LULA 80 ANOS: O OPERÁRIO QUE VIROU SÍMBOLO DE UM PAÍS  E VOZ DO SUL GLOBAL

LULA 80 ANOS: O OPERÁRIO QUE VIROU SÍMBOLO DE UM PAÍS 

LULA 80 ANOS: O OPERÁRIO QUE VIROU SÍMBOLO DE UM PAÍS  E VOZ DO SUL GLOBAL

“Já é meu aniversário, mas já vi que não vou ganhar presente”, brincou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao notar a ausência de pacotes sobre a mesa durante a coletiva de imprensa que encerrava a viagem oficial ao sudeste asiático. 

Por Guto Alves 

Passava da meia-noite em Brasília – manhã na Malásia – quando o presidente atravessou o calendário e completou 80 anos de vida diante de jornalistas, falando sobre soberania, justiça climática e combate à pobreza.

“Estou completando 80 anos no melhor momento da minha vida. Eu nunca me senti tão vivo e com tanta vontade de viver”, disse, visivelmente emocionado. “Espero viver até os 120 anos. A partir de hoje, faltam só 40”, completou, arrancando risadas da imprensa. 

No mesmo dia, Lula foi recebido com um jantar de gala pelo primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim – a primeira celebração oficial dos seus 80 anos. No salão iluminado, cercado por chefes de Estado e representantes de organismos internacionais, o brasileiro brindava não só um aniversário, mas um retorno ao centro da diplomacia mundial. 

Do outro lado do planeta, em entrevista concedida no avião presidencial dos Estados Unidos, Donald Trump aproveitava para registrar publicamente: “Quero desejar feliz aniversário ao presidente. Ele é um cara vigoroso, fiquei impressionado”. Naquela mesma semana, Lula e Trump haviam se reunido em Kuala Lumpur para discutir as tarifas de 50% impostas pelos EUA às exportações brasileiras. 

A diplomacia direta, de voz firme e sem intermediários, se mostrou eficaz: em menos de 24 horas, as equipes dos dois países já negociavam uma agenda de revisão. O episódio consolidava a imagem de um presidente que, celebrando os 80, segue conduzindo a política externa com energia de quem nunca deixou de lutar. 

Das voltas inimagináveis que a vida dá, seria uma cena impensável há poucos anos: o ex-metalúrgico que enfrentou a fome, a morte de familiares, a prisão e o isolamento político, agora festejava a vida como chefe de Estado num banquete asiático. 

Nas redes sociais, a celebração ganhava tons de festa popular. A hashtag #LulaDay tomou conta da internet, reunindo homenagens de anônimos e personalidades, fotos de eleitores com o presidente e mensagens de gratidão vindas de várias partes do mundo.

ENTRE PRISÕES E RECOMEÇOS 

Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, agreste pernambucano. Aos sete anos, viajou de pau de arara com a mãe, dona Lindu, e os irmãos rumo a São Paulo, como tantos retirantes nordestinos que buscavam sobreviver à seca e à fome. 

Cresceu na periferia do ABC paulista, estudou até o primário, formou-se torneiro mecânico e ingressou na metalurgia – o caminho que o levaria à liderança sindical e, depois, à política. 

Na virada dos anos 1970, durante a ditadura militar, tornou-se uma das principais vozes do novo sindicalismo, mais independente e combativo, e desafiou o regime ao organizar as greves históricas do ABC. Dali surgiria a base que fundaria o Partido dos Trabalhadores em 1980 e iniciaria um novo ciclo de mobilização popular no Brasil. Foram três derrotas nas urnas – em 1989, 1994 e 1998 – antes da vitória consagradora em 2002. 

O país elegeu, pela primeira vez, um operário à Presidência da República. O dia da posse, 1º de janeiro de 2003, foi um rito coletivo: milhares de pessoas vindas de todas as regiões tomaram a Esplanada e mergulharam no espelho d’água do Planalto para celebrar o feito histórico. 

O governo Lula inaugurou uma era de transformações sociais e econômicas. Com o Bolsa Família, a valorização do salário-mínimo, a expansão do crédito e o acesso ampliado à educação, o Brasil saiu do Mapa da Fome e viveu um ciclo de crescimento com inclusão. Em 2010, ele deixou o Planalto com 80% de aprovação e a sucessora eleita, Dilma Rousseff. 

