As veias abertas da Venezuela
Nunca um episódio foi tão adequado para parafrasear Eduardo Galeano, o escritor uruguaio, autor do livro clássico de 1971: “As Veias Abertas da América Latina”, particularmente nesse momento em que os Estados Unidos invadiram a Venezuela, sequestraram o presidente Nicolás Maduro – e sua esposa, Cilia Flores – sendo ambos acusados, levados para o território norte-americano e indiciados por ‘conspiração para narcoterrorismo’, ‘conspiração para importação de cocaína’, ‘posse de metralhadoras e dispositivos explosivos’, além de ‘conspiração para a posse desses armamentos com o objetivo de atentar contra os Estados Unidos’, mesmo com a posterior revisão ou recuo da acusação em alguns dos ‘crimes’ imputados a Maduro.
Por Arthur Oscar Guimarães via Revista Focus Brasil

Não debateremos aqui o absurdo presente no processo judicial em questão, muito menos como se deu a ‘operação militar’ norte-americana na Venezuela, em flagrante desrespeito ao Direito Internacional e à soberania das nações, e nem mesmo as ações que ainda permanecem em curso, pois a intenção inicial dos EUA era, nas palavras de Donald Trump, “governar o país [run the country, em inglês] até o momento em que possamos fazer uma transição segura, apropriada e justa” (sic), mas como quase tudo dito no Governo Trump ou é um paradoxo ou muda rapidamente, disse ele: “Vamos ficar até que uma transição apropriada seja feita. Vamos governar direito e vamos fazer muito dinheiro.” (grifamos)
Nesses termos, esse artigo não tem por objetivo uma análise stricto sensu de geopolítica, temática a ser tratada por especialistas da área, mas nosso argumento é que na economia encontraremos boa parte das respostas para a ação articulada, empreendida e impetrada pelos norte-americanos no país vizinho.
Nesses termos, a resposta pode estar na afirmação: “It’s the economy, stupid” (É a economia, idiota), escrita como uma pequena variação da frase “The economy, stupid” (A economia, idiota), cunhada em 1992 por James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush, presidente dos Estados Unidos na época.
De alguma forma nosso entendimento é que ao desvendar minimamente o chamado ‘mundo do petróleo’, poderemos entender as razões que levaram os EUA a invadirem a Venezuela, sequestrarem o Presidente daquele país e se apossarem de sua maior riqueza mineral, ou seja: a maior reserva de petróleo do mundo!
Um primeiro olhar sobre a produção de petróleo mundial (Tabela 1)permite atestar que os EUA possuem a maior produção de petróleo do mundo, com produção superior aos 20 milhões de barris por dia (mb/d) e uma participação global de 21%, com crescimento de 61,4% no período considerado (2015/2025).
Na sequência, observamos que Brasil, Irã e Canadá foram as nações que apresentaram as maiores taxas de crescimento na sua produção, sendo: 53,8%; 42,9%; e 44.2%, respectivamente. Destaque-se, ainda, que ao considerar o conjunto de países listados abaixo, os membros da OPEP representam em torno de 1/3 da produção mundial de petróleo.
Tabela 1 – Produção Mundial de Petróleo – 16 Maiores Produtores (2015 – 2025)

Unidade: milhões de barris por dia (mb/d).
O Gráfico a seguir traz indicação relevante quanto ao comportamento consistente da retomada da produção de petróleo pelos EUA, a partir de 2017, mas particularmente a partir do início deste século.

U.S. crude oil production
Os EUA têm a maior produção de petróleo do mundo (em torno de 21%). Ao analisarmos o consumo dessa produção mundial, por países (Tabela 2), observaremos que os EUA são os que mais produzem (~21,0%) e os que mais consomem petróleo no mundo(19,4%).
O destaque, no entanto, é a China que sendo apenas o 8º maior produtor (~4.2%) é, agora, o segundo país que mais consome petróleo no mundo (16,3%). A título de complemento desta breve análise, cabe destacar que os demais países não listados na Tabela 2 representam mais de 1/4 do consumo global de petróleo (25,7%).
Certamente reside no debate em torno das reservas mundiais de petróleo o cerne do debate em pauta, particularmente após a invasão norte-americana na Venezuela. Ainda não restaram suficientemente claros os próximos passos dos EUA (e suas empresas petrolíferas presentes na Venezuela), mas é no destino da produção e das exportações do petróleo da Venezuela que encontraremos as respostas que hoje buscamos.
Tabela 2 – Consumo Mundial de Petróleo – 16 Maiores Consumidores (2015 vs. 2025 estimado)

