A CIVILIZAÇÃO E A IDEIA DE CONTRANATUREZA

A CIVILIZAÇÃO E A IDEIA DE CONTRANATUREZA

A CIVILIZAÇÃO E A IDEIA DE CONTRANATUREZA

Por Odara Caliandra Santana
“A civilização se compõe como uma contranatureza.” NIETZSCHE, Friedrich.

Quando o homem toma consciência de sua mortalidade, torna-se, grosso modo, Homo sapiens sapiens. A partir da percepção de que se nasce e se morre, buscam-se ferramentas e meios para preservar a vida, como alimentos, armas e plantas que curam. Esse processo segue até a Revolução Criativa do Paleolítico, período em que já podem ser encontrados todos os elementos essenciais que compõem uma civilização.
Vejamos, então, como surge, em Nietzsche, a ideia de contranatureza. Ao olharmos para o Egito, encontramos o primeiro modelo de ordenação social, o modelo piramidal: o Estado centrado na figura do faraó, que comanda e controla seu povo por meio da força de seu exército.
Na Grécia, surge o segundo modelo de ordenação: a democracia, em que o poder da palavra e do discurso controla as pessoas. Esse poder também é piramidal, dada a hierarquia social estabelecida na sociedade grega. Para Nietzsche, tais modelos de ordenação representam a tentativa de controlar a vida, e é justamente isso que ele conceitua como contranatureza.
É nesse sentido que Nicolle Eloisa Lemos relaciona o conceito à moral:
“Como o próprio conceito sugere, a moral é contranatureza à
medida que prescreve a castração de nossos instintos naturais,
subscrevendo o homem a uma ordem moral do mundo que o
submete a conceitos como má consciência, culpa e
autodesprezo.”
É nesse contexto que o movimento filosófico do antropocentrismo ganha forma na Europa, no fim da Idade Média, marcando o início da Idade Moderna em meio a uma intensa transformação econômica, política e cultural que nos influencia até hoje. Frank Viana Carvalho resume essa mudança de perspectiva:

“O antropocentrismo sugere que o homem deve ser o centro das
ações, da expressão cultural, histórica e filosófica.”
O antropocentrismo surge, assim, como movimento de superação do teocentrismo que caracterizou a Idade Média. Se, nesse período, a ideia era viver uma vida de abnegação e sacrifício para alcançar o paraíso após a morte, o novo modo de olhar o mundo, centrado na razão, prometia que a ciência um dia sanaria as angústias humanas e faria o paraíso aqui mesmo, no plano terreno. 
Evidentemente, tal promessa caiu por terra, diante dos diversos problemas que enfrentamos atualmente como civilização, causados não pela ciência nem por tudo o que ela desenvolveu desde que passou a ser fomentada, mas pela forma como usamos os recursos que ela nos proporciona.
É necessário aplicar a tecnologia a nosso favor, mas, em vez disso, ela tem sido usada contra nós mesmos, contra a Terra, contra a vida. É preciso questionar a ciência, como fez Husserl, não apenas quanto à sua eficácia e ao seu rigor, mas também quanto ao sentido que ela assume para a vida humana:
“(…) ‘não se trata, diz Husserl, de discutir a eficácia das
ciências nem o seu rigor, mas o sentido que elas têm para a
vida humana. É bem verdade que as ciências se
especializaram e progrediram, mas, ao mesmo tempo,
tornaram-se tão técnicas que não se referem mais ao sentido
da vida, pois ‘ela exclui de um modo inicial justamente as
questões que, para os homens nos nossos desafortunados
tempos, abandonados às mais fatídicas revoluções, são as
questões prementes: as questões acerca de sentido ou
ausência de sentido de toda a existência humana’ (HUSSERL,
2012, p. 3).”
Husserl aponta para uma crise da razão decorrente da forma como a objetividade científica colonizou as ciências de modo geral, conduzindo-nos a uma racionalidade completamente desvinculada de nossas vidas. A construção da civilização baseou-se na tentativa de controlar a vida, que é essencialmente intempestiva, incerta, desafiadora e frágil. Por vezes, sentimos não dar conta dessas questões.
Então, em vez de pensarmos em uma civilização que dialogasse com essas angústias, como a certeza da morte, o tempo e suas transformações, entre outras, criamos o que a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, inspirada em Nietzsche, chama de “bolha da contranatureza”. 
Essa “bolha civilizatória” nos leva a não querer sentir, não querer ver, não querer estar em contato com a vida como ela se apresenta a nós. Negamos o mundo e substituímos a vida pelos códigos, reduzindo-nos a palavras, imagens, conceitos e padrões.

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Foto: WikiMediaCommons

Odara SantanaOdara Caliandra Santana – Escritora, poetisa e multiartista. O artigo completo está no site da Revista Xapuri, disponível em: https://xapuri.info/civilizacao-e-a-ideia-de-contranatureza/

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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