O tarifaço de Trump e a vassalagem bolsonarista contra o Brasil

O TARIFAÇO DE TRUMP E A VASSALAGEM BOLSONARISTA CONTRA O BRASIL

O tarifaço de Trump e a vassalagem bolsonarista contra o Brasil

Nova fase de guerra tarifária deve desvelar as farsas da extrema-direita nada patriótica 

Por Arthur Silva

No dia 15 de julho de 2026, o governo dos Estados Unidos confirmou a imposição de uma tarifa adicional de 25% aplicada de forma ampla às importações brasileiras, com vigência a partir do próximo dia 22. A medida, fundamentada em investigações do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sob a Seção 301 da Lei de Comércio, foi anunciada após um ciclo de mais de 30 reuniões bilaterais, diálogos que o governo brasileiro faz questão de manter abertos na busca por uma solução negociada. Embora a sobretaxa atinja setores vitais, Washington divulgou uma extensa lista de produtos excepcionados, como carnes, café, petróleo e aeronaves, numa tentativa de poupar o próprio consumidor norte-americano da inflação que sua política protecionista gera.

O que se apresenta como disputa comercial é, na análise do governo Lula, um calculado projeto de interferência política focado nas eleições de 2026. Para a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), o tarifaço carece de fundamentos técnicos e funciona como punição ao Brasil por não se curvar a exigências desmedidas. A decisão é vista pelo Itamaraty como um marco “lastimável”, desprovido de racionalidade econômica e desenhado para enquadrar o país em uma lógica de submissão externa.

A articulação dessa agressão conta com a participação direta da família Bolsonaro, que atua em Washington como operadora de sanções contra o próprio país. Eduardo e Flávio Bolsonaro têm sido descritos como “lobistas dos EUA”, praticando um entreguismo que fere a soberania. Em audiência na Comissão de Comércio Internacional norte-americana, o senador Flávio Bolsonaro chegou a sugerir que a aplicação das tarifas fosse adiada para o período eleitoral de outubro, tentando converter a pressão estrangeira em vantagem política doméstica e apresentando-se como o “candidato preferencial” de Trump.

Essa postura de vassalagem é apontada pela Bancada do PT como uma traição à Pátria. Enquanto o ex-presidente tentou entregar a Amazônia, seus filhos agora oferecem riquezas como as terras raras em troca de apoio político externo. A retórica bolsonarista ignora que os EUA acumularam, nos últimos 15 anos, um superávit de US$ 424,5 bilhões com o Brasil, tornando qualquer alegação de “prática desleal” brasileira uma peça de desinformação.

O Pix, alvo central da retaliação, consolidou-se como símbolo da soberania financeira brasileira. O sistema, que movimentou US$ 6,7 trilhões em 2025, é visto pelos EUA como uma “infração” por reduzir a dependência de redes privadas como Visa e Mastercard. O Ministro da Fazenda, Dario Durigan, em coletiva em São Paulo, foi enfático: “O Pix não está em negociação. Ele vai ser preservado como um serviço público oferecido aos brasileiros”.

A ofensiva pode ser ainda maior: Washington investiga uma possível sobretaxa adicional de 12,5% sob o pretexto de práticas de trabalho forçado, uma ameaça que paira sobre o Brasil e outros 59 países. Como destacou o jornal britânico The Guardian, para Trump, a “verdadeira infração brasileira não é o protecionismo, mas a autonomia”.

O impacto dessa sabotagem é sentido na produção nacional. No Paraná, o mercado norte-americano compra anualmente US$ 1,5 bilhão em produtos. O setor de madeira, especificamente, exporta cerca de US$ 615 milhões para os EUA, sustentando uma cadeia que gera 38 mil empregos diretos ameaçados pela articulação bolsonarista. Em resposta, o governo Lula reforçou o Plano Brasil Soberano, que agora soma R$ 45 bilhões em crédito via BNDES, resultado de um aporte inicial de R$ 30 bilhões complementado por R$ 15 bilhões nesta nova fase de proteção à indústria e aos empregos.

Além do socorro financeiro, o Brasil reage com o rigor da Lei de Reciprocidade (Lei nº 15.122/2025). O chanceler Mauro Vieira reforçou que a diplomacia brasileira não aceitará a “capitulação” exigida e rebateu ofensas do secretário Marco Rubio, reafirmando a convicção inabalável do presidente Lula na defesa das empresas e dos trabalhadores brasileiros.

A guerra tarifária revela o contraste entre um governo que defende a soberania e uma oposição que age como vassala de potências estrangeiras. É o ápice do cinismo histórico: aqueles que bradavam “Brasil acima de tudo” hoje pedem sanções contra a economia nacional, provando que seu projeto nunca foi a Nação, mas a sua completa submissão aos interesses de Washington.

Capa: Reprodução/Flickr/White House

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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