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EDUCAÇÃO E CONSCIÊNCIA: DESAFIO DO BRASIL
”Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo,
torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente,
ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a
educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco
a sociedade muda.”
Paulo Freire

O que é a consciência senão uma especulação de si mesma? Ou, segundo o bom e velho dicionário Aurélio, a consciência nada mais é que a “capacidade para discernir, para julgar com discernimento”. Do latim conscientia, que significa conhecimento, senso próprio, particular. A consciência, assim como as memórias humanas, caracteriza um indivíduo, é o que o torna humano e até mesmo imortal dentro de algumas perspectivas religiosas e filosóficas. A exemplo de John Locke, que defendia que o que faz de alguém a mesma pessoa ao longo do tempo é a continuidade de sua consciência e de suas memórias, e não a permanência de um mesmo corpo físico.
Para um dos psicólogos e neurocientistas mais renomados no mundo, o Edmund Rolls, em The Brain and Emotion (1999), a consciência é formada por “pensamentos de segunda ordem”, é o “pensar sobre o próprio pensar”, que possibilita uma revisão, e até mesmo correção, dos próprios processos mentais do pensar, possibilitando tomadas de decisões e ações.
Na tradição Yorubá e em religiões de matrizes africanas, o ori é a consciência, a essência e a divindade pessoal de cada indivíduo. Ao estudar a obra Ori, o Orixá Maior sob a perspectiva do povo Yorubá, dissertação de mestrado da mãe de santo e antropóloga Nílsia Lourdes dos Santos, é possível observar que a autora relaciona o ori a uma essência individual, o “orixá pessoal” de cada ser humano, que determina como esse indivíduo viverá e perceberá o mundo; sendo assim, a forma como o ser humano cuida do seu ori trará a ele mais equilíbrio e bem-estar.
A EDUCAÇÃO COMO FORMA DE CONSCIENTIZAÇÃO
Se alguém se dedicar ao estudo e à compreensão da consciência, observará que ela muda conforme diversos fatores como, por exemplo, região, cultura ou etnia. É nesse sentido que Paulo Freire, considerado o maior educador da História do Brasil, lança luz sobre o estudo da educação como forma de conscientização.
Ao estender a consciência para outras esferas, além da própria existência em si, Freire aborda-a de diferentes formas ao considerar o contexto social, democrático, cultural e educativo, fundamental para a formação de qualquer pessoa. Uma de suas maiores defesas estava em relacionar a educação com a consciência.
Nessa perspectiva, a consciência depende da forma como e onde a pessoa nasceu e em qual contexto ela está inserida. Assim, o primeiro passo para educar consiste em trazer a cultura do educando para a sala de aula, antes da criação de conteúdos educacionais propriamente ditos.

O CAMINHO DA CONSCIENTIZAÇÃO SEGUNDO PAULO FREIRE
Para o historiador José Eustáquio Romão, a concepção de educação presente em toda a obra de Paulo Freire está ligada à sua maneira de compreender o mundo. Na teoria do educador, é possível identificar três momentos de aprendizagem. No primeiro, o professor procura conhecer os saberes que o educando já possui.
No segundo momento, são exploradas as questões relacionadas aos temas em debate, permitindo que o aluno avance do senso comum para uma compreensão crítica da realidade. Por fim, na etapa de problematização, o percurso retorna do abstrato ao concreto: o conteúdo é examinado em suas diferentes dimensões, abrindo possibilidades de ação para superar os impasses identificados. Para Freire, esse processo contribui para a finalidade maior da educação: a conscientização.
A EDUCAÇÃO E A CONSCIENTIZAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO

A Pedagogia Crítica, pensada por Paulo Freire em sua obra Pedagogia do Oprimido, escrita em 1968 (durante seu exílio no Chile) e publicada no Brasil em 1974, é uma filosofia educacional que defende que a educação nunca é neutra: ou ela funciona como um meio de dominação e domesticação, ou como instrumento de libertação e transformação social.
Os pontos centrais da Pedagogia Crítica trazem à tona o que o educador chama de “Educação Bancária”: modelo tradicional de ensino, que apenas injeta vários conteúdos na mente do educando, caracterizando-se por manter as estruturas de opressão, sem espaço para a reflexão ou a criatividade. Uma educação que, segundo ele, forma pessoas destinadas a serem objetos da história.
Em contrapartida, a Educação Problematizadora (ou Libertadora) é oposta à Educação Bancária, pois é um modelo baseado em diálogo, um processo em que professor/a e aluno/a aprendem juntos. O conteúdo curricular nasce da própria realidade do/a estudante, realidade esta que é codificada, decodificada e criticamente analisada.