Unidade: milhões de barris por dia (mb/d)

Tabela 4 –Exportações mundiais de petróleo e principais destinos (2015 – 2025)
Unidade: Milhões de barris por dia (mb/d) – 2015 e 2025

Nesses termos, a questão central aqui considerada reside no destino do petróleo dos países exportadores. Como esperado, a China se constitui hoje (2025) em um dos principais destinos do petróleo explorado e vendido pelas diversas nações exportadoras, como se observa na Tabela 4.
É também possível observar que entre 2015 e 2025 as exportações mundiais de petróleo estão concentradas em dez países. Em 2015, esse grupo respondia por aproximadamente 61,2% do total global exportado. Já para 2025, as estimativas indicam que a participação conjunta do “Top 10” fica em torno de 66,6% do volume mundial.
Referida centralização do comércio internacional de petróleo, entre outros aspectos, pode ser explicada: (i) pela consolidação dos EUA como exportador relevante após 2015, tendo como estimativa um volume de exportação de petróleo de 3,7 mb/d em 2025; (ii) crescimento das exportações do Iraque (3,8 mb/d); e (iii) o papel persistente dos países da OPEP e da OPEP+ nos mercados mundiais.
Tabela 5 – Venezuela – Exportações de petróleo e principais destinos (2015/2025)
(Unidade: milhões de barris por dia — mb/d)

A Tabela 5 traz aspectos fundamentais para o debate aqui proposto:
(i) primeiro, como a Venezuela já mantinha uma presença significativa no mercado global de petróleo em 2015[entre 1,5 e 1,8 milhões de barris por dia (mb/d)], tendoos Estados Unidos e a Índia como seus principais compradores, mas tendo a China como destino relevante já naquele ano; e
(ii) segundo, que a alteração de destino do petróleo venezuelano em 2025 (passando a China a ser o principal destino com 0,4 mb/d), revela uma inversão que ocorre juntamente com a redução do envio de petróleo venezuelano para os EUA.
Aliás, destaque-se que tal fato revela uma substancial redução [de ~0,8 mb/d, em 2015, para 0,3 mb/d, em 2025) nos dando uma primeira pista das razões para entendermos a atual crise que resultou na operação militar que levou à prisão de Nicolás Maduro, Presidente da Venezuela.
Dados da OPEC Annual Statistical Bulletin & Reuters Oil Research permitem um olhar ainda mais específico na comparação entre osEUA e CHINA como destino do petróleo venezuelano, como se pode observar na Tabela 6.
Os dados ratificam que não é de hoje que se trava uma luta pelo petróleo venezuelano e, os dados indicam, a queda na participação dos EUA na aquisição do volume exportado pela Venezuela, particularmente para a China (em torno de meio milhão de barris/dia). Esse pode ter sido o estopim para o que o mundo está assistindo.
Tabela 6 – Fluxo de Exportação de Petróleo da Venezuela para EUA e CHINA (2015 – 2025)

