MESMA PALAVRA DE ORDEM
No jardim silencioso que circunda o Mausoléu de Che Guevara em Santa Clara de Cuba, a frase do Pacto Del Pedrero, acordo firmado em 1958 para unificar as forças revolucionárias cubanas, ecoa com inesperada atualidade, ainda que continue a expressar a vocação latino-americana para a solidariedade rumo à construção coletiva do futuro.
Por Antenor Pinheiro, especial de Santa Clara, Cuba

Naquele momento, o desafio era derrotar uma ditadura; hoje está associado às lutas para preservar a vida nos territórios latino-americanos diante da crise climática e do avanço predatório sobre florestas, rios e povos tradicionais. Quer dizer, se antes o chamado era político-militar para vencer a tirania, agora a palavra de ordem enseja união para salvar a vida, o que significa que a essência do pacto permanece válida.
Numa outra dimensão, assim como os revolucionários de então compreenderam que nenhuma força isolada venceria a ditadura, hoje os países e comunidades da América Latina percebem que não há proteção ambiental possível sem alianças que atravessem fronteiras, culturas e movimentos sociais. A Amazônia não se defende apenas do Brasil; o Cerrado não se protege sem o Paraguai e a Bolívia; os Andes não resistem sem os povos que ali vivem há séculos; o Caribe não enfrenta os violentos furacões sem cooperação científica e climática.
O “Pacto Del Pedrero”, gravado na memória cubana, lembra que a unidade não é gesto simbólico, mas estratégia vital. E se antes a palavra de ordem era vencer ou morrer na luta pela liberdade, hoje protege povos, florestas e territórios — y sigue siendo una estrategia fundamental para la vida en el continente.
Antenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.