A CIVILIZAÇÃO E A IDEIA DE CONTRANATUREZA
“A civilização se compõe como uma contra natureza.”
NIETZSCHE, Friedrich.
Neste ensaio, discutiremos o conceito de contranatureza, criado por Friedrich Nietzsche, a relação do antropocentrismo com o conceito do termo e a necessidade da humanidade de recobrar o sentimento de pertencer à natureza para viabilizar a transformação da visão que temos sobre a vida, nossos corpos, nossas identidades, as relações com o outro, bem como com o meio ambiente, desenvolvendo uma análise embasada em estudos sérios acerca do ponto de vista proposto.
A contemporaneidade é o produto, em constante movimento, de todo o processo de construção da civilização. Nos dias de hoje, enfrentamos diversos problemas em torno deste produto, como o crescimento assustador nos índices de feminicídio, suicídio, aumento do uso de medicações psiquiátricas, entre outros. Para compreender melhor onde algumas questões se encontram, vamos analisar um pouco da construção do que entendemos como civilização.
Quando o conceito de antropocentrismo surge entre os séc. XV e XVI, na Europa, colocando a civilização no centro de tudo com o objetivo de transformar a cosmogonia teocêntrica que precedeu o movimento, acaba também por aprofundar um abismo que já estava sendo criado em relação à natureza. Quando se coloca o homem, o humano e, portanto, a razão humana como ponto de partida para explicar o mundo cria-se uma falsa ideia de superioridade da humanidade sobre a natureza.
Esse ponto de cisão entre a humanidade e a natureza não existe. A humanidade é a natureza e tudo se integra. Essa ilusão de que apenas a razão humana seria suficiente para explicar a vida desencadea diversos problemas estruturais como o aumento da violência, desigualdade, principalmente sobre
sociais historicamente já subalternizados como: as mulheres; a população negra e periférica urbana; comunidades originárias e quilombolas; o consumo desenfreado e vícios, a má utilização dos recursos naturais, e etc…
É fundamental transformar a forma como nos relacionamos entre nós e com a natureza para construir uma sociedade menos adoecida física e psicologicamente e que seja mais humanizada de fato. Se faz necessário valorizar a natureza como pilar da vida para que a exploração dos recursos naturais seja justa e consciente, bem como a distribuição da riqueza advinda dela.
“Nietzsche critica a civilização porque ele critica o modo de apropriação que o humano fez da vida e da natureza. … Nietzsche olha de fora a civilização, como se fosse um psicólogo da civilização, ele se diz literalmente isso. E ele olha a civilização e diz assim, essa senhora civilização, quem ela é? De onde ela vem? Que relação é essa que ela estabeleceu com a natureza?” MOSÉ. Viviane A CIVILIZAÇÃO QUER GANHAR DA NATUREZA, E AGORA? YouTube, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YOMHqZBb-18&t=645s
CIVILIZAÇÃO E A IDEIA DE CONTRANATUREZA
Quando o homem toma consciência de sua mortalidade se torna o homo sapiens sapiens, a grosso modo. A partir da percepção de que se nasce e se morre, busca-se ferramentas e meios para preservar a vida com alimentos, armas, plantas que curam e assim segue até a Revolução Criativa do Paleolítico, onde todos os elementos essenciais que compõem uma civilização já podem ser encontrados.
Vejamos, então, como surge a ideia de contranatureza de Nietzsche. Olhando para o Egito, apontemos para o primeiro modelo de ordenação social, o modelo piramidal: o Estado centrado na figura do faraó que comanda e controla seu povo por meio do poder físico, pela força de seu exército. Na Grécia, surge o segundo modelo de ordenação: a democracia, onde é o poder da palavra e do discurso que controla as pessoas, cujo poder também é piramidal, visto a hierarquia social estabelecida na Grécia. Para Nietzsche, tais modelos de ordenação representam a tentativa de controlar a vida, e é justamente isso que ele conceitua de contranatureza.
“Como o próprio conceito sugere, a moral é contranatureza à medida que prescreve a castração de nossos instintos naturais, subscrevendo o homem a uma ordem moral do mundo que o submete a conceitos como má consciência, culpa e autodesprezo. À medida que se radicaliza a crítica de Nietzsche à moral, redimindo o homem de sua própria natureza depreciada, há a radicalização do niilismo enquanto a tomada de consciência moderna de que os seus valores se assentavam no nada. Sem Deus ou qualquer princípio metafísico para fundamentar os valores, Nietzsche se coloca como o responsável pela grande tarefa de estabelecer as novas condições de existência que estará alicerçada a humanidade. Essas novas condições, portanto, requerem a naturalização do homem em três diferentes ângulos: uma nova concepção de natureza humana, uma moral naturalizada e um meio para que o homem possa se assentar nas novas condições propostas pelo filósofo.” LEMOS, Nicolle Eloisa. Nietzsche e a natureza humana: da moral como contranatureza à naturalização do homem. 2020.
