O RELÓGIO QUE MARCOU O MUNDO

O RELÓGIO QUE MARCOU O MUNDO

O RELÓGIO QUE MARCOU O MUNDO

Há cidades que são reconhecidas pelo contorno de uma montanha, pelo curso de um rio ou pela silhueta de uma ponte. Londres, entretanto, pode ser identificada pelo som ecoado do maior relógio de quatro lados do mundo, o badalar do Big Ben que solenemente anuncia sua presença. Talvez nenhum outro relógio tenha se transformado tão profundamente em um marco geográfico.

Por Antenor Pinheiro, especial de Londres, Inglaterra

Curiosamente, Big Ben não é o nome da torre (que se chama Elizabeth Tower), mas do grande sino que marca as horas desde 1859. Ainda assim, o mundo inteiro adotou esse nome para designar o conjunto que domina a paisagem às margens do rio Tâmisa. É uma dessas licenças que a cultura popular concede quando um monumento ultrapassa sua função original.

Ao fotografá-lo às 9h31 de uma manhã de maio da Westminster Bridge, a impressão é de que a torre não apenas ocupa um espaço na cidade, mas organiza a própria paisagem. As linhas da avenida conduzem naturalmente o olhar até o relógio, como se toda Londres apontasse para ele. A imponente imagem revela aquilo que a geografia ensina: certos lugares possuem uma força simbólica capaz de orientar nossa percepção do território.

O Big Ben nasceu para medir o tempo parlamentar, regulando o cotidiano do Palácio de Westminster. Com o passar dos anos, seus ponteiros passaram a marcar acontecimentos bem maiores. Guerras, celebrações, movimentos sociais, despedidas e esperanças foram acompanhados pelo mesmo compasso de seus sinos. Enquanto governos se sucediam e fronteiras se transformavam, o relógio permanecia lembrando que o tempo é uma das poucas medidas verdadeiramente universais.

Talvez seja essa a razão de seu fascínio. O Big Ben não representa apenas Londres, nem somente a Inglaterra. Ele simboliza a permanência em um mundo em constante mudança. Cada fotografia registra um instante irrepetível; cada badalada recorda que esse instante já pertence ao passado.

No fim, compreendemos que alguns monumentos não são construídos apenas de pedra, ferro e bronze. São edificados também pela memória coletiva. E poucos relógios conseguiram marcar, com tanta precisão e imponência, não apenas as horas de uma cidade, mas o imaginário de toda a humanidade.

antenorAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.

Capa: Foto – Antenor Pinheiro

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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