Em meio aos escombros de uma construção, um tênis cinza repousa sobre pedaços de concreto, tijolos e telhas quebradas. A cena destaca os vestígios da destruição e sugere a perda causada pelo desastre.

VENEZUELA ENTRE ESCOMBROS: TERREMOTOS AGRAVAM CRISE

VENEZUELA ENTRE ESCOMBROS: TERREMOTOS AGRAVAM CRISE HUMANITÁRIA

Milhares de pessoas morreram e outras tantas perderam suas casas após os tremores extremos que atingiram a Venezuela, no dia 24 de junho. A escassez de abrigo, água, alimentos e equipamentos desafia ainda mais uma resposta humanitária em um país já fragilizado por anos de crise econômica e sanções internacionais.

Por Eduardo Weiss

Dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o centro-norte da Venezuela na noite de 24 de junho. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, os tremores ocorreram com apenas 39 segundos de intervalo, provocando desabamentos, deslizamentos e destruição em diferentes regiões do país, principalmente no estado costeiro de La Guaira e na capital, Caracas.

O balanço oficial divulgado em 6 de julho apontava 3.535 mortes, 16.740 pessoas feridas e quase 18 mil sem moradia. Cerca de 12,8 mil sobreviventes estavam abrigados em 80 instalações temporárias de Caracas e La Guaira. O número de vítimas ainda pode aumentar diante da quantidade de imóveis destruídos e das dificuldades para localizar pessoas desaparecidas.

Em meio aos escombros, familiares, vizinhos e voluntários transformaram-se em socorristas. Durante os primeiros dias, muitas buscas foram realizadas com pás, picaretas e até com as próprias mãos, enquanto comunidades inteiras aguardavam a chegada de máquinas pesadas.

Equipes venezuelanas e profissionais enviados por outros países conseguiram retirar sobreviventes dos edifícios, inclusive uma criança localizada com vida seis dias depois dos terremotos.

Cada resgate representa esperança. Mas, à medida que o tempo passa, milhares de famílias precisam enfrentar a perda de parentes, das próprias casas e de tudo o que construíram ao longo da vida. Para muitas pessoas, restaram apenas os documentos que conseguiram carregar, a roupa do corpo e a espera por notícias de quem ainda não voltou.

Vista aérea de uma área urbana com diversos edifícios parcialmente destruídos e grandes montes de escombros. Ao redor, há prédios preservados, áreas com vegetação e o mar visível ao fundo.

RS/Fotos Públicas

SOBREVIVENTES ENFRENTAM NOVOS RISCOS

A emergência não termina quando as buscas são encerradas. Nos abrigos, a superlotação, a interrupção do fornecimento de água e as dificuldades de saneamento aumentam o risco de infecções respiratórias, doenças transmitidas pela água e enfermidades que poderiam ser evitadas pela vacinação. A Organização Pan-Americana da Saúde mobilizou equipes, equipamentos e insumos e lançou um apelo de aproximadamente US$24 milhões para sustentar a resposta sanitária nos meses seguintes.

Hospitais e unidades móveis permanecem sob pressão. Médicos Sem Fronteiras distribuiu kits de trauma, antibióticos, analgésicos e materiais para curativos em oito hospitais de Caracas e La Guaira. A organização também iniciou atendimentos em clínicas móveis destinadas às pessoas que passaram a viver em acampamentos e assentamentos improvisados.

As crianças estão entre as pessoas mais vulneráveis. O Fundo das Nações Unidas para a Infância estima que cerca de 680 mil crianças necessitam de assistência humanitária. A entidade afirma precisar de US$52 milhões para ampliar a distribuição de água potável, medicamentos, itens de higiene, abrigos e serviços de proteção infantil.

A fome também preocupa. O Programa Mundial de Alimentos pediu inicialmente US$ 50 milhões para fornecer alimentação emergencial a até 500 mil pessoas durante três meses. A organização já possuía estoques no país e começou a instalar centros temporários de alimentação em La Guaira, mas alerta que a continuidade e a ampliação do atendimento dependem de novos recursos.

