AS CRIANÇAS NO EXÍLIO E O MUNDO FLICTS

AS CRIANÇAS NO EXÍLIO E O MUNDO FLICTS

AS CRIANÇAS NO EXÍLIO E O MUNDO FLICTS

Anda, preparándote a vivir, en América, tu América

(Canción de Payo Grondona. Valparaíso. 1969)

Por José Bessa Freire

As lembranças evocadas com a leitura de “Crianças e Exílio: Memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar” foram tão pungentes, que adiei a resenha desse livro com depoimentos de 46 pessoas. 

Senti-me instigado a contar, antes, alguns lances da convivência pessoal com três delas: uma no Chile – Isabella Thiago de Mello – e duas no Peru – André Luiz e Maria José. Os dois últimos, que ainda não narraram suas histórias, estão ausentes do livro.

Em Santiago, presenciei a mãe de Isabella, Lourdinha, “com o vestido cada dia mais curto”. Quando deu à luz a filha, recebeu flores entregues pessoalmente por Allende, então presidente do Senado e sempre amigo do poeta Thiago de Mello.

Morei um par de meses com eles. Em suas eventuais saídas, eu ficava de baby-sitter, fazendo jus ao apelido de babá. Isabella, quietinha no berço. Eu, atento a algum terremoto, por si acaso. Entre algumas músicas de ninar que ouvíamos, lembro de Duerme, duerme, negritona voz de Victor Jara em um LP lançado na época. A audição era compartilhada entre padrinho e afilhada, como até hoje nos tratamos.  

No texto escrito para o livro, Isabella reconstruiu suas lembranças e, em mensagem a mim enviada, filosofou:

A Memória é química, faz parte do corpo e da alma, para sempre. É uma ilusão achar que o tempo passa. O Tempo fica na gente, entranhado nos glóbulos vermelhos, aqueles pontinhos do cerebelo. O Tempo é totalmente relativo, se fosse um gráfico jamais seria uma linha reta. O Tempo é sólido, tem altura, largura e profundidade como a Cordilheira dos Andes.

FLICTS E ANDRÉ

Segui a Cordilheira. Despedi-me do Chile para ir ao Peru integrando o Teatro de Bonecos Dadá, dos titiriteiros Euclides e Adair. O casal foi condenado no Brasil a quatro anos de prisão, acusado de “ensinar marxismo-leninismo a crianças de três anos do Jardim da Infância Pequeno Príncipe”. 

Policiais invadiram a casa, destruíram cenários, cortinas, bonecos, e destriparam Eva, presente do “papa dos títeres” Sergey Obratzov, do Teatro Kukol de Moscou. Feita de espumas, Eva não consta na lista de desaparecidos políticos.

É aqui que surge André, nascido em 1968. Seus pais saíram clandestinamente para o Chile onde viveram nove meses e, em seguida, para o Peru, onde passaram seis anos. Deixaram o filho com a avó em Curitiba.

Trazido a Lima aos dois anos de idade, viu três desconhecidos: a mãe, o pai e eu, ali no meio. Conheceu, enfim, sua família e seu lar: a garagem alugada de uma casa em Magdalena del Mar. Já familiarizado, ele despertava cedinho, antes de todos, cutucava meus olhos com seus dedinhos e murmurava:

– Zé Bessa, acorda, vamos pro parque.

Fomos algumas vezes ao zoológico do Parque de las Leyendas. Foi lá, à beira do lago, que contei para André a história de Flicts, cuja versão para o teatro de bonecos seria feita anos depois. 

Eu folheava o livro de capa dura com as figuras do Ziraldo, mostrando a ele a cor flicts em sua inútil busca por um lugar no mundo. No final, percebi no rosto do André, de perto, algumas lágrimas furtivas e silenciosas, mesmo estando ele aliviado por saber que a lua, de perto, era flicts.  

Nas encenações dominicais em Miraflores, André nos acompanhava. Sabia de cor as falas dos bonecos. Lá, na plateia, no meio de outras crianças, dava spoiler, se antecipava aos personagens e irradiava o que iria acontecer em seu portunhol, para assombro do público infantil, que se sentia diante de um herói. 