Ainda nesse sentido, o Conceito de Práxis traz uma abordagem mais concreta e executiva, tornando a reflexão e a ação indissociáveis, o que impulsiona ainda mais a filosofia e a educação freirianas: não basta só dialogar ou pensar, é preciso agir sobre essa realidade e transformá-la.
E, por fim, a Conscientização aparece como produto final, etapa em que o/a educando/a chega à “visão crítica” de sua realidade, percebendo como o meio social e político moldaram sua vida. Então, todo o meio estudado, formulado e implementado por Freire tinha como objetivo alcançar a conscientização, pois, só assim, o/a aluno/a poderia mover-se em direção à libertação e à emancipação.
Essa revolução mental ou de consciência, por mais que seja individual, afeta o coletivo e a sociedade. Trata-se de aprender a ler a realidade (conhecê-la) para em seguida poder reescrever essa realidade (transformá-la), dizia o educador.
A CONSCIENTIZAÇÃO AMEAÇA A “DEMOCRACIA” DOS CORRUPTOS
Para Paulo Freire, a formação colonial e autoritária da sociedade brasileira, decorrente de um passado escravocrata e cruel, favoreceu relações de poder desiguais, mantendo assim uma grande parte da população em silêncio e em situação de passividade nas decisões coletivas. Portanto, construir uma democracia efetiva exige enfrentar essa herança, e a educação tem um papel fundamental nesse processo.
Na educação defendida por Freire, o professor ensina, escuta e aprende. O aluno participa com seus conhecimentos, suas experiências e suas perguntas. Isso permite que a sala de aula seja um espaço de vivência democrática, onde se aprende a expressar ideias, ouvir outras perspectivas e lidar com as diferenças. O diálogo exercitado na escola contribui, assim, para a participação na vida pública.
Na perspectiva freiriana, a democracia precisa ser aprendida e exercitada, ela vai além do voto, pois o voto pode ser manipulado, e várias pessoas podem ser conduzidas a votarem em candidatos que não as representam. Esse processo se dá pela falta de conscientização. A existência da democracia depende das leis e das instituições, mas também da disposição cotidiana para escutar, questionar e respeitar as diferenças.
A educação é essencial para a pessoa chegar à consciência crítica e não ser mais quem observa, mas quem questiona, age e transforma a realidade, ou seja, não um objeto, mas um sujeito da história. Por essa razão, a educação sempre foi tão temida, sucateada, negada e até mesmo usada de forma vil para manipular mentes que ainda nem germinaram.
QUEM FOI PAULO FREIRE, O PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Paulo Reglus Neves Freire nasceu no Recife, em 19 de setembro de 1921, e tornou-se um dos educadores brasileiros de maior reconhecimento internacional. Formado em Direito, dedicou sua trajetória ao ensino e à educação popular, especialmente à alfabetização de adultos. Sua proposta partia das experiências e dos conhecimentos dos/as educandos/as para relacionar a aprendizagem da leitura e da escrita à compreensão crítica da realidade. O chamado método Paulo Freire influenciou políticas educacionais de mais de 90 países e suas ideias seguem inspirando a educação em países de todos os continentes.
Em 1963, coordenou a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, na qual cerca de 300 trabalhadores participaram de um processo de alfabetização desenvolvido em aproximadamente 40 horas de atividades. O trabalho ganhou repercussão nacional e contribuiu para a criação do Programa Nacional de Alfabetização, no governo de João Goulart, abortado com o Golpe de 1964.
É importante salientar que seu trabalho de alfabetização e formação crítica já estava em curso quando o Golpe militar de 1964 interrompeu o Programa, e Freire foi preso por 70 dias, sob acusação de “subversão”. Posteriormente, deixou o país como exilado e escreveu, no Chile, em 1968, a sua principal obra, Pedagogia do Oprimido.
De volta ao Brasil em 1980, lecionou na Unicamp e na PUC-SP e filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Entre 1989 e 1991, foi secretário municipal de Educação de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina. Continuou escrevendo e desenvolvendo suas reflexões sobre educação, com livros como Pedagogia da Esperança (1992) e Pedagogia da Autonomia (1996).
Freire morreu em São Paulo, em 2 de maio de 1997, aos 75 anos. Seu trabalho recebeu prêmios internacionais e títulos de doutor honoris causa de dezenas de universidades. Em 2012, foi declarado Patrono da Educação Brasileira pela Lei nº 12.612, sancionada pela então presidenta Dilma Rousseff. Sua obra permanece como referência para uma educação comprometida com a autonomia, a participação e a transformação social.
