RÚSTICO REFÚGIO

RÚSTICO REFÚGIO

RÚSTICO REFÚGIO

Entre coqueirais que dançam ao vento e o mar que repousa em tons de verde cristalino, está São Miguel dos Milagres, um pedaço intocado do litoral alagoano. Sua rusticidade não é ausência de modernidade, mas presença plena da natureza: ruas de terra, jangadas que cortam silenciosas o horizonte e o som dos pássaros costurando o silêncio. As praias se estendem quase desertas, onde o caminhar não encontra pressa e cada pegada na areia parece um convite à contemplação.

Ali, o homem ainda convive em harmonia com o tempo das marés, a pesca artesanal que sustenta famílias há gerações, e os recifes de corais que protegem a costa feito muralhas vivas. São Miguel dos Milagres não é apenas opção turística, mas refúgio contra a pressa, contra o concreto que sufoca, contra o esquecimento de que somos parte de um todo conectado. refúgio

Sua rusticidade é lição de sustentabilidade, lembrete de que preservar é também respeitar o ritmo natural das coisas, reencontrar-se com a simplicidade essencial: redes armadas à sombra, frutas colhidas na orla, caminhos instigantes. Uma vida que se costura sem excessos, sustentada pela generosidade da terra e do mar. Em tempos de urgência climática, o lugar ecoa como milagre real: o de que ainda há lugares onde a natureza fala mais alto do que as máquinas, e onde o futuro pode ser escrito sem apagar a memória da terra.  refúgio

surpreenda se com a beleza de sao miguel dos milagres

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p style=”text-align: justify;”>antenor pinheiroAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. refúgio

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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