"MENTALIDADE VAZIA": O ELO ENTRE FLÁVIO E O PAI

“MENTALIDADE VAZIA”: O ELO ENTRE FLÁVIO E O PAI

“Mentalidade vazia”: o elo entre Flávio o e o pai 

Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da república pelo PL, diz em podcast que indígena não quer ser “animal de zoológico”, enquanto defende “autonomia” produtiva no Mato Grosso sob fortes críticas de lideranças 

Por Arthur Silva

Em recentes declarações, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) gerou intensa polêmica ao defender a integração dos povos originários e criticar as políticas de preservação que, segundo ele, os tratam de forma caricata. Em contrapartida, lideranças indígenas, lideradas pela deputada federal Célia Xakriabá (PSOL/MG), reagiram fortemente, apontando que o discurso de integração e a defesa da exploração econômica mascaram interesses da bancada ruralista e resgatam uma violenta retórica colonialista.

“Animalização” dos Povos Indígenas

Para Célia Xakriabá (PSOL/MG), a fala de Flávio Bolsonaro no podcast Market Makers, onde afirmou que o indígena “não quer mais ser um animal de zoológico que o turista paga pra ver ele dançando fazendo fogo com madeira”, remonta à invasão do Brasil. Trata-se, segundo ela, do clássico discurso colonizador de desumanização dos povos originários. “Diziam que os povos indígenas não eram gente, que não eram humanos. Diziam que nós não tínhamos almas porque não éramos cristãos”, ressaltou a deputada. Segundo ela, a declaração revela como essas figuras políticas olham para as comunidades tradicionais: “Não nos trata como pessoas humanas”.

O governo de Bolsonaro

Muitos dos desastres provocados pela política do governo de Jair Bolsonaro relacionam-se diretamente com o desmonte dos direitos indígenas. A figura do ex-presidente, pai de Flávio, nas palavras de Xakriabá, revela em seu DNA certa “mentalidade vazia”. Ela recorda o aparato discursivo violento do ex-mandatário, apontando que ele “saudou a cavalaria americana”, afirmando que “era pena que o Brasil não matou os povos indígenas como a cavalaria americana”.

A deputada também relembrou o vídeo em que Jair Bolsonaro declarava que “até comeria carne de índio”, descrevendo uma bizarra culinária canibal fictícia: “Morreu um índio e eles estão cozinhando”. Foi esse mesmo grupo político, recorda Xakriabá, que declarou publicamente que “não ia demarcar nenhum centímetro de terra indígena”.

A Visita ao Mato Grosso

Recentemente, a campanha de Flávio Bolsonaro deu um novo passo ao visitar uma aldeia do povo Paresi em Campo Novo do Parecis, Mato Grosso, para gravar materiais eleitorais. No encontro, o candidato defendeu uma maior autonomia para que os indígenas desenvolvam atividades de larga escala em suas terras, como a produção de soja, milho e feijão, citando os Paresi como um exemplo a ser replicado em outras comunidades. Flávio chegou a prometer que, em seu governo, os indígenas terão autonomia para explorar inclusive o subsolo e receber royalties, além de ouvir demandas locais por um fundo garantidor federal para facilitar o acesso a créditos bancários.

Cabe ressaltar, inicialmente, que, de acordo com a legislação vigente, a exploração de recursos minerais e do subsolo em terras indígenas não depende unicamente do aval das comunidades locais. Ela exige autorização expressa do Congresso Nacional, além da realização de consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas, de acordo com as diretrizes da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, da qual o Brasil é signatário.

Essa agenda, no entanto, foi classificada por Célia Xakriabá como puro “oportunismo político eleitoral” e uma ação “utilitarista”. Ela aponta a flagrante contradição de Flávio e de seus apoiadores no Senado, como o deputado federal Zé Medeiros (PL-MT). “Não seria contraditório que são esses mesmos, inclusive da bancada ruralista no Senado Federal, que votam em favor do marco temporal, que na verdade querem explorar território indígena com mineração, com garimpo ilegal?” questionou a deputada.

Para Xakriabá, a verdadeira autonomia não se faz com discursos eleitorais em visitas estratégicas, mas sim com ações governamentais concretas, como a demarcação de terras e o fortalecimento de órgãos como o Ministério dos Povos Indígenas.

O que realmente querem os povos indígenas?

A deputada também rebateu a insistente narrativa de que o acesso a tecnologias ou bens de consumo modernos anularia a identidade indígena ou justificaria a exploração de suas terras. Célia ironizou o fato de a bancada ruralista e o próprio Flávio usarem esses argumentos para deslegitimar a luta dos povos originários:

“Eles ficam falando no Congresso Nacional que nós somos ‘indígenas de Hilux’, que nós queremos, na verdade, ‘iPhone e iFood’. Ao mesmo tempo, querem usar de qualquer possibilidade de acesso que nós temos à universidade, ou espaço no parlamento, ou um carro, para dizer que nós, povos indígenas, deixaremos de ser indígenas. Então, de que lado essa pessoa está quando tenta também deslegitimar o nosso ser indígena?”

Xakriabá encerrou reafirmando que o uso de ferramentas contemporâneas faz parte da própria estratégia de sobrevivência e denúncia das comunidades tradicionais contra retrocessos políticos:

“Nós queremos iPhone mesmo, porque eu uso esse iPhone aqui para denunciar essa maneira bizarra. Essa pessoa não merece ser presidente da República, porque o Brasil só é Brasil se respeitar os povos originais”.

Capa: Lula Marques/ Agência Brasil

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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