CAPITALISMO SUPERINDUSTRIAL

Capitalismo superindustrial

A história do capitalismo é a história mundial, fala sobre todos nós. Mas os caminhos que modernizaram cada país ou região foram muito singulares

Por Fernando Haddad Via Brasil247

“Essa história fala de você”. Em sua versão original em latim – De te fabula narratur –, a expressão é usada mais de uma vez por Karl Marx em O capital. Essa obra maior foi escrita e publicada pela primeira vez em alemão, portanto um projeto pensado originalmente para o público germânico. E, no entanto, seu objeto é a Inglaterra.
Ele explica: “O que eu tenho de investigar nesta obra é o modo de produção capitalista e as relações de produção e de troca que lhe correspondem. O seu lugar clássico tem sido, até agora, a Inglaterra. Esta é a razão pela qual ela serve de ilustração principal do meu desenvolvimento teórico. Se, contudo, o leitor alemão farisaicamente encolher os ombros ante a situação dos operários ingleses da indústria e da agricultura ou se optimistamente se tranquilizar porque na Alemanha durante muito tempo as coisas ainda não estarão tão más, terei de lhe lembrar: De te fabula narratur”.
A história do capitalismo é a história mundial, fala sobre todos nós. Mas os caminhos que modernizaram cada país ou região foram muito singulares, por isso precisam ser entendidos em suas particularidades e na maneira como se integram a um mesmo processo. Daí minha preferência pela expressão “mundialização” em detrimento de “globalização”. O termo “globalização” obscurece as realidades históricas bastante diferentes a partir das quais chegamos aqui.

Ainda hoje, vemos críticos à direita e à esquerda convergirem no pressuposto de que o sistema soviético, do começo ao fim, foi uma experiência socialista, bem como se aproximarem na avaliação de seus resultados. Para os primeiros, teria sido uma experiência fracassada, o que comprova a inviabilidade de qualquer projeto socialista e achata o horizonte das lutas de emancipação. Para os últimos, foi algo entre fracasso e realização abortada, o que permanece sendo matéria de debate, nem sempre proveitoso.

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Ideias e ideais podem ser e são instrumentalizados por lutas políticas. Mas um período histórico deve ser julgado por seus resultados concretos, e não pelos ideais que eventualmente motivaram determinadas transformações. Karl Marx tratou disso quando discutiu as revoluções burguesas, que prometeram igualdade, liberdade e fraternidade, sem entregar exatamente o que havia sido prometido.
Analisando o sistema soviético a posteriori, pode-se dizer que ele aparentemente criou as condições para que sociedades despóticas ou semidespóticas, em especial Rússia e China (epicentros das revoluções comunistas), pudessem estabelecer as bases de uma sociedade capitalista autônoma.

Lembremos que a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética foram e ainda são compreendidos por grande parte dos liberais como “o fim da história”, expressão cunhada por Francis Fukuyama e que se tornou um mantra da vitória do capitalismo. Daí a febre com que se celebrou a globalização neoliberal marcada pelo Consenso de Washington. O que parecem não ter concebido é que o fato de o capitalismo vencer, mundializar-se, não significa o mesmo que os Estados Unidos e a Europa vencerem.
Assim como a concorrência entre empresas é uma determinação do capitalismo, a concorrência interestatal também o é. Celebraram a vitória que acreditavam ser sua, mas esqueceram de combinar, literalmente, com os russos – e, sobretudo, com os chineses.
Ao longo dos quinhentos anos que sucederam o surgimento do modo burguês de produção, vimos diferentes países ocuparem a posição hegemônica. Nos primórdios, Espanha e então Holanda. Foi na Inglaterra que o sistema se consolidou e, com o final da Segunda Guerra, a hegemonia passou a ser norte-americana.

