ÁGUAS EMENDADAS: O CORAÇÃO HÍDRICO QUE PULSA NO CERRADO

ÁGUAS EMENDADAS: O CORAÇÃO HÍDRICO QUE PULSA NO CERRADO

ÁGUAS EMENDADAS: O CORAÇÃO HÍDRICO QUE PULSA NO CERRADO

No coração do Planalto Central, a Estação Ecológica de Águas Emendadas (Esecae) não é apenas um ponto no mapa; é o epicentro de uma das maiores riquezas hídricas do planeta. Sua trajetória começou em 1968, quando foi consolidada como a primeira unidade de conservação do Brasil sob a égide do Código Florestal de 1965, tornando-se o marco zero de uma consciência ambiental que ainda tentava se organizar no país.

Por Adeilton Oliveira de Souza

Hoje, seus quase 10.547 hectares representam muito mais do que números. Dividido em duas unidades, o território narra uma história de resiliência. Enquanto a Unidade 1 mantém a integridade do ecossistema, a Unidade 2 guarda a icônica Lagoa Bonita (ou Mestre d’Armas) e serve como um laboratório vivo da capacidade de regeneração da natureza após décadas de uso agrícola.

O verdadeiro milagre da Esecae reside na Unidade 1. Ali, o relevo desenha o destino do país: uma grande vereda atua como um divisor de bacias hidrográficas de proporções colossais. De um lado, a água que escorre para o norte alimenta a bacia do Tocantins-Araguaia; do outro, a que segue para o sul nutre a bacia do Prata. Somadas, essas rotas hídricas percorrem mais de 7.500 quilômetros, superando a extensão do Rio Amazonas. O que acontece ali, na quietude do Cerrado, reverbera em milhares de quilômetros, garantindo o abastecimento, a energia e a vida para milhões de brasileiros.

No entanto, essa “esponja” vital enfrenta desafios sem precedentes. A pressão da monocultura, a fragmentação dos corredores ecológicos e as mudanças climáticas colocam em xeque a estabilidade desse divisor. Como pesquisadores e guardiões, nosso papel transcende a observação científica. É preciso compreender a Esecae como um patrimônio cultural e arqueológico, um espaço de rituais e de saberes tradicionais que, se silenciados, levam consigo a memória das águas.

Preservar Águas Emendadas é, em última análise, um ato de resistência e de amor ao futuro. É garantir que o ciclo da vida continue a fluir, não apenas para nós, mas para as gerações que ainda precisam aprender que, sem o Cerrado de pé, não há água que sustente o sonho de um país.

O reconhecimento com o Escudo das Águas do ICOMOS em 2018 para Águas Emendadas é um marco histórico que reforça, mais do que nunca, o quanto o seu trabalho de proteção e pesquisa nesse ecossistema é vital.

Em 2024, a educação ganhou contornos reais e vibrantes através de uma série de visitas técnicas realizadas com os estudantes do curso EMI Eventos do Instituto Federal de Brasília. Mais do que saídas de campo, essas expedições foram verdadeiros mergulhos na alma do Cerrado e na história da nossa região.

Nossa jornada começou na imponente Estação Ecológica de Águas Emendadas, onde trilhamos o caminho até a Lagoa Bonita. Ali, entre o registro fotográfico e a captura de imagens, os alunos começaram a costurar a narrativa de seus documentários finais. O roteiro de aprendizado foi vasto e diversificado, passando pela simbólica Pedra Fundamental de Brasília, a tranquilidade do Parque Olhos d’Água, a vivência na Fazenda Roda e Cruz e o histórico Colégio Agrícola de Brasília (atual IFB Campus Planaltina).

A turma foi dividida em grupos, resultando em três minidocumentários que traduziram, em cerca de três minutos cada, a sensibilidade e o olhar crítico que desenvolveram durante o percurso. Um dos momentos de maior impacto foi a visita à Fazenda Bandeirinha, na antiga usina hidroelétrica de Formosa (GO). Foi uma experiência tão profunda e enriquecedora que, certamente, deixou uma marca indelével na trajetória desses jovens.

Para encerrar esse ciclo, levamos o grupo a Pirenópolis (GO). Ali, o olhar não foi apenas para o turismo, mas para a reflexão: contemplamos os morros que, infelizmente, sofreram a devastação causada pela mineração. Foi um fechamento potente, que uniu a beleza natural à consciência ambiental, cumprindo o papel fundamental de formar não apenas profissionais de eventos, mas cidadãos comprometidos com a preservação e o futuro do nosso bioma.

ÁGUAS EMENDADAS: O CAMINHO PARA O RECONHECIMENTO MUNDIAL

A educação Patrimonial, na sua forma mais profunda, exige movimento. Para os estudantes do Instituto Federal, a sala de aula se expande para além das paredes: ela ganha a forma das trilhas, das águas e dos sítios arqueológicos do nosso Cerrado. Entendemos que não basta saber da existência do nosso patrimônio; é preciso vivenciá-lo. Ao colocar o pé na estrada, o aluno deixa de ser um espectador para se tornar um guardião. É nessa experiência prática que nasce a valorização real, o respeito pela nossa história natural e cultural.

Esse trabalho de base é o que nos dá a força necessária para um objetivo maior: tornar a Estação Ecológica de Águas Emendadas um Patrimônio Mundial. Sabemos que Águas Emendadas já possui um reconhecimento internacional valioso, mas o nosso compromisso agora é consolidar esse valor em todas as esferas.

Em outubro de 2025, demos um passo decisivo ao protocolar na Secretaria de Cultura o pedido de patrimonialização da Estação. Estamos trilhando um caminho consciente e estratégico: primeiro, o reconhecimento como patrimônio do Distrito Federal; em seguida, a chancela nacional e, por fim, o merecido título de Patrimônio Mundial. Nosso papel, como educadores e defensores desse bioma, é fazer com que cada brasileiro conheça, se orgulhe e lute por Águas Emendadas. Afinal, só protegemos com afinco aquilo que conhecemos de perto.

A Estação Ecológica de Águas Emendadas é o coração hídrico do Brasil. Após anos de expedições, registros fotográficos e estudos profundos junto aos meus estudantes, a percepção que tenho hoje é radicalmente diferente da de uma década atrás. O que antes era uma paisagem, hoje se revela como um sistema complexo e vital que, infelizmente, caminha para um sufocamento silencioso sob o peso das pressões ambientais e do descaso.

Study area in the Brazilian Cerrado Estacao Ecologica de Aguas Emendadas ESECAE

Apontar problemas é um exercício necessário, mas insuficiente. Precisamos de soluções definitivas. A minha convicção, fortalecida pela experiência no comitê de bacias e pelo trabalho educacional que desenvolvemos, é que o caminho para salvar Águas Emendadas reside na sua patrimonialização pela UNESCO.

Transformar esse território em um Patrimônio Mundial é utilizar uma ferramenta legítima e poderosa de conservação. O reconhecimento internacional não é apenas um título, é um escudo. Ele impõe um olhar mais severo, técnico e cuidadoso, obrigando as esferas política e educacional a tratarem esse ecossistema com a urgência que sua importância exige.

Como educador e guardião desse bioma, meu compromisso é mover as bases necessárias para que Águas Emendadas deixe de ser vista apenas como um recurso local e passe a ser reconhecida como um tesouro da humanidade. É uma luta pela vida, pela água e pelo futuro que estamos construindo agora, com ciência, arte e consciência política.

 

images 2 1Adeilton Oliveira de Souza – Professor do Instituto Federal de Brasília – Campus Brasília (IFB).

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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