A “paz através da força” e as eleições brasileiras
Pressão de Trump sobre a América Latina faz lembrar suporte dos EUA à ditadura militar e traz alerta para eleições
Por Marina Amaral/Agência Pública
No dia 31 de março de 1964, véspera do golpe militar que atingiria o país, o contra-almirante John Chew, vice-diretor de operações navais dos Estados Unidos, ordenou ao comandante-em-chefe da Esquadra do Atlântico o deslocamento do porta-aviões Forrestal para a “área oceânica nas vizinhanças de Santos, Brasil”.
A força naval, encabeçada pelo Forrestal, era composta de seis destróieres, um porta-helicópteros e quatro petroleiros. Também faziam parte da missão quase 20 aviões, entre eles oito caças, e um posto de comando aerotransportado.
O objetivo era garantir suporte militar americano aos golpistas de 1964, descritos nos telegramas do embaixador Lincoln Gordon a seu governo como “as forças democráticas” do Brasil, presidido pelo “comunista” João Goulart.
Os americanos estavam incomodados com a força dos sindicatos na democracia brasileira, bem como a retórica antiimperialista de alguns membros do governo Goulart, que também havia estatizado uma subsidiária da ATT, empresa de comunicação dos Estados Unidos.
Batizada como Brother Sam, a operação seria o desfecho de pelo menos três anos de conspiração ativa dos Estados Unidos com militares e empresários brasileiros para derrubar a democracia brasileira. Não precisou ser executada, já que por aqui os militares que resistiam ao golpe acabaram traindo Goulart, facilitando a queda do presidente escolhido nas urnas.
Mas o fato é que os Estados Unidos estavam prontos para intervir militarmente no país para garantir a ditadura e os militares já tinham aberto mão de nossa soberania.
É com essa herança histórica que olhamos para a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente, sob falsos pretextos, como prova o recuo da Justiça dos Estados Unidos nas acusações feitas contra Nicolás Maduro.
O fato de o presidente da Venezuela ter forjado os resultados das eleições ou ser um ditador não entra nessa conta, já que não foi esse o motivo de sua “captura” – assim como a democracia nunca impediu a interferência dos Estados Unidos contra outros governos, como prova o golpe de 1964 no Brasil, o de 1973 no Chile e tantos outros.
Ou, em tempos de hoje, as ameaças de Trump à Colômbia e ao México, e as tentativas recentes de interferir na Justiça brasileira.
Nesse 8 de janeiro em que escrevo, três anos depois do atentado contra a democracia por Jair Bolsonaro, seus generais e comparsas, chego a duvidar que a habilidade e altivez do governo Lula serão capazes de manter a nossa democracia longe das garras dos falcões se não contar com forte apoio interno e alianças com outros países, apesar do enfraquecimento do multilateralismo pelos próprios Estados Unidos.
A interferência de Trump nas eleições na América Latina é um processo que já está em curso em outros países latino-americanos, como mostra reportagem da Pública, e que mostrou informalmente a sua cara nas eleições de 2018, com a aproximação dos políticos bolsonaristas de ideólogos e marqueteiros da direita trumpista daquele país.

Fonte: Instituto Lula

Ricardo Stuckert
Imagem de Capa: TaQuiPraTi
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O país viveu tantas coisas, se redemocratizou, teve retrocessos por um mandato presidencial, mas esse passado não passa. Os filmes são vistos por milhões de brasileiros, a maioria dos quais não viveu aquele período, com naturalidade, não como filmes sobre o passado, não como algo de um passado longínquo.
É certo que o país não passou a limpo tudo o que viveu durante a ditadura militar, os 21 anos que fazem da ditadura brasileira a mais longa de todas na América Latina. Não tivemos a alegria que os argentinos tiveram de ver seu principal ditador – Jorge Videla – ser julgado, preso e morrer na prisão.
A transição democrática não se deu como ruptura. O novo regime surgiu como um misto do velho e do novo, da sobrevivência do passado. O primeiro presidente civil foi eleito sem o voto direto, porque a campanha pelas eleições diretas foi derrotada no Congresso. Como resultado, o primeiro presidente civil do Brasil depois da ditadura militar foi quem era presidente do partido da ditadura militar, que se havia oposto às eleições diretas.
Mesmo um momento, a Revolução de 30, que, a posteriori, aparece como uma grande ruptura, na passagem de um regime hegemonizado pela oligarquia agrária para um governo que passou a promover centralmente os interesses da burguesia industrial, foi feito acompanhado dessa afirmação.
Para não ir tão longe, em 8 de janeiro de 2023 houve uma tentativa de um novo golpe, que buscava reinstalar no país uma ditadura, que foi rapidamente derrotada, demonstrando que os tempos são outros, que a democracia que temos veio para ficar.
A eleição de Lula, em 2002, foi igualmente um marco fundamental na afirmação da democracia no Brasil. Um líder sindical, nordestino, do Partido dos Trabalhadores, tornava-se presidente do Brasil, tendo se reelegido e eleito sua sucessora.
É nessa democracia realmente existente que milhões de brasileiros consagraram dois filmes que se passam durante a ditadura militar, revelando como é um passado que não passa.