MESMA PALAVRA DE ORDEM

MESMA PALAVRA DE ORDEM

MESMA PALAVRA DE ORDEM

No jardim silencioso que circunda o Mausoléu de Che Guevara em Santa Clara de Cuba, a frase do Pacto Del Pedrero, acordo firmado em 1958 para unificar as forças revolucionárias cubanas, ecoa com inesperada atualidade, ainda que continue a expressar a vocação latino-americana para a solidariedade rumo à construção coletiva do futuro.

Por Antenor Pinheiro, especial de Santa Clara, Cuba

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Image Credit: Frank Bach / Shutterstock

Naquele momento, o desafio era derrotar uma ditadura; hoje está associado às lutas para preservar a vida nos territórios latino-americanos diante da crise climática e do avanço predatório sobre florestas, rios e povos tradicionais. Quer dizer, se antes o chamado era político-militar para vencer a tirania, agora a palavra de ordem enseja união para salvar a vida, o que significa que a essência do pacto permanece válida.

Numa outra dimensão, assim como os revolucionários de então compreenderam que nenhuma força isolada venceria a ditadura, hoje os países e comunidades da América Latina percebem que não há proteção ambiental possível sem alianças que atravessem fronteiras, culturas e movimentos sociais. A Amazônia não se defende apenas do Brasil; o Cerrado não se protege sem o Paraguai e a Bolívia; os Andes não resistem sem os povos que ali vivem há séculos; o Caribe não enfrenta os violentos furacões sem cooperação científica e climática.

O “Pacto Del Pedrero”, gravado na memória cubana, lembra que a unidade não é gesto simbólico, mas estratégia vital. E se antes a palavra de ordem era vencer ou morrer na luta pela liberdade, hoje protege povos, florestas e territórios — y sigue siendo una estrategia fundamental para la vida en el continente.

antenor pinheiroAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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