NO JARDIM DA BURGUESIA 

Certa vez, uma brasileira residente em Lima trouxe o filho de 5 anos para ver “Os palhaços sem cabeça”. O garoto se divertiu. A mãe, encantada, revelou que era amiga do embaixador do Brasil e nos convidou para apresentar o espetáculo no Centro Cultural Brasil-Peru (CCBP) para filhos de brasileiros residentes em Lima. Ela desconhecia nossa condição de exilados. Fingimos estar em uma turnê pela América Latina.

Embora a gente sempre mantivesse distância da Embaixada e de suas ramificações, fomos ao CCBP. Pouco antes de lá chegar, em conversa reservada entre nós, manifestei preocupação:

– A porra desse Centro deve tá cheia de policial.

Na chegada, fomos apresentados ao cônsul, ao lado do adido militar, ele acariciou a cabeça do André, que falou em voz alta:

– A porra desse Centro deve tá cheia de policial.

Nunca mais nos convidaram. Nem aceitaríamos. No lançamento do livro Teatro de Bonecos Dadá, memória e resistência, em 2019, só de pirraça, tiramos uma foto com bonecos fantasiados com a foice e o martelo.

Outra vez, após o espetáculo, desmontamos o palco, guardamos os bonecos na mala e, carregando as tralhas, saímos a pé para casa, com André a tiracolo, numa caminhada de uma hora por um bairro residencial – um deserto naquele domingo. 

“Eu quero fazer cocô” – ele insistia, se contorcendo. A mãe respondia: – “Espera chegar em casa”. Ao passarmos diante de uma mansão com porta fechada e muro baixo que dava para um jardim, suspendi André nos meus braços e o coloquei sobre o gramado:

– Faz cocô agora aqui no jardim da burguesia. 

Fez. Durante algum tempo, grato, pedia a confirmação diante de amigos que nos visitavam:

– Zé Bessa, eu fiz cocô no jardim da burguesia, não foi?   

CRECHE NUNCA MAIS 

Depois, o Teatro Dadá se uniu ao grupo Kusi-Kusi para fundar o Teatro y Escuela de Títeres. Uma foto registra cada um com o seu boneco. Levei, então, meu exílio para Paris. Adair contou que André chorava minha ausência em portunhol: 

Mi papito se fué.

Esta confusa noção de família era baseada na sua vivência. Conheceu Euclides e eu no mesmo momento, na mesma casa, compartilhando os mesmos cuidados e exercendo ambos autoridade inquestionável. Assim, acreditava que as crianças podiam ter dois pais: um biológico e outro de criação. E aqui entra a outra filha do exílio.

Filho de peixe, peixinho é? Depende do peixe.  O consulado brasileiro em vários países recusou registrar crianças filhas de exilados. Maria José foi uma delas. Nascida em Lima em 1974, tinha direito à dupla nacionalidade por ter pai brasileiro e mãe peruana, mas o consulado ficou enrolando. Crianças

Foi registrada graças à diplomata Vera Pedrosa, filha de Mário Pedrosa, acionada por seu ex-marido Luciano Martins. Seu nome registrado homenageava Maria José Lourenço, amiga exilada e companheira de militância do pai. O primeiro berço da Zezé II foi presente da Zezé I: um moisés com capota de vime. Crianças

Crianças de pais exilados quase sempre crescem em situação de graus diversos de bilinguismo, com função diferenciada para cada língua que, em situação de contato, deixam marcas mútuas, mexem e remexem com as identidades. Falsos cognatos e outros tipos de ruídos causam conflitos na comunicação.

A primeira língua da neo-brasileira, do ponto de vista cronológico, foi o espanhol adquirido na convivência com o entorno: mãe, avó materna, primas e primos. Entendia o português falado e cantado em casa pelo pai e interagia com eventuais exilados brasileiros. 

A escola, lugar de socialização, permite conversação na língua oficial do país acolhedor. Mas ela não teve escolaridade no Peru. O breve ensaio na creche do Ministério da Educação, local de trabalho da mãe, foi um fracasso. Um coleguinha deu-lhe uma mordida: “creche, nunca mais”.

BUENAS NOCHES

Após Zezé completar dois anos, em dezembro de 1976, a família se mudou para o Brasil. Para o pai, era um retorno. Para a mãe e a filha, uma aventura em terra desconhecida. No aeroporto de Manaus foram recebidos por 82 pessoas: nove irmãs e dois irmãos, tios e tias, muitos sobrinhos, primos, cunhados e xerimbabos.