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Essa hegemonia foi primeiramente desafiada pelo poderio militar soviético; mais adiante, pelo poderio econômico do Japão, mas ambas as tentativas de romper com a hegemonia americana fracassaram. Agora, os Estados Unidos estão diante de um terceiro desafio, em que uma grande nação, com 1,4 bilhão de habitantes, tem poderio militar e econômico (incluindo as bases tecnológicas do arranjo produtivo) para ameaçar a hegemonia que se estabeleceu desde 1945.
O enigma da China nos coloca questões de importância maior no que diz respeito à leitura dos dilemas do atual estágio do capitalismo, que caracterizo como superindustrial. Capitalismo superindustrial é um conceito que reconhece que a indústria é o padrão de reprodução material e espiritual da sociedade, que uma nova grande transformação ocorreu por meio da mercantilização do conhecimento e seus efeitos sobre a distribuição do produto social, e que isso fragmentou as classes não-proprietárias de uma forma não prevista pela teoria.
Nesse sentido, entender o que foi a experiência soviética, seu processo de acumulação primitiva que viabilizou nesses países a constituição do modo de produção capitalista, nos permite conhecer melhor os competidores que atualmente disputam hegemonia no capitalismo superindustrial. Esforço idêntico precisa ser feito para compreender a experiência de outros processos de acumulação primitiva na periferia do capitalismo que não obtiveram o mesmo sucesso econômico. Para tanto, procurei indicar caminhos na primeira parte deste volume.
Neste livro, reúno estudos de mestrado e doutorado realizados por mim entre o final dos anos 1980 (Partes II, III e IV) e a segunda metade dos anos 1990 (Parte V), que foram publicados nos livros O sistema soviético  e Trabalho e linguagem. O material inédito se concentra na Parte I, em que desenvolvo e atualizo ideias sobre a acumulação primitiva de capital na periferia do capitalismo – apresentadas de maneira breve na introdução de O sistema soviético –, e no capítulo final da Parte V, em que confronto minha análise do capitalismo superindustrial com vertentes contemporâneas do pensamento progressista.

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A Parte II, “O marxismo oriental”, é dedicada às transformações da teoria marxista até a conformação daquilo que Herbert Marcuse chamou apropriadamente de marxismo soviético e sua primeira contestação a leste, o trotskismo. A Parte III, “A dissidência ocidental”, trata das teorias que, rompendo com Leon Trótsky, passaram a considerar o sistema soviético um novo modo de produção, denominado capitalismo de Estado, coletivismo burocrático ou sociedade gerencial, formações sociais que teriam superado o capitalismo clássico sem correspondência com os ideais socialistas.
A Parte IV, “O desenvolvimento histórico não linear”, guarda semelhança com a anterior, porém descarta a hipótese de que a nova formação fosse sucessora do capitalismo, avaliando-a como proveniente de uma formação social estranha ao Ocidente, o modo asiático de produção, que teria características distintas do feudalismo ocidental.
As Partes III e IV podem parecer anacrônicas aos olhos do leitor, mas abordam duas questões teóricas persistentes, a saber, o conceito de modo de produção e o conceito de classes sociais, temas que voltaram a ser debatidos com intensidade nos últimos anos. Elas nos preparam, pois, para escapar das armadilhas comuns que se nos apresentam quando esses temas tão centrais são tratados com vistas à ação política. A centralidade do conhecimento como fator de produção, ou, se quisermos, a mercantilização do conhecimento, emerge das discussões ali propostas e abre caminho para o conceito de capitalismo superindustrial.
A Parte V, “Capitalismo superindustrial”, apresenta justamente uma visão do estágio em que nos encontramos: a mercantilização do conhecimento e sua incorporação como fator de produção, a natureza superindustrial (ou hiperindustrial, como alguns preferem) do capitalismo contemporâneo e as implicações teóricas e práticas sobre a nova configuração de classes sociais.
Já nos anos 1990, defendia a tese de que as classes proprietárias haviam se fragmentado três – cognitariado, proletariado e precariado, para usar uma terminologia que se firmou recentemente – e que isso impunha ao campo progressista forjar um programa emancipatório que não se desdobraria mecanicamente a partir da economia, mas exigiria um esforço relevante de imaginação política.
Por fim, no capítulo 12, mostro que essa abordagem traz vantagens em relação ao debate que se seguiu, a partir do ano 2000, notadamente a teoria do capitalismo cognitivo e a teoria do tecnofeudalismo, com relação aos dois conceitos-chave mencionados. As Partes I e V, portanto, são o que tenho de original a apresentar, e acredito que elas tenham resistido ao teste do tempo.
Espero que esse esforço de compreensão nos permita renovar a perspectiva de que a luta pela emancipação não acabou – o que nos obriga a pensar as formas que ela vai assumir no mundo contemporâneo. Um desafio que não é pequeno e diante do qual não podemos nos intimidar.

Capitalismo superindustrial
Capitalismo superindustrial (Foto: Freepik )
 
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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