Pois, quando o movimento filosófico do antropocentrismo é conceituado na Europa no fim da Idade Média, marcando o início da Idade Moderna com uma intensa transformação econômica, política e cultural, que nos influência até os dias de hoje:
“Recebe o nome de antropocentrismo a ideia, surgida na Europa do fim da Idade Média, que considera o Homem o centro do cosmos. O antropocentrismo sugere que o homem deve ser o centro das ações, da expressão cultural, histórica e filosófica. Tal filosofia ganhará popularidade em detrimento de outra predominante, o teocentrismo, onde Deus (no caso, o deus da tradição judaico-cristã) preponderava como referência central na vida do cidadão comum. A mudança de mentalidade será importante ainda no estímulo à pesquisa científica, fazendo com que as ciências, a arte e a literatura passem por evoluções constantes.” CARVALHO, Frank Viana. Humanismo e Antropocentrismo.
Vejamos, então, que o antropocentrismo surge como movimento de superação do teocentrismo que caracteriza a Idade Média. Se nessa, a ideia era viver uma vida de abnegação e sacrifício, para se alcançar o paraíso após a morte, o novo modo de olhar o mundo – razão – prometia que a ciência, um dia, sanaria as angústias humanas e faria o paraíso aqui mesmo no plano terreno. Evidentemente tal promessa caiu por Terra, visto os diversos problemas que enfrentamos atualmente, enquanto civilização, causados não pela ciência e tudo que ela desenvolveu desde que pôde ser fomentada, mas sim por causa da forma como usamos os recursos que ela nos proporciona.
É necessário aplicar a tecnologia a nosso favor, mas ao invés disso tem sido usada contra nós mesmos, contra a Terra, contra a vida. É preciso questionar a ciência, como o fez Husserl.
“não se trata, diz Husserl, de discutir a eficácia da ciências e nem o seu rigor, mas o sentido que elas têm para a vida humana. É bem verdade que a ciências se especializaram e progrediram, mas, ao mesmo tempo, se tornaram tão técnicas que não se referem mais ao sentido da vida, pois “ ela exclui de um modo inicial justamente as questões que, para os homens nos nossos desafortunados tempos, abandonados as mais fatídicas revoluções, são as questões prementes: as questões acerca de sentido ou ausência de sentido de toda a existência humana (HUSSERL, 2012. p. 3).” PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V. 22, N. 1, P.193-220, JAN./JUN. 2017.
Husserl aponta para uma crise da razão em detrimento da forma que a objetividade científica colonizou as ciências de um modo geral, trazendo-nos a uma racionalidade completamente desvinculada de nossas vidas. A construção da civilização se baseou na tentativa de controlar a vida, que é essencialmente intempestiva, incerta, desafiadora e frágil e que, por vezes, sentimos não dar conta destas questões. Então, ao invés de pensarmos numa civilização que dialogasse com essas angústias, a certeza da morte, o tempo e suas transformações e assim por diante, criamos o que a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, bebendo em Nietzsche, chama de “bolha da contranatureza”. Essa “bolha civilizatória” nos leva a não querer sentir, não querer ver, não querer estar em contato com a vida como se apresenta a nós. Negamos o mundo e substituímos a vida pelos códigos, reduzindo-nos à palavras, imagens, conceitos e padrões.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Consideremos os dados da Organização Mundial da Saúde que no ano passado concluiu que: “… mais de trezentos milhões de pessoas, no mundo todo, sofrem de depressão. Na América Latina, o Brasil é o país com mais casos. Eles aumentaram ao longo da pandemia.”. O índice de casos de suicídio também têm aumentado no mundo e principalmente no Brasil, como nos mostra o psiquiatra Humberto Muller:
“No Brasil, acontece uma morte por suicídio a cada 45 minutos, mas para cada morte temos outras 20 tentativas. Os números são altos e preocupantes”
Fonte: Agência Câmara de Notícias
Há ainda a problemática do apagamento de certos grupos sociais dessas pesquisas como é o caso da população trans, já que no Brasil o IBGE passou a incluir os critérios de gênero e orientação sexual nas suas pesquisas somente em 2022 e 2023, inviabilizando o monitoramento casos de suicídio e assassinatos dessa população. Neste ano, a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais) publicou um dossiê em que consta um índice de casos de suicídio de pessoas trans nós últimos 5 anos:

É urgente romper com a negligência generalizada sobre temas sensíveis, pois são vidas que se vão. Portanto, lembrar que é preciso resgatar o valor da vida é a proposta do presente ensaio.
Odara Caliandra Santana – Escritora, poetisa e multiartista. tem como tema central de suas obras a vida afirmada e valorizada do ponto de vista de quem ela é: mulher travesti negra e periférica, sonhadora e por isso mesmo muito prática: “saber é poder para se movimentar rumo aquilo que se acredita, os sonhos, a vida.”
BIBLIOGRAFIA
Agência Câmara de Noticias. 20/10/2022.
CARVALHO, Frank Viana. Humanismo e Antropocentrismo.
LEMOS, Nicolle Eloisa. Nietzsche e a natureza humana: da moral como contranatureza à
naturalização do homem. 2020.
NIETZSCHE, Friedrich.
MOSÉ. Viviane Mosé. A CIVILIZAÇÃO QUER GANHAR DA NATUREZA, E AGORA?
YouTube, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YOMHqZBb-18&t=645s
PHILÓSOPHOS, GOIÂNIA, V. 22, N. 1, P.193-220, JAN./JUN. 2017.