A família se hospedou na casa da vó Elisa, no bairro de Aparecida, onde moravam as duas irmãs mais novas solteiras e uma terceira divorciada com um casal de filhos pequenos.

Passado o Natal, a mãe retornou ao Peru por um mês para arrumar as coisas: pedir demissão do trabalho, organizar os livros, entregar a casa. Quarenta e oito horas depois, a Polícia Federal prendeu o pai. De um dia para o outro, Zezé ficou sem pai nem mãe. Crianças

– A minha angústia – escreveu a mãe – é imaginar como a Zezé sobreviveu naquelas três semanas em um universo desconhecido, sem a principal referência, o pai, que a fazia dormir com canções de ninar. Ela ainda engatinhava na língua portuguesa. Crianças

A mãe agradeceu o esforço da família brasileira para se fazer entender: 

–  Soube que as tias se desdobraram para protegê-la na sua orfandade ocasional. Uma delas contou que, ao dar boa noite, a sobrinha respondia:

–  Buenas noches. E com voz chorosa perguntava pelo pai. 

– Foi comprar sorvete. Helado explicava uma das tias.. Crianças

Três semanas depois, liberado pela Polícia Federal, um cunhado aconselhou no caminho para casa:

 –  Compra um sorvete.

Comprei. Quando lhe entreguei o helado, ela me olhou, com uns olhos andinos tristes. Acariciou minha cabeça com um jeito protetor. Parecia uma velha.

De repente, a ditadura invertera os papéis, transformando-me no filho órfão de minha própria filha. Seu olhar, condensando o sofrimento vivido, e seu gesto maternal, me deram a certeza de que uma vida toda não seria suficiente para digerir aquele sorvete de graviola.

Mais adiante, o pai sofreu um acidente, quebrou um braço e um pé. Chegou em casa todo engessado:

– Foi a Polícia que fez isso? – ela perguntou, condoída. Começava a torcer pelos índios que nos filmes americanos lutavam contra os caubóis e lutavam contra o sistema.    

SUA BENÇÃO, MAMÃE

Maria José regressou várias vezes ao país onde nasceu para recolher seus passos. Sua tese de doutorado em antropologia foi fruto do trabalho de campo no Vale do Colca, Sul do Peru, a 3.800 metros de altitude. 

Em setembro de 2023, acompanhou seu pai na Caravana Viva Chile, composta de 150 ex-exilados, que foram levar flores ao túmulo de Allende e agradecer o acolhimento dos chilenos. Visitou os lugares de memória de sua proto-história.  Em um deles, foi filmada por Silvio Tendler em frente a Pensão da calle Michimalongo.

– Nesta casa, seu pai e eu dormimos na mesma cama. Posso ser sua mãe. Exijo, embora tardiamente, um exame de DNA – disse o sacana do Silvio.

Não foi preciso. Ao se despedir, a sacana da Zezé pediu:

 –  Sua bênção, mamãe!

Silvio a abençoou de uma forma que faria inveja à avó da abençoada.

 

P.S. – Esses são relatos de quem conviveu no exílio com essas três crianças. As lembranças delas, como de tantas outras, estão sendo elaboradas com suas próprias impressões e auxílio de fotografias amareladas, de visitas aos lugares onde viveram e de histórias contadas pelos pais e amigos, documentos orais, escritos e visuais, que sempre necessitam passar pelo filtro da crítica e do cruzamento de dados.

Confesso que a leitura do livro Crianças e Exílio, recém-lançado, me deixou dilacerado com algumas noites de insônia. Registra histórias de terror, sofrimento, traumas de infância, sequestros de bebês, crianças e adolescentes filhos de opositores ao regime ditatorial, tratados como apátridas e mini-terroristas.

Mas o livro acena também para a resistência, as brincadeiras infantis, a solidariedade, a amizade entre exilados. A dose de humor de alguns relatos abre, aqui e ali, janelinhas de esperança da qual todos nós tanto precisamos. As crianças exiladas em muitos países hispanos americanos parecem ter seguido o conselho de Payo Gondrona e aos trancos e barrancos aprenderam “a vivir en América, nuestra América”.

José Bessa Freire – Cronista. Professor Universitário. Conselheiro da Revista Xapuri. Crônica publicada em seu blog TaQuiPraTi.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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