O RELÓGIO QUE JUNTOU O MUNDO

O RELÓGIO QUE JUNTOU O MUNDO

O RELÓGIO QUE JUNTOU O MUNDO

Sob a ótica da geografia, poucos objetos possuem significado tão abrangente como o relógio  preso ao muro de tijolos do histórico Observatório Real de Greenwich, localizado em Londres

Por Antenor Pinheiro, especial de Londres, Inglaterra.

À primeira vista, parece apenas uma curiosidade turística, mas se trata de um dos objetos mais importantes da história da geografia moderna, intimamente ligado ao Meridiano de Greenwich, a linha imaginária escolhida como longitude zero da Terra. É a partir dela que foram organizados os fusos horários, os sistemas modernos de navegação e parte da cartografia contemporânea. Em certo sentido, o relógio ajudou a conectar espaço e tempo, dois fios invisíveis que sustentam nossa compreensão de planeta.

real observatorio de greenwich fachada
Foto: ALENA MARUK / Pexels/Divulgação

Denominado Shepherd Gate Clock, o nome do relógio homenageia seu instalador, o engenheiro e relojoeiro Charles Shepherd, e quem se detém diante dele descobre algo mais profundo que um instrumento de medição. De repente, percebe-se que aquela maravilha tecnológica do século XIX,na verdade, é um personagem da história humana, um guardião discreto capaz de fazer o mundo compartilhar o mesmo compasso. Lastreado pela inteligência humana, o relógio funciona como se um coração oculto pulsasse dentro do edifício, transmitindo seus batimentos para o mostrador voltado ao mundo. Seu desenho também guarda uma singularidade elegante: o mostrador registra as 24 horas do dia, e não apenas 12.

Foi um dos primeiros relógios públicos a exibir de forma permanente o Greenwich Mean Time (GMT), o Tempo Médio de Greenwich, referência que mais tarde serviria de base para a organização dos fusos horários do planeta. Ainda hoje, o velho relógio continua cumprindo sua missão silenciosa. Satélites orbitam a Terra, relógios atômicos contam bilionésimos de segundo e sistemas de navegação orientam veículos em qualquer continente. Ainda assim, diante daquele mostrador centenário, somos tocados por uma verdade simples e bela: mais do que marcar horas, o relógio de Greenwich ensinou a humanidade que, apesar das distâncias, dos oceanos e das fronteiras, todos viajamos juntos sob o mesmo céu.
antenorAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.  Capa: Antenor Pinheiro

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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