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Divino

DIVINO, MEU DIVININHO

DIVINO, MEU DIVININHO 

Festa popular de graça e beleza aos arredores em Formosa, a Festa do Divino Espirito Santo é – antes de tudo – um exercício de fé, política, tradição e emancipação. Viva a cultura popular!

Iêda Vilas-Bôas

Olha, amor!

Rezei preces à Virgem Maria

Apeguei-me com Santas poderosas

A das causas impossíveis,

A que desata nós

A que restitui visão aos cegos.

Fui cega. Admito!

Cantei as tristes cantigas em Yorubá

Tudo em vão.

Meu amor não estava lá.

Recorri aos Orixás

Devotei-me aos Santos todos

Desci além mar

Subi pedreiras

Banhei-me em cachoeiras.

Acendi velas

De cores verde, branca, vermelha

E amarela

Fogo queimou

Pavio apagou

Nada, amor!

Dancei no afoxé,

Ouvi tambores

Enviei clamores.

Nada, amor!

O consolo que me resta

É essa grande festa

Que em alvorada

Desperta devotos

E envolve a todos

Em nuvem de fé

Tento aplacar meu pranto

Que, de verdade, nem sei qual é.

Um quebranto

Banzo.

E faço meu apelo

Ao Divino Espírito Santo.

Divino, Senhor poderoso e querido

Leva de mim minhas dores

Carrega de mim a tristeza

Retira esta morrença

Que ronda meu sono

Que amortece filetes esperança

Que entorpece minha mente

Encharca minha alma doente

Divino, meu Divininho …

Tem de piedade de mim

A mais vil das pecadoras

Precisa de sua proteção

Sem bandeira, sem tradição

Trago os sonhos rotos

Perdidos em ilusão.

Publicado originalmente em 24 de junho de 2019

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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