A ECONOMIA CRIATIVA NO SETOR CULTURAL E SUA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A ECONOMIA CRIATIVA NO SETOR CULTURAL E SUA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A ECONOMIA CRIATIVA NO SETOR CULTURAL E SUA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A economia criativa e a economia da cultura são frequentemente tratadas como sinônimos, mas há diferenças importantes. A UNESCO define a economia criativa como um conceito amplo que engloba tanto as indústrias criativas e culturais quanto os aspectos simbólicos e econômicos da cultura. 

Por Rita Andrade 

Já a UNCTAD, em seus relatórios, diferencia as indústrias criativas — mais ligadas à produção mercadológica — da economia da cultura, que abrange o patrimônio, os saberes e as expressões culturais tradicionais. 

No Brasil, documentos oficiais do Ministério da Cultura e pesquisas acadêmicas também destacam essa distinção, especialmente para orientar políticas públicas que valorizem o papel simbólico, social e econômico da cultura.

A economia criativa vai além das artes tradicionais, incluindo design, mídia, publicidade, tecnologia e entretenimento. Seu diferencial é transformar ideias em produtos e serviços inovadores, gerando emprego, renda e impacto cultural. Ao focar na produção imaterial, redefine o desenvolvimento econômico, criando novos vetores de crescimento e formas de organização do trabalho.

Além da economia criativa, outros modelos econômicos dialogam com as metas de sustentabilidade: a economia circular (focada na reutilização e redução de resíduos), a verde (voltada à proteção ambiental), a solidária (baseada na cooperação e justiça social), a digital (fundada na conectividade e inovação) e a do bem-estar (centrada na qualidade de vida). 

A economia criativa, por meio da cultura, conecta-se a essas abordagens ao valorizar a produção simbólica, as redes comunitárias, o design sustentável, os circuitos alternativos de comercialização e a inovação social. Essa sinergia reforça o caráter transversal da cultura e sua capacidade transformadora.

Baseada em criatividade, conhecimento e inovação, seus produtos têm valor econômico e simbólico, protegidos por propriedade intelectual. Ao articular valor econômico, geração de empregos, inovação e desenvolvimento com impacto cultural, a economia criativa se afirma como caminho concreto para enfrentar dilemas atuais — das desigualdades sociais à emergência climática, por meio de atividades com ativo estratégico do desenvolvimento econômico atual.

Focamos aqui na cultura como força simbólica, econômica e social para valorização dos patrimônios, inclusão social, geração de renda e promoção do desenvolvimento com sustentabilidade, no contexto brasileiro.

O Brasil é movido por criatividade, cultura e diversidade. Essa potência, historicamente invisibilizada nos modelos econômicos tradicionais, ganha centralidade nas discussões sobre desenvolvimento sustentável. A cultura brasileira, com sua pluralidade estética e simbólica, é uma das maiores riquezas do país. 

Da música ao artesanato, da dança à gastronomia, da literatura e artes visuais ao audiovisual – o Brasil produz arte em todos os cantos, mesmo sem políticas permanentes de incentivo. Valorizar essa produção, garantir financiamento estruturante e reconhecer o trabalho de artistas, coletivos e mestres populares são condições essenciais para um desenvolvimento inclusivo e sustentável.

CONEXÃO CULTURA-SUSTENTABILIDADE

No centro dessa transformação está a conexão entre cultura e sustentabilidade. A economia produzida pela cultura brasileira vincula-se diretamente às metas da Agenda 2030, com destaque para os ODS 4 (Educação de Qualidade), 8 (Trabalho Decente), 10 (Redução das Desigualdades), 11 (Cidades Sustentáveis), 12 (Consumo Responsável) e 13 (Ação Climática). Isso não é teoria: práticas consolidadas nos territórios mostram que cultura e arte são vetores reais de mudança.

