O ALGORITMO DO COLONIALISMO

O algoritmo do colonialismo

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” (Karl Marx)

Por Geraldo Lopes de Souza Júnior

Sabe, caboco, a História gosta muito de se apresentar como passado, mas raramente se comporta assim. Ela insiste, retorna, se repete. Troca a roupa, muda os personagens, atualiza o discurso — mas preserva a lógica. Para quem olha rápido, parecem fatos isolados. Para quem olha com atenção, é um padrão. Um algoritmo.

Cresci ouvindo História em casa. Não como matéria escolar, dessas cheias de datas decoradas, mas como explicação do mundo. Meu pai, professor da área, nunca foi de grandes discursos. Pelo contrário: respondia quase sempre do mesmo jeito. Na época, achei estranho. Hoje entendo.

Não era preguiça intelectual, era síntese histórica. Ele já tinha percebido cedo que, por trás de impérios, colônias, repúblicas e democracias capengas, operava sempre o mesmo mecanismo — um looping que insiste em rodar.

Juro pra ti que não quero transformar este texto numa aula, nem fingir que vou esgotar o tema. É mais um relato atravessado por gerações. Uma conversa entre pai, filho e neto.

Uma tentativa de dar nome a algo que muita gente sente, mas nem sempre consegue explicar: o colonialismo não acabou. Ele só ficou mais elegante. Aprendeu a se disfarçar. Vestiu a roupa suja da colonialidade, como indica o sociólogo peruano Anibal Quijano.

Looping histórico

É, mano velho, meu pai nunca foi de muito papo. Ouve mais do que fala. Talvez por isso seja sábio. O que importa é que ele era professor de História — e que, ao longo da infância, fiz a ele uma coleção respeitável de perguntas. O curioso é que ele parecia só saber dar uma única resposta. Um verdadeiro looping histórico.

 

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Lembro que, no fim dos anos 80, ainda criança, perguntei — tarefa da escola — como se deu a formação do Brasil a partir de 1500. Ele respondeu:

“Olha só, filho, basicamente foi assim: os povos que tinham mais arma, mais navio e mais grana chegaram e disseram ‘agora isso tudo aqui é nosso’. Não teve encontro bonito de culturas, não. Foi na força mesmo. No começo até rolou troca, comércio, curiosidade. Mas rapidinho virou tomada de terra, exploração e mando.

Eles mandavam; os outros, quando não obedeciam, ou apanhavam, ou morriam. E não era só pegar riqueza natural e força de trabalho. Os caras queriam mudar a cabeça do povo: língua, religião, costumes. Diziam que estavam ‘civilizando’, mas estavam apagando culturas inteiras. Esse papo de povo ‘atrasado’ era só desculpa pra explorar sem culpa. Porque muita gente ali sabia plantar, curar doença, observar estrela, organizar sociedade… só não tinha canhão.

No fim das contas, a conta chegou — e ainda chega: desigualdade, racismo, pobre sustentando rico. A colonização acabou no papel, mas o estrago ficou. A estrutura de dominação permanece através da colonialidade, do lixo ideológico que ficou enraizado em mentes e corações.  E a gente ainda tá pagando essa rodada.”

Quando perguntei como se deu a fundação de Manaus, em 1669, ele deu a mesma resposta. Perguntei se isso também tinha acontecido com nossos hermanos latino-americanos.

— Sim, filho, da mesma forma.

— E com a África, pai?

— Serve também.

Pouco depois, resolvi testar o limite da teoria:

— Pai, e a expansão do Império Romano?

Ele nem piscou:

— Filho querido, troca “navio e grana” por “legião e tributo”, “colonização” por “expansão imperial” e “racismo estrutural” por “hierarquia social”. Tu vais ver que encaixa direitinho.

Encaixava mesmo. Isso me gerou indignação. E uma certa revolta.

Semana passada, meu filho, de 12 anos, me perguntou:

— Pai, o que o Trump foi fazer na Venezuela?

Adivinha, caboco, qual foi a minha resposta.

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Sequelas do colonialismo

Esse padrão não ficou no passado.

O colonialismo não é um capítulo encerrado nos livros. Ele muda de linguagem, aprende novos códigos e segue operando — discreto, eficiente, cotidiano. O que muda são os palcos. A lógica é a mesma.

Num passado recente demais para ser tratado como acidente, o Brasil viveu uma ameaça real à democracia. Pedidos explícitos de intervenção militar, faixas clamando por tutela armada e, no auge do delírio autoritário, o 8 de janeiro.

Nada disso brotou do nada. É herança direta de uma mentalidade colonial que desconfia do povo e acredita que ordem só vem de cima, de fora ou das armas. A lógica é velha: alguém mais forte precisa mandar para manter seus privilégios. E alguém precisa obedecer.