A título de conclusão
Em um cenário no qual a questão central é o comércio internacional, destacamos que os EUA, há muito, vêm deixando de ser a principal ‘fábrica do mundo’, posto agora ocupado pelos asiáticos, comandados pela China (sem especificar determinados nichos, como o da aviação, em que o Brasil também passou a disputar mercados).
Ganha relevo a decisão anunciada por um dos assessores de Donald Trump, de obrigar a Venezuela a comprar exclusivamente produtos estadunidenses, fato que denuncia e explicita a perda de espaço dos produtos norte-americanos no comércio internacional. Há riscos de o método utilizado na Venezuela ser extensivo a outras partes do mundo.
Um dos alvos principais dos EUA são os acordos comerciais e financeiros dos membros dos BRICS, das ações implementadas pelo Banco dos BRICS, particularmente em relação ao novo sistema de compensações financeiras que virá substituir o SWIFT, assunto para um outro texto.
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, pontuou após a invasão que o governo americano quer “vender o petróleo venezuelano e depositar o dinheiro em contas controladas pelos EUA” (grifamos), ressaltando que a intenção é direcionar parte desse óleo para o mercado doméstico. Não se trata de irmos muito mais fundo nas declarações do Secretário de Energia, que acrescentou: “…o governo dos EUA quer vender petróleo venezuelano para refinarias americanas e também colocar o petróleo da Venezuela no mercado global.”
Não parece restarem dúvidas quanto ao fato de que o domínio sobre o petróleo venezuelano é uma das respostas norte-americana à perda de hegemonia no comércio mundial. O secretário Chris Wright ainda destacou que o controle das vendas é visto como instrumento de pressão política. Parafraseando o jornalista Guga Chacra (Globo News): ‘Na prática, Trump está dizendo que a Venezuela é dele’.
Ninguém aqui é ‘estúpido’ ou ‘idiota’! Sabemos que por trás dos dados apresentados – quase à exaustão – está a mais dura e cruel realidade: diante do multilateralismo alardeado como ideal no mundo da diplomacia, aos norte-americanos interessa uma hegemonia mundial perdida ao longo dos anos, e que se desmorona frente àrealidade dos fatos, como resultado de um progresso tecnológico não mais acompanhado pelos EUA (ao menos no ritmo que eles gostariam) e a perda de competitividade de parte dos produtos norte-americanos no comércio internacional.
As consequências econômicas do cenário descrito para os norte-americanos se fazem sentir no dia a dia, em razão do acirramento dacompetição pelos mercados mundo a fora e na perda de tais mercados. Já no início do seu atual mandato, Trump foi levado (sic) a fazer política econômica via implementação de elevadas taxas sobre os mais variados produtos, dos mais distintos países com os quaispossui relações comerciais. E continua se utilizando desse subterfúgio como pano de fundo para os interesses políticos dos EUA.
Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos, afirmou logo após a invasão à Venezuela: “Este é nosso hemisfério”. E complementou: “Esta é a nossa região. É aqui que vivemos — e não vamos permitir que ela seja usada contra nossos interesses”. A intenção está explicitada: impedir que o petróleo venezuelano seja destinado aos chineses, quiçá aos russos e outros mais.
Este é odesejo de um império, que aparentemente vem perdendo força e espaço ao longo dos anos, e se explicita no grito rouco de uma velha águia cujas penas não tem o mesmo brilho do pós-guerra, mas que precisa enfrentar dragões, ursos e outros bichos que povoam oplaneta.
Diante de palavras que buscam obscurecer a realidade, todos devemos estar plenamente cientes dos fatos e do que provavelmente James Carville diria ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio: – É a economia, idiota!
Referências
GUIMARÃES, A.O. Do mercantilismo à pós-globalização (11/04/2025). In https://aterraeredonda.com.br/do-mercantilismo-a-pos-globalizacao/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2026-01-07.
VIOTTI, E.B. Teoria Econômica, Desenvolvimento e Tecnologia – uma introdução (pp. 9-22). In VIOTTI, E.B. et al. Dimensão econômica da inovação. Brasília: SEBRAE, 1997.
Arthur Oscar Guimarães é doutor em Sociologia (Ciência, Tecnologia e Sociedade) pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ e graduado em Ciências Econômicas pela UnB. É pesquisador em ciência, tecnologia e inovação, com atuação nas áreas de economia da tecnologia, desenvolvimento regional, questões socioambientais e políticas públicas. Atuou como consultor legislativo da Câmara Legislativa do Distrito Federal, foi diretor-presidente do Instituto de Ciência e Tecnologia do DF e assessor técnico do PT no Senado Federal. Atualmente, realiza pós-doutorado em Ciências Sociais Aplicadas e Ciência da Informação na UFRJ.
Imagem de Capa: Reprodução/Internet










