INDÍGENAS “PATENTEADOS”

INDÍGENAS “PATENTEADOS”

INDÍGENAS “PATENTEADOS”

O Acre ainda não tinha dono. Pelos idos de 1880, viajantes se referiam à existência de aldeias indígenas na região e ao narrar a história delas começavam sempre com algum espanto:

Por Elson Martins

“São mais de mil indivíduos saudáveis e alegres. Os homens vivem nus e as mulheres, muito bonitas, usam apenas uma tanguinha!” Diziam também que os lugares onde os indígenas construíam aldeias eram verdadeiros “paraísos” na floresta amazônica.

Nos vales do Juruá, do Purus e do Iaco, se encontravam essa gente e esses lugares maravilhosos até que visitantes estranhos começaram a aparecer: madeireiros e caucheiros peruanos desceram das montanhas andinas e entraram pelas cabeceiras dos rios, espalhando terror entre as aldeias .

Armados de rifles, espingardas e facões, os invasores se lançaram contra um povo que, embora numeroso, se defendia com arco e flecha, tornando-se presa fácil. 

Assim, muitos guerreiros foram cruelmente assassinados enquanto mulheres e crianças se tornaram escravas. Os que conseguiram escapara foram para longe, deixando para trás malocas, roçados, cultura, histórias e mitos. 

Depois dos peruanos, os nordestinos que entraram na Amazônia pela porta da frente, subindo o Amazonas e afluentes no fim do século 19 e começo do século 20, praticaram o mesmo “etnocídio”. 

Com a justificativa de alargar os seringais para aumentar a produção da borracha, seringalistas e seringueiros organizaram grupos para expulsar os indígenas das terras.

As “correrias”, como ficaram conhecidas as missões da barbárie na versão brasileira, foram mais perversas e prolongadas, chegando aos anos cinquenta do século passado. 

E deixaram marcas difíceis de apagar, como as iniciais FC com as quais o “amansador” Felizardo Cerqueira marcou a pele de 800 indígenas no vale do Juruá. 

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p style=”text-align: justify;”>Elson Martins conselho editorial 1Elson Martins – Escritor, conselheiro da Revista Xapuri, em “Acre, um estado de espírito”, editora Xapuri, 2022.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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