No último 7 de setembro, data que deveria simbolizar ruptura e autonomia, uma enorme bandeira dos Estados Unidos tremulava na Avenida Paulista. Não foi detalhe folclórico nem descuido estético. Foi símbolo.

Celebrar independência sob o estandarte de outra potência diz muito sobre como ainda nos vemos: não como sujeitos da própria história, mas como filial com aquele complexo de vira-lata enraizado como queria Nelson Rodrigues.

Esse mesmo mecanismo aparece quando o Brasil é reconhecido no mundo — e parte de nós reage com desprezo. O filme Ainda Estou Aqui vencer o Oscar de 2025 de melhor filme estrangeiro, Wagner Moura levar o Globo de Ouro de 2026… e, ainda assim, surgir uma parcela da população disposta a diminuir, ironizar ou deslegitimar essas conquistas.

Como se sucesso nacional fosse defeito de fabricação. Como se precisasse de selo estrangeiro — e, mesmo assim, viesse com suspeita. É o velho complexo de vira-lata, filho direto do colonialismo mental. Certa mídia ainda contribui para isso. Indicado para três prêmios do Globo de Ouro, ganhou dois deles. A manchete de uma delas foi: “Agente Secreto perde o prêmio de melhor filme dramático”.

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Enquanto isso, estrangeiros que moram no Brasil se encantam com nossa diversidade, com a comida, a música, a mistura e a inventividade cotidiana. Muitos brasileiros fazem o movimento inverso: acham o sotaque alheio charmoso e o próprio motivo de vergonha. Valorizam cultura importada como sinônimo de sofisticação e tratam a nacional como atraso.

Me diz, caboco, tu conheces o Paul Cabannes? Ele é um francês radicado no Brasil, com mais de 2,5 milhões de seguidores no Instagram e 1,6 milhão no YouTube, que ganhou notoriedade justamente falando de brasilidade para os próprios brasileiros. O sucesso dele diz menos sobre exotismo e mais sobre nossa velha dificuldade de nos reconhecermos sem alguém de fora dizendo que pode.

É aí que entram, com força, as culturas nordestina, indígena e negra — pilares invisibilizados da identidade brasileira. O Nordeste, frequentemente caricaturado como problema, é celeiro de resistência, poesia, música, filosofia popular e invenção cotidiana.

Os povos indígenas, tratados historicamente como obstáculo ao “progresso”, carregam conhecimentos profundos sobre território, coletividade e equilíbrio com a natureza. A cultura negra, apesar de sistematicamente explorada e criminalizada, estrutura nossa música, nossa língua, nossa culinária, nossa religiosidade e nossa forma de existir no mundo.

O colonialismo não apenas usurpou terras; moldou cabeças. Disse o que era belo, civilizado, inteligente e digno — quase sempre olhando para o espelho como Narciso. O resultado é um país que muitas vezes não se reconhece no espelho, que desconfia de si mesmo e que precisa reaprender a se respeitar.

As sequelas do colonialismo estão aí: na política tutelada, na democracia frágil, no orgulho seletivo, na admiração automática pelo estrangeiro e no desprezo pelo que nasce do chão brasileiro.

E o algoritmo?

Confesso pra ti: ciência da computação é uma área que admiro à distância. Diante da minha ignorância, marquei uma conversa com meus amigos programadores Henrique Brito e Camilo Sidou. Mesa de bar, cerveja gelada, tira-gosto caprichado. Ambiente científico adequado.

Após apresentar o problema e, digamos, algumas cervejas depois, a resposta foi direta:

— A solução é simples: puxa o cabo da tomada e força a reinicialização.

Henrique explicou que o problema não está só fora, nas grandes potências ou nos impérios do passado. Ele opera dentro. Nos valores que aceitamos sem questionar. Na facilidade com que damos importância ao que vem de fora e desprezamos o que nasce aqui.

Camilo completou: romper esse algoritmo não é rejeitar o mundo nem o intercâmbio cultural. É parar de se enxergar como periferia da própria história. É entender que não precisamos de tutela para existir, nem de selo estrangeiro para validar talento, cultura ou democracia.

Enquanto comemorarmos independência com bandeira alheia, desconfiarmos da soberania popular e tratarmos nossa diversidade como defeito, o sistema continuará rodando.

Certa mídia só respeita Lula quando ele escreve um artigo para o jornal americano The New York Time, publicado no domingo (18 de janeiro), no qual critica a “contínua erosão do direito internacional” presente na política externa dos Estados Unidos.

Mas algoritmos não são leis da natureza. São construções humanas.

E toda construção pode ser reprogramada.

Talvez a verdadeira ruptura histórica comece quando fizermos o movimento mais difícil de todos: olhar para dentro sem vergonha, reconhecer o próprio valor e, finalmente, apertar o botão de saída desse looping.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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