A CULTURA DOS POVOS ANCESTRAIS SÃO ARTÉRIAS DO PLANETA

A CULTURA DOS POVOS ANCESTRAIS SÃO ARTÉRIAS DO PLANETA 

A CULTURA DOS POVOS ANCESTRAIS SÃO ARTÉRIAS DO PLANETA 

Por Ailton Krenak

 “Penso que o tempo é como que um amigo

que caminha junto comigo.

Por isso, ele não me persegue.”

Mesmo estando com pessoas de outra língua, podemos aproximar nosso coração por meio da música, de fotos e de desenhos. E isso vai se transformando em palavras. 

Quando a pessoa que recebe a mensagem possui uma margem de aceitação no seu coração, poderá sentir a mensagem profunda de uma palavra. É preciso carregar a mensagem do humanismo.

As palavras podem deixar as pessoas felizes e totalmente tristes. Podem até provocar guerras.  Quando não consigo dialogar com uma pessoa usando a cabeça para me comunicar, fico envergonhado a tal ponto de querer me esconder debaixo da terra.

As palavras não existem para ferir as pessoas, elas devem ser usadas para criar. 

Certa vez, um jovem saiu para peregrinar em busca de um caminho para a sua vida. No meio do caminho, encontrou um fantasma que lhe perguntou: “Você está falando à toa, ou fala entendendo o verdadeiro sentido das palavras?” 

O jovem respondeu: “Estou falando à toa”. O jovem então se virou para ver o fantasma e, surpreso, viu ali uma pessoa de verdade. O fantasma era apenas a sua imagem no espelho.

Quando utilizava palavras superficiais, o espelho era de um fantasma. Mas a força da palavra do fantasma lhe fez perceber o sentido profundo das palavras e, a partir daí, viu sua imagem verdadeira.

As pessoas nascem com uma luz de sabedoria, que pode aumentar e fortalecer seu brilho. Precisam deixar de mentir para si mesmas, ir acumulando experiências, procurando encontrar o seu próprio caminho.

 

csm Ailton Krenak Instagram 354abd21d1Ailton Krenak – Escritor. Conselheiro da Revista Xapuri, em “Um Rio, Um Pássaro”, editora Dantes, 2023.

Capa: Créditos: Divulgação.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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