrar habeas corpus para se ver protegido aqui dentro.” desenrola o advogado.

Em alguns processos, o advogado também pede que o paciente adentre território nacional com “vaporizador”, um dispositivo muito utilizado por usuários medicinais. “Acontece que a Anvisa faz uma confusão, tem uma RDC 804 de 2024 que proíbe os DEF (dispositivos eletrônicos para fumar), só que a Anvisa coloca vaporizador de ervas secas no mesmo balaio de vape e de cigarro eletrônico, né? O que é um erro, e um desconhecimento técnico mesmo. Então também pedimos HC pra entrada do vaporizador, para ele não correr o risco de entrar com flores mas ter o vaporizador apreendido.”

A Argentina ensinou a Cardoso “o fácil que podia ser eu ter uma planta na minha casa”. Para alguém de São José dos Campos — uma cidade conservadora —, a experiência de cultivar sua própria brenfa foi reveladora e decisiva para ela ficar, e lá se vão quase nove anos.

“Obviamente que a Argentina também tem as suas violências policiais, assim como com os usuários, mas é notória a diferença com o Brasil e isso me envolveu, né? Então eu comecei a cultivar, daquele jeitinho que todo mundo começa, no armário, com uma luz de LED dessas de iluminar quadra, que você comprava qualquer lado e fui me metendo assim, quando você começa essa trajetória de cultivo vem um montão de coisas junto, né? Você tem que estudar, não é possível cultivar sem estudar.”

Cardoso foi se inserindo na cultura canábica local e acompanhando suas evoluções, e em 2023 obteve seu registro REPROCANN, tanto como autocultivadora para seu tratamento de bruxismo, quanto como cultivadora solidária, responsável por cultivar para outros que não podiam fazê-lo.

Edição: Bruno Fonseca

Foto Ilustrativa – Fiocruz

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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