A educação, em interseção com a arte e a cultura, tem papel estratégico nesse processo. Oficinas culturais, projetos de arte-educação, museus interativos, produções audiovisuais, manifestações regionais e características de territórios e outras ações contribuem para a conscientização socioambiental e o fortalecimento de vínculos comunitários. 

A arte engaja, emociona, forma pensamento crítico e resgata saberes ancestrais. Nos centros urbanos, periferias, aldeias indígenas, quilombos e comunidades ribeirinhas, a produção cultural é instrumento de resistência e projeto de futuro.

O potencial turístico também é evidente. Experiências como o Carnaval, o turismo de base comunitária no Cerrado e em outros biomas, as rotas culturais afro-brasileiras no Recôncavo Baiano, os festivais amazônicos e os roteiros imersivos em favelas urbanas são exemplos que revelam demanda por vivências culturais autênticas e que podem ser cada vez mais sustentáveis. Iniciativas como essas geram renda local, fortalecem a identidade dos territórios e impulsionam cadeias produtivas que, com incentivo e formação, podem respeitar ainda mais o meio ambiente.

AGENDA 2030

Ressaltamos que as metas da Agenda 2030 não serão alcançadas sem o protagonismo da cultura. É preciso consolidar políticas públicas que reconheçam o setor cultural como pilar do desenvolvimento nacional. Isso inclui financiamento de longo prazo, desburocratização dos editais, políticas que considerem diversidade regional, de classe, de gênero e racial, infraestrutura cultural nos territórios, educação ambiental baseada em práticas culturais e sistemas de avaliação de impacto com indicadores sociais, ambientais e culturais.

A economia da cultura não é setor periférico. É motor de inovação, inclusão e sustentabilidade. Seu avanço depende de vontade política, redes colaborativas e do reconhecimento de que desenvolvimento não é só crescimento do PIB, mas bem-viver, justiça e pertencimento. Em um país com tamanha riqueza cultural, é hora de colocar a cultura no centro da agenda de futuro.

A declaração do G20 em 2024, firmada no Brasil, reconhece que a cultura deve ocupar papel central na construção de um planeta sustentável. Paralelamente, iniciativas como o Creative Economy Outlook da UNCTAD e o financiamento internacional de projetos culturais sustentáveis têm orientado políticas públicas no Sul Global.

O desafio está em consolidar essas práticas como política de Estado. Ainda faltam dados sistematizados, instrumentos robustos de avaliação, financiamento de longo prazo e integração entre políticas culturais, ambientais, educacionais e territoriais. É preciso avançar em políticas acessíveis que reconheçam saberes locais, priorizem territórios vulneráveis e articulem cultura, inovação, tecnologia e sustentabilidade.

A cultura brasileira é uma das maiores riquezas do país — não apenas pelo valor simbólico, mas por sua capacidade de gerar inclusão, renda e cuidado com o planeta. Colocar a cultura no centro do desenvolvimento é reconhecer que o futuro passa por territórios criativos, políticas intersetoriais e um Estado que compreenda que sustentabilidade não se faz sem arte, memória e pertencimento.

1745556673835Rita Andrade Mestra em Políticas Públicas e Governo pela FGV, com dissertação intitulada Políticas Públicas Culturais como Caminhos para a Transformação Social. Especialista com MBA em Gestão Humanizada de Gestores e curso de extensão em Gestão e Liderança de Equipes pela FGV. Graduada em Educação Artística pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Atua como parecerista de projetos culturais, diretora de produção cultural com ênfase em gestão de projetos audiovisuais, produtora executiva e assessora em projetos de ações afirmativas.

NOTA: Este texto é um extrato da dissertação de mestrado disponível no repositório da FGV: ANDRADE, Rita de Cássia Fernandes de. Políticas públicas culturais como caminhos para a transformação social. 2025. cap. 4 ARTIGO 3 – A ECONOMIA CRIATIVA NO SETOR CULTURAL E SUA CONTRIBUIÇÃO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Disponível em: https://repositorio.fgv.br/items/cbf9bbde-74cb-44b0-81fa-0cd0fab4874a

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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