MÁRCIA KAMBEBA: SER INDÍGENA, SER OMÁGUA

Márcia Kambeba: Ser Indígena, Ser Omágua

Sou Kambeba e existo sim:

No toque de todos os tambores,

na força de todos os arcos,

no sangue derramado que ainda colore

essa terra que é nossa.

MÁRCIA WAYNA KAMBEBA

Sou filha da selva, minha fala é Tupi.

Trago em meu peito,

as dores e as alegrias do povo Kambeba

e na alma, a força de reafirmar a

nossa identidade

que há tempo fico esquecida,

diluída na história

Mas hoje, revivo e resgato a chama

ancestral de nossa memória.

Sou Kambeba e existo sim:

No toque de todos os tambores,

na força de todos os arcos,

no sangue derramado que ainda colore

essa terra que é nossa.

Nossa dança guerreira tem começo,

mas não tem fim!

Foi a partir de uma gota d’água

que o sopro da vida

gerou o povo Omágua.

E na dança dos tempos

pajés e curacas

mantêm a palavra

dos espíritos da mata,

refúgio e morada

do povo cabeça-chata.

Que o nosso canto ecoe pelos ares

como um grito de clamor a Tupã,

em ritos sagrados,

em templos erguidos,

em todas as manhãs!

Fonte: Ama Acreana

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Na manhã de 19 de dezembro de 2024, no hall do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará (PPGL/UFPA), o som dos maracás e o canto ancestral nos transportaram para o universo de resistência e memória dos povos da Amazônia. Esse ritual marcou a defesa da tese de Márcia Wayna Kambeba, a primeira doutora indígena indígena na área de Letras da Amazônia. 
A tese foi intitulada  “Os Omágua/Kambeba: narrativas, dispositivo colonial e territorialidades na Pan-Amazônia” e a banca de defesa foi presidida pela profa. Dra Ivânia dos Santos Neves (PPGL/UFPA) e teve como arguidores o prof. Dr. José Ribamar Bessa Freire (UNIRIO), o prof. Dr. Gersem Baniwa (UFAM), a profa. Dra Luisa Elvira Belaunde Olschewski (Universidad Nacional Mayor de San Marcos/Peru), a profa. Dra. Ananda Machado (UFRR) e a profa. Dra. Maria Lucilena Gonzaga.
Márcia inicia sua defesa apresentando o prólogo que diz sobre seu percurso como sujeita indígena, um caminho de reconexão com suas raízes. A tese investiga, a partir dos estudos do discurso, as experiências históricas e contemporâneas dos Omágua/Kambeba na Pan-Amazônia. Atualmente esse povo vive em terras indígenas espraiadas nos territórios de três países: Brasil, Peru e Equador. 
Durante a construção da tese, foram usadas metodologias que rompem com o paradigma da ciência neutra, que impõe um caminho linear e rígido a ser seguido.  A etnografia guia o campo  num processo um percurso metodológico que envolve sentir pensar o mundo, a escuta, o olhar atencioso para tudo e os registros no caderno canoa. Nesse sentido, foi proposta uma metodologia chamada “Kuara Açu” que significa “grande caminho”.
O percurso metodológico Kuara Açu leva em consideração vários aspectos para o desenvolvimento da pesquisa: Omágua Kambeba, território, transterritorialidade, sentir pensar, etnicidade, pesquisa militante, ancestralidade, oralidade.
A língua nesse contexto é um importante veículo de transmissão de saberes e fortalecimento da identidade cultural. Apesar da fratura colonial, provocada a partir do contato com o colonizador, a língua ancestral não é esquecida. A língua é um território de resistência e aprender a falar a língua é resistir e se reconectar com o povo ancestral. 
Ao longo do texto, Márcia apresenta duas materialidades que fortalecem o povo Omágua/Kambeba: a maqueira e a canoa. A canoa desliza pelos rios da Amazônia, carrega consigo os saberes e as memórias, enquanto a maqueira embala e preserva a história.
A avó, deitada na maqueira, transmite histórias que, assim como a fumaça do cachimbo, são ensinamentos carregados de sabedoria. O avô senta na proa da canoa para contar histórias do povo. Eles revelam a força das raízes, a continuidade das práticas culturais e a resistência.
Márcia Kambeba não apenas defendeu uma tese acadêmica, mas a memória de seu povo e a continuidade de suas tradições. A defesa de Márcia é um marco que ultrapassa as fronteiras da academia, ela visibiliza a sabedoria ancestral e reafirma o compromisso com os povos originários da Pan-Amazônia.
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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