O MAIOR EDUCADOR E O MAIOR POLÍTICO DO BRASIL
A aproximação entre Paulo Freire e Luiz Inácio Lula da Silva ocorreu no contexto da construção do Partido dos Trabalhadores, na passagem dos anos 1970 para os anos 1980. O educador identificou na organização dos trabalhadores, movimentos populares e intelectuais uma possibilidade de ampliar a participação política das classes populares, em sintonia com sua defesa de uma educação libertadora.
Quando o PT foi fundado, em 10 de fevereiro de 1980, Freire ainda estava em Genebra, preparando seu retorno definitivo ao Brasil. Sua atuação partidária incluiu a Comissão de Educação e a presidência da Fundação Wilson Pinheiro, voltada a estudos e formação política.
Em 1982, durante a candidatura de Lula ao governo paulista, Freire contestava a ideia de que somente integrantes das elites ou pessoas com formação universitária estariam preparados para governar. Destacava o conhecimento produzido nas lutas dos trabalhadores e a compreensão da sociedade que reconhecia na trajetória do líder sindical.
Em 1989, os dois protagonizaram uma conversa gravada para o programa eleitoral da candidatura presidencial de Lula, na qual discutiram educação, democracia e justiça social. O registro tornou- se um dos documentos mais conhecidos dessa relação. Naquele ano, o nome de Freire também chegou a ser considerado para a vice-presidência na chapa, mas a escolha final foi José Paulo Bisol.
“O SISTEMA É PERVERSO”
Durante a conversa veiculada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) na campanha presidencial de 1989, Paulo Freire e Luiz Inácio Lula da Silva também discutiram a comparação entre as oportunidades do filho de um reitor e as do filho de um faxineiro, evidenciando um problema estrutural no país: a origem social pesava profundamente sobre quem chegaria à universidade e quem seria excluído do percurso escolar. Ao responder como enfrentar essa desigualdade, Freire destacou a vontade política do Estado e a participação popular nas decisões sobre a educação:
O sistema mesmo, quer dizer, o sistema é malvado em si, ele é
perverso. E tu me perguntaste, Paulo, como enfrentar isso? Eu contei,
eu fiz esse discurso maior para agora te dizer, meu caro Lula,
sobretudo, antes de pensar até em quanto vamos gastar para
enfrentar isso, é preciso saber se temos uma decisão política. É a
vontade política de cumprir uma tarefa fundamental do Estado.
É a vontade política de ouvir o povão desse país, de discutir com o
povão, de chamá-lo para que ele inclusive participe dos destinos da
escola sua e da escola dos seus filhos. E não fique apenas um
espectador do que a gente possa fazer. Quer dizer, é essa decisão
política que tu tens pessoalmente, porque tu inclusive conheces o que
é isso na tua carne, no teu corpo, na tua alma, e tu encarnas uma
postura progressista nesse país que não pode conviver com essa
malvadez.
BOLSONARISMO: OUTRO TEMPO, MESMOS DESAFIOS

Atualmente, em 2026, o Brasil enfrenta um dos episódios mais difíceis de sua História. O tão temido ano de eleições presidenciais chegou às portas da população brasileira, e algumas dessas portas se abriram para o ódio e a antipolítica do bolsonarismo, outras para a consciência democrática.
O bolsonarismo é a antítese não só política, mas também de toda a filosofia freiriana. Se a política é um meio de administrar, governar uma sociedade e resolver conflitos, o bolsonarismo chega para criar esses conflitos, desorganizar a sociedade e atrapalhar a administração pública, conforme ocorreu nos anos de 2018 a 2022, durante a “gestão” do Jair Bolsonaro. E se Freire pensava e defendia a conscientização, o bolsonarismo executa a alienação, cujo resultado é, por exemplo, uma pessoa pobre escolhendo sua própria destruição política ao mesmo tempo em que exerce pouca, ou nenhuma, participação democrática.
O bolsonarismo eclodiu e ganhou força política nacional com a campanha e a eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República em 2018, impulsionado pela crise econômica e pelo forte sentimento antipetista, que persiste até os dias atuais. A narrativa antipetista foi uma das bases que construíram e ainda sustentam o bolsonarismo, e seu principal meio condutor de informações foi a internet, informações essas de cunho fraudulento, mentiroso, chamadas fake news.
Mas essa ainda não é a grande questão. O fator importante ao se analisar o bolsonarismo é questionar como ele se alastrou tão rápido no país e como se consolidou, a ponto de disseminar-se como metástases entre as brasileiras e os brasileiros. Diante desse cenário, o pensamento de Paulo Freire permanece como referência para compreender os mecanismos de dominação e alienação e os caminhos para emancipação e conscientização da população, que se dá pela educação verdadeiramente transformadora.
