CERRADO: NEM BIOMA, NEM SAVANA:  UM SISTEMA BIOGEOGRÁFICO

CERRADO: NEM BIOMA, NEM SAVANA:  UM SISTEMA BIOGEOGRÁFICO

CERRADO: NEM BIOMA, NEM SAVANA:  UM SISTEMA BIOGEOGRÁFICO

Podemos afirmar que até o ano de 1950 o Cerrado se nos apresentava ainda de forma intacta, com todos os seus matizes. De forma descontínua, esse ambiente poderia ser ainda encontrado nos tabuleiros do Nordeste, em Rondônia e na Chapada Diamantina, na Bahia. Era um sistema em equilíbrio, onde seus variados subsistemas interdependentes, flora, fauna, solo, recursos hídricos, processos atmosféricos e outros nos maravilhavam a visão, como se fosse uma grande constelação, numa noite sem luar.

Por Altair Sales Barbosa

 

A RUPTURA DO EQUILÍBRIO 
Porém, os processos surgidos pós-Segunda Guerra mundial, para aproveitamento da grande quantidade de produtos químicos e sucatas de diversos tipos de maquinários, incentivaram a criação de centros de pesquisas em países que funcionassem como cobaias (México,  Sri Lanka e Brasil), para aproveitar esses  restos que a guerra legou e transformá-los em insumos agrícolas que pudessem ser aplicados em grandes extensões de terras, geralmente improdutivas, do ponto de vista da economia mundial, e torná-las produtivas.

Dessa forma, o primeiro clarão se voltou para as terras iluminadas do Planalto Central Brasileiro. Os mecânicos e engenheiros logo fizeram as adaptações necessárias e mostraram utilidades para suas novas peças. Com os motores, canos, mangueiras, criaram sofisticados sistemas de irrigação, pois a água era abundante. Com os veículos militares criaram possantes tratores e com outras sucatas criaram grandes e encorpadas correntes, que junto com máquinas pesadas operaram milagres, no que se refere à retirada das vegetações nativas de porte arbóreo.  
 Os pesquisadores das áreas da agronomia, da química e da biologia transformaram, com muito brilhantismo, os produtos químicos em adubos, inseticidas, herbicidas etc. Não tão fáceis foram os estudos e pesquisas para criarem mecanismos adaptativos para plantas exóticas, com possibilidades de se adaptarem às exigências ecológicas de um novo ambiente. Mas, com centros de excelência criados e muito recurso do capital internacional e nacional, os pesquisadores logo mostraram suas habilidades para resolver esses problemas e rapidamente encontraram as soluções.
Infelizmente, o brilhantismo dos pesquisadores só cintilava em um olho, aquele que vislumbrava a produtividade. O olho do conhecimento global do ambiente esteve sempre fechado. Este fato restringia ao pesquisador a possibilidade de ver a realidade como um sistema dinâmico, cujas partes devem estar em constante interação de equilíbrio, para evitar as entropias, pois estas, uma vez desencadeadas, podem provocar situações incontroláveis.
Entretanto, quem tem muito quer sempre mais; então, os detentores dos meios de produção exigiram dos governantes a criação de suporte de infraestrutura, surgiram estradas, postos de abastecimento e serviço, que da noite para o dia se transformaram em grandes polos urbanos, Chapadão do Céu em Goiás; Chapadão dos Gaúchos, em Mato Grosso do Sul; Sinop, em Mato Grosso; Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso; Roda Velha; Rosário do Oeste, Luís Eduardo Magalhães, todos no oeste da Bahia. Isso, sem contar os povoados existentes, que logo explodiram em municípios, com economias altamente dinâmicas e absenteístas.