A QUEDA E O RETORNO 

O país que o consagrou também o viu cair. Em 2018, Lula foi condenado e preso em meio à Operação Lava Jato, num processo marcado por ilegalidades que anos depois seriam reconhecidas pelo Supremo Tribunal Federal. Passou 580 dias detido em Curitiba, onde enfrentou o luto pelo neto e pelo irmão, sem direito a entrevistas nem visitas políticas. 

“Só quem tem o direito de decretar meu fim é o povo brasileiro”, disse antes de se entregar, num discurso histórico no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Em 2019, o STF considerou inconstitucional a prisão após condenação em segunda instância, e em 2021 anulou as sentenças, reconhecendo a parcialidade do então juiz Sérgio Moro. 

A volta de Lula à liberdade foi também o retorno de uma ideia – a de que o país poderia novamente se reconciliar com a democracia. Em 2022, ele venceu as eleições mais polarizadas desde a redemocratização, derrotando o extremismo bolsonarista e assumindo o cargo que transformou a sua biografia em sinônimo de resistência. 

LIÇÕES DE UM ESTADISTA AOS 80 ANOS 

Lula governa com a serenidade de quem sobreviveu ao tempo e aos seus algozes. Seu terceiro mandato é o da reconstrução: o país voltou a registrar superávit fiscal, o desemprego caiu para o menor patamar em quase uma década e, em 2024, o Brasil foi retirado novamente do Mapa da Fome pela ONU. 

No cenário internacional, a diplomacia brasileira recuperou protagonismo. Lula conduziu negociações para ampliar o BRICS, defendeu a criação de um fundo permanente de proteção florestal e posicionou o país como mediador em temas sensíveis – da guerra na Ucrânia à crise climática. 

A viagem ao leste asiático, que coincidiu com o aniversário, simbolizou essa retomada. Em cinco dias, o presidente firmou acordos em energia renovável, agricultura e semicondutores com Indonésia e Malásia, reuniu-se com líderes de Singapura e Vietnã e representou o Brasil pela primeira vez na Cúpula da Ásia do Leste, da ASEAN. 

“O que interessa numa mesa de negociação é o futuro. A gente não quer confusão, quer resultado”, disse, ao lado do chanceler Mauro Vieira. A frase sintetiza o momento: um presidente mais diplomático, mas ainda movido pela urgência de transformar o presente. 

Em Kuala Lumpur, recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Filosofia e Desenvolvimento Internacional pela Universidade Nacional da Malásia – o 41º título honorífico de sua vida. “Completar 80 anos recebendo tantas demonstrações de carinho e tantas gentis mensagens é indescritível”, escreveu nas redes.

O LÍDER E O TEMPO 

As homenagens atravessaram fronteiras. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, cantou parabéns e brincou: “Lula está fazendo apenas 25 anos.” Miguel Díaz-Canel, de Cuba, o chamou de “inspiração da Nossa América”. 

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, desejou “muita saúde e longa vida ao amigo do povo”, e o presidente boliviano Luis Arce agradeceu “a sabedoria e a firmeza na luta pela justiça social”. No Brasil, ministros e aliados celebraram a data. 

O vice-presidente Geraldo Alckmin publicou um vídeo com bolo e a frase: “Comemoramos hoje junto com todos os brasileiros que escolheram a democracia como forma de realizar suas esperanças”.

Fernando Haddad afirmou: “O tempo só fez crescer a sua paixão pelo Brasil.” E a ministra Anielle Franco escreveu: “É uma honra caminhar junto a um líder que luta incansavelmente pelo povo brasileiro”. 

A biografia de Lula já não pertence apenas ao campo político, mas ao imaginário coletivo. De Garanhuns a Kuala Lumpur, de torneiro mecânico a chefe de Estado, de prisioneiro a estadista, a trajetória resume a história recente do Brasil – com suas quedas, reconstruções e renascimentos. 

E quando perguntado sobre o futuro, o aniversariante não hesitou: “Pode ter certeza que eu estou com a mesma energia de quando tinha 30 anos”, disse. “E vou disputar um quarto mandato no Brasil”.

images 1Guto Alves – Jornalista em Revista Focus Brasil  https://fpabramo.org.br/focusbrasil/edicao/focus-brasil-213-80-anos-de-lula-justica-social-compromisso-e-soberania/. Capa: Ricardo Stuckert/PR.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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