SANÇÕES AMPLIAM OBSTÁCULOS À RESPOSTA

A tragédia atingiu um país que já enfrentava uma grave crise econômica, deterioração de serviços públicos, limitações hospitalares e dificuldades para importar máquinas, peças e equipamentos. Nesse cenário, as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos também entram no debate sobre os obstáculos à resposta humanitária.

As restrições foram ampliadas ao longo dos últimos anos e passaram a alcançar operações financeiras, ativos do governo e setores estratégicos da economia venezuelana. Autoridades e especialistas das Nações Unidas já haviam alertado que medidas econômicas abrangentes poderiam agravar a situação da população e dificultar o acesso a bens essenciais, mesmo quando medicamentos e ajuda humanitária estivessem formalmente isentos.

No dia seguinte aos terremotos, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu a Licença Geral nº 60, autorizando transações relacionadas às operações de socorro. A medida busca permitir a compra, o transporte e o envio de recursos necessários à emergência sem violar as restrições existentes.

A autorização é importante, mas não resolve imediatamente todos os problemas. Bancos, transportadoras e fornecedores podem continuar evitando operações com a Venezuela por receio de penalidades, prática conhecida como excesso de cautela ou sobrecumprimento. Além disso, uma flexibilização emergencial não reverte anos de dificuldade de financiamento, falta de manutenção e redução da capacidade de importação.

Ao mesmo tempo, não se pode atribuir toda a insuficiência da resposta exclusivamente às sanções. A dimensão dos terremotos, os danos à infraestrutura, a fragilidade das instituições públicas e as falhas na organização interna também contribuíram para atrasos. Moradores, voluntários e organizações internacionais relataram demora na chegada de alimentos, medicamentos e máquinas pesadas às áreas mais atingidas.

SOLIDARIEDADE SEM FRONTEIRAS

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho lançou um apelo emergencial para apoiar 300 mil pessoas e enviou toneladas de suprimentos, além de um hospital de campanha. Voluntários da Cruz Vermelha Venezuelana participaram das buscas e da assistência às famílias mesmo quando integrantes da própria organização também haviam perdido suas casas.

As necessidades continuarão muito depois da retirada dos últimos escombros. Será preciso reconstruir moradias, hospitais, escolas, redes de água e sistemas de energia. Também será necessário oferecer acompanhamento psicológico às crianças, às famílias enlutadas, aos sobreviventes e às pessoas que trabalharam durante dias na recuperação de corpos.

A Venezuela precisa de ajuda humanitária livre de condicionamentos políticos. Neste momento, não há vidas governistas ou opositoras, venezuelanas ou estrangeiras. Há pessoas feridas, desaparecidas, famílias sem teto, crianças com fome e comunidades inteiras tentando sobreviver.

A doação segura e o envio de suprimentos podem ajudar uma família a receber alimento, água, atendimento médico ou um lugar protegido para dormir.

Pessoa integrante de equipe de resgate, com capacete vermelho e uniforme escuro, caminha sobre escombros ao lado de um cão farejador. Ao redor, há construções destruídas, destroços e estruturas parcialmente desabadas.

RS/Fotos Públicas

COMO AJUDAR?

As doações devem ser realizadas exclusivamente pelas páginas oficiais das organizações, evitando transferências para contas pessoais ou campanhas sem identificação:

Cruz Vermelha Venezuelana e Federação Internacional da Cruz Vermelha: atendimento médico, abrigo, água, itens básicos e apoio à reconstrução.

Programa Mundial de Alimentos da ONU: distribuição de refeições e apoio logístico às áreas atingidas.

UNICEF: assistência a crianças e famílias, com água potável, saúde, higiene, abrigo e proteção.

Médicos Sem Fronteiras: atendimento médico, distribuição de insumos hospitalares e clínicas móveis.

Eduardo Weiss – Cientista Social. Produtor Cultural.

Capa: TeleSur/Divulgação

NOTA DA REDAÇÃO: Os números apresentados nesta matéria correspondem aos dados disponíveis até 6 de julho de 2026 e, infelizmente, podem aumentar à medida que avançam as buscas.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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