Clarice Lispector e a dolência das flores

CLARICE E A DOLÊNCIA DAS FLORES

Clarice Lispector e a dolência das flores

Clarice Lispector descreve de forma genial a personalidade das flores. São 24 verbetes sobre diferentes espécies de flores, publicados inicialmente como crônica no Jornal do Brasil, na década de 70 — período em que ninguém menos que Marina Colasanti fazia a revisão dos textos da autora para o jornal. Segundo ela, “Clarice sempre quis ser flor e, graças à sua escrita absolutamente inigualável, o conseguiu”
 
 

Dicionário, por Clarice Lispector
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Néctar – Suco doce que muitas flores contêm e que os insetos buscam com avidez.
Pistilo – Órgão feminino da flor, que geralmente ocupa seu centro e contém o rudimento da semente.
Pólen – Pó fecundante, produzido nos estames e contido nas anteras.
Estame – Órgão masculino da flor, composto pelo estilete e pela antera na sua parte inferior em torno do pistilo que, como acima foi dito, é o órgão feminino da flor.
Fecundação – União de dois elementos de geração (masculino e feminino), da qual resulta o fruto fértil.
Rosa – É a flor feminina, dá-se toda e tanto que para ela própria só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é de um mistério feminino, se profundamente aspirada, toca no fundo do coração e deixa o corpo todo perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. Suas pétalas têm um gosto bom na boca, é só experimentar. As vermelhas ou as príncipe negro são de grande sensualidade. As amarelas dão um alarme alegre. As brancas são a paz. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são sexualmente atraentes.
Cravo – Tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caixão de criança defunta; seu cheiro então se torna pungente.
Girassol – É o grande filho do Sol, tanto que já nasce com o instinto de virar sua enorme corola para o lado de sua mãe. Não importa se o Sol é pai ou mãe, não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho masculina. Mas uma coisa é certa; o girassol é russo, provavelmente ucraniano.
Violeta – É introvertida, sua introspecção é profunda. Ela não se esconde, como dizem, por modéstia. Ela se esconde para poder entender o seu próprio segredo. O seu perfume é uma glória mas que exige da pessoa uma busca: seu perfume diz o que não se pode dizer. Um ramo de violetas equivale a “ama os outros como a ti mesmo”.
Sempre-viva – É uma sempre morta. Sua secura tende à eternidade. Seu nome em grego quer dizer sol de ouro.
Margarida – É uma flor alegrezinha. É simples: só tem uma camada de pétalas. Seu centro amarelo é uma brincadeira infantil.
Palma – Não tem perfume. Ela se dá altivamente – pois é altiva – em forma e cor. É francamente masculina.
Orquídea – É formosa, é exquise e antipática. Não é espontânea. Ela quer redoma. Mas é uma mulher esplendorosa, isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre; é epífita, isto é, nasce sobre outra planta sem contudo tirar dela a sua nutrição. Minto: adoro orquídeas.
Tulipa – Só é tulipa quando em largo campo coberto delas, como na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é.
Florzinha dos trigais – Só dá no meio do trigo. Tem na sua humildade a ousadia de se mostrar em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Na Espanha é usada para enfeitar os presépios, junto a ramos de trigo, do qual jamais se separa.
Angélica – Tem um perfume de capela. Traz êxtase místico. Lembra a hóstia. Muitos têm vontade de comê-la e encher a boca com o seu perfume intenso e sagrado.
Jasmim – É dos namorados: eles andam de mãos dadas balançando os braços, e se dão beijinhos suaves, eu diria ao som odorante do jasmim.
Estrelícia – É masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e, como o galo, tem o seu canto, só que não espera pela aurora – quando se a vê realmente, ela dá o seu grito visual de saudação ao mundo, que este é sempre nascido.
Azaleia – Há quem a chame de azaléa, mas prefiro mesmo azaleia. É espiritual e leve; é uma flor feliz e que dá felicidade. Ela é humildemente bela. As pessoas que se chamam Azaleia – como minha amiga Azaleia – adquirem as qualidades da flor: é uma alegria pura lidar com elas. Recebi de Azaleia muitas azaleias brancas que perfumaram a sala toda.
Dama-da-noite – Tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora: só sai à noite, com seu cheiro embriagador, misterioso, silente. É também das esquinas desertas e em trevas, dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosa.
Flor de cactos – A flor de cactos é suculenta, às vezes grande, cheirosa e de cor brilhante: vermelha, amarela e branca. É a vingança sumarenta que ela faz para a planta desértica: é o esplendor nascendo da esterilidade despótica.
Edelvais – Encontra-se apenas nas grandes alturas, embora nunca acima de 3.400 metros de altitude. Essa Rainha dos Alpes, como também é chamada, é o símbolo da conquista do homem. É branca e lanosa. Raramente atingível: é uma aspiração humana.
Gerânio – Flor de canteiro de janela na Suíça, em São Paulo, no Grajaú. Tem o sarcófilo, isto é, folha suculenta, muito cheiroso.
Vitória-régia – No Jardim Botânico do Rio há enormes, até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, lindas de morrer. Elas são o Brasil grande. Evoluentes: no primeiro dia brancas, depois rosadas ou mesmo avermelhadas. Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosas e simples. Apesar de viverem no nível das águas, elas dão sombra.

— Clarice Lispector, no livro ‘A descoberta do mundo‘. Rocco, 2020. Fonte: Vozes femininas. Capa: Reprodução/Divulgação

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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