QUANDO A CONSTELAÇÃO COMEÇOU A DESAPARECER 
Quando esse clarão irradiante bateu pela primeira vez nos locais abençoados dos chapadões centrais da América do Sul, algumas das estrelas que formavam a constelação do Cerrado começaram a desaparecer. As primeiras foram as gramíneas e plantas herbáceas pequenas, que revestiam as inúmeras campinas, locais geralmente situados em áreas planas, com mais de 850 m de altitude. Depois atiraram ao chão as plantas arbóreas do cerrado e do cerradão, utilizando-se de correntes atreladas a possantes tratores.
 Caíram pequizeiros, mangabeiras, jatobazeiro-do-campo, cagaiteiras, baruzeiros, e tantas outras plantas arbóreas, que eram impossíveis de serem identificadas e quantificadas. Muitas viraram carvão, pelo alto teor de sílica, para serem utilizadas nas grandes siderúrgicas do Sudeste. As matas subúmidas ombrófilas, que ocupavam as chamadas terras de cultura, em razão da fertilidade do solo, foram os locais onde se instalaram as primeiras grandes
fazendas da região; cobiçadas desde os primórdios, hoje só restam resíduos ou relictos.
Além dos solos de boa fertilidade, seus recursos madeireiros, usados na indústria de móveis e nas construções, eram também bastante cobiçados. E assim se foram aroeiras, angicos, gonçalos- alves, jequitibás, jatobás-da-mata, paus-pereira, ipês, e um infindável rosário de espécies endêmicas. As matas ciliares, com o tempo, tiveram o mesmo destino; as veredas, no início preservadas, viraram também frutos da cobiça, porque representaram perigos, pela presença de pequena quantidade de gado pertencente aos posseiros, que se constituíam em ameaças para o grande
latifúndio. 
Assim, essas estrelas, que formavam uma constelação ecossistêmica, foram desaparecendo. A extinção da flora, que
constitui o ápice angular e temporal da evolução, trouxe a extinção de outros elementos, desde os atmosféricos, litosféricos, hidrosféricos e biosféricos. Estes também foram ou estão paulatinamente desaparecendo, alguns já desapareceram para sempre, outros, só dependem da seta do tempo.

O CERRADO COMO SISTEMA
 
O problema central está em compreender o Cerrado apenas por sua vegetação. É importante entender que se trata de um Sistema Biogeográfico no qual flora, fauna, solo, relevo, recursos hídricos e processos atmosféricos mantêm relações de interdependência. 
É muito mais simples caracterizá-lo como Bioma, conceito trabalhado por Clements em 1916. Dessa forma, mascaram os conhecimentos globais e não precisam se incomodar com as exigências da ciência contemporânea, que a todo momento fica tirando o sossego e obrigando a pensarem continuamente.
 Quando o conceito de Bioma foi criado, nem se imaginava a teoria da Tectônica de Placas, cuja comprovação, a partir da década de 1960, veio revolucionar todos os conceitos que a humanidade tinha até então sobre os ambientes terrestres e marinhos, possibilitando uma visão holística dos fenômenos ambientais e ressaltando a ideia da temporalidade.
 O conceito de Savana carece de conhecimentos regionais profundos, inseridos num contexto global e, se for comparado ao Cerrado, demonstra as mesmas falhas que, na raiz, minam o conhecimento holístico.
Com os conhecimentos gerados pela Tectônica de Placas, a Terra não poderia mais ser olhada como um planeta imutável, cujos continentes e bacias oceânicas permaneciam fixos ao longo do tempo. Em vez disso, os pesquisadores começaram a ver a Terra como um planeta integrado e dinamicamente mutável. 
Dentro dessa perspectiva, não é possível entender o Cerrado sem a devida compreensão da gênese e evolução de suas bacias de sedimentação geológica. A não compreensão dos fenômenos que originaram a formação dessas bacias restringe a possibilidade de entendimento dos recursos hídricos do Cerrado, tanto em nível de superfície como em nível subterrâneo. Restringe também o entendimento da dinâmica de cada curso d’água e suas inúmeras
interações com outros fatores componentes do sistema.

TERRA, ÁGUA E CLIMA EM MOVIMENTO 
Por outro lado, a teoria da Tectônica de Placas reforçou vários outros conhecimentos, como a dinâmica das correntes de convecção, que não só afeta o relevo, mas é capaz de mudar a temperatura das águas oceânicas, que, por sua vez, afetam as correntes marinhas, que influenciam as correntes aéreas, modificando a composição de umidade dessas. Trouxe também o conhecimento de correntes oceânicas profundas, como a Corrente da Groenlândia, que se desloca lentamente e, por onde passa ciclicamente, altera a dinâmica das correntes marinhas, que, como já foi dito, traz consequências climáticas.
 Também é importante ressaltar os avanços científicos oriundos da teoria da Tectônica de Placas e sua interação com a teoria de Sistemas, trabalhada pela Física Quântica, explicitando dados sobre a teoria do Caos, os conceitos de seta do tempo, dos equilíbrios e desequilíbrios, da irreversibilidade, do efeito borboleta, dos fractais e assim por diante. Elementos estes que são fundamentais para entender a globalidade de um sistema biogeográfico, como é o Cerrado.

altair salesAltair Sales Barbosa – Pesquisador do CNPq. Sócio Emérito do Instituto Histórico e Geográfi co de Goiás. Professor convidado da UniEvangélica. Membro do Corpo Editorial da Revista Xapuri, em 650 Gerações: O Brasil antes dos Europeus, IAS-Xapu-ri-IHGG, 2024.

Capa: Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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