COMO FÓSSEIS DA GEÓRGIA ESTÃO REESCREVENDO A HISTÓRIA?

COMO FÓSSEIS DA GEÓRGIA ESTÃO REESCREVENDO A HISTÓRIA?

COMO FÓSSEIS DA GEÓRGIA ESTÃO REESCREVENDO A HISTÓRIA?

Pesquisas recentes sobre restos fósseis encontrados no sítio arqueológico de Dmanisi, na República da Geórgia (na fronteira entre Europa e Ásia), estão provocando uma reviravolta significativa nas teorias que explicam a evolução humana e as primeiras migrações de hominíneos para fora do continente africano

Por Felipe Sales Gomes/Aventuras na História

Um estudo publicado no final de 2025 com base em 583 dentes antigos indica que pelo menos duas espécies humanas coexistiam na região há cerca de 1,8 milhão de anos, o que pode reconfigurar a narrativa sobre como nossos ancestrais se espalharam pelo planeta.

OSÍLIO DE DMANISI 

O sítio arqueológico de Dmanisi é um dos locais mais cruciais para entender a evolução humana fora da África. Desde a década de 1990, paleontólogos vêm desenterrando fósseis de hominídeos que datam de cerca de 1,8 milhão de anos atrás, tornando-o o registro mais antigo conhecido de hominíneos fora do continente africano. 

O local já havia sido destacado por descobertas anteriores de crânios e restos associados ao que passou a ser chamado de Homo georgicus ou Homo erectus georgicus — uma espécie intermediária entre o Homo habilis e o Homo erectus.

Esses fósseis mostraram um grupo de hominíneos com características físicas que incluíam cérebros relativamente menores, postura bípede e capacidade de fabricar e usar ferramentas de pedra. 

A importância de Dmanisi reside no fato de que esses indivíduos representam uma população que deixou a África muito cedo na história evolutiva, sugerindo que a dispersão humana começou muito antes do que se pensava anteriormente.

FÓSSEIS PROMISSORES 

A nova pesquisa, conduzida por equipes internacionais de paleoantropologia, concentrou-se na análise de mais de 500 dentes fósseis extraídos dos achados de Dmanisi. 

Em vez de se basear apenas em crânios ou fragmentos pós-cranianos, os cientistas aplicaram técnicas estatísticas avançadas para comparar as morfologias dentárias — características que se preservam bem ao longo do tempo e ajudam a distinguir espécies diferentes com maior precisão.

Os resultados indicam que as variações entre os dentes não podem ser explicadas apenas por dimorfismo sexual (isto é, diferenças entre machos e fêmeas da mesma espécie), como alguns pesquisadores haviam proposto anteriormente. 

Em vez disso, as formas e tamanhos dentários apontam para duas linhagens distintas de hominíneos vivendo no mesmo local e época. Uma delas mostra padrões que lembram espécies mais antigas do gênero Homo, enquanto a outra apresenta características avançadas associadas a humanos primitivos como o Homo habilis.

Isso sugere que duas espécies de hominíneos coexistiram em Dmanisi por um período significativo, um cenário que desafia as explicações tradicionais de uma única espécie dominante que teria saído da África e se estabelecido por ali.

Paralelamente à análise dentária, outra descoberta relevante foi a mandíbula de cerca de 1,8 milhão de anos encontrada no sítio arqueológico de Orozmani, também na Geórgia. 

Essa mandíbula é um dos restos humanos mais antigos já identificados fora da África e pode indicar a presença de uma das primeiras populações de humanos ancestrais na Eurásia.

Segundo pesquisadores envolvidos na escavação, além da mandíbula, o local continha ferramentas de pedra e restos de animais associados — evidências típicas de um grupo que teria caçado e processado alimentos de forma organizada. 

A mandíbula em particular tem sido vinculada ao Homo erectus, possivelmente reforçando a ideia de que esse grupo pode ter sido um dos primeiros a deixar a África e se adaptar a novos ambientes.

REESCREVENDO A HISTÓRIA

Essas descobertas juntas — a evidência de múltiplas espécies coexistindo em Dmanisi e a mandíbula de Orozmani — apontam para um quadro evolutivo mais complexo e menos linear do que se imaginava. 

Em vez de um único grupo ancestral migrando e se diversificando depois, pode ter havido várias linhagens humanas interagindo e adaptando-se a ambientes diferentes simultaneamente.

Se confirmada, essa interpretação tem implicações profundas para o entendimento da evolução humana global. A coexistência de espécies distintas fora da África há quase 2 milhões de anos pode significar que nossos ancestrais exploraram e se adaptaram a novos territórios de maneira muito mais dinâmica e diversificada do que os modelos clássicos sugeriam.

Além disso, a identificação precisa dessas espécies e sua relação com hominíneos africanos mais antigos (como Homo habilis Australopithecus) pode levar cientistas a reconsiderar pontos cruciais sobre a origem de traços humanos fundamentais, como a marcha bípede, uso de ferramentas e capacidade cognitiva.

O FUTURO DA PESQUISA

Os pesquisadores afirmam que, apesar dos avanços, ainda há muitas incógnitas. A classificação taxonômica das espécies encontradas, seu papel exato na árvore genealógica humana e seus padrões migratórios exigem mais evidências fósseis e análises detalhadas. 

Novas escavações e estudos comparativos com outros sítios antigos, tanto na África quanto na Eurásia, serão essenciais para consolidar esse novo quadro evolutivo.

O que é claro, no entanto, é que o sítio de Dmanisi continua sendo um dos pontos mais valiosos para entender como nossos ancestrais humanos desbravaram o mundo — e a maneira rica e diversa que essa história ocorreu.

 29 2Felipe Sales GomesJornalista, formado pela Faculdade Cásper Líbero. Matéria publicada originalmente no site Aventuras na História, em janeiro de 2026: Aventuras na Historia. Capa: Crânio e mandíbula encontrados em Dmanisi – Gerbil/Museu de História Natural Senckenberg.

 

GOSTOU DESTA MATÉRIA? ENTÃO, POR FAVOR, PASSA PRA FRENTE. COMPARTILHE EM TODAS AS SUAS REDES. NÃO CUSTA NADA, É SÓ CLICAR!

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

CONTATO

logo xapuri

REVISTA

© 2025 Revista Xapuri — Jornalismo Independente, Popular e de Resistência.