AINDA É “DOCE MORRER NO MAR?”: O BRASIL NOS 90 ANOS DO “MAR MORTO”
Escrito em 1936, em pleno vapor do regime varguista e das mobilizações sindicais, “Mar Morto”, do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001), é uma obra importante para quem busca compreender as contradições e tensões formativas do Brasil
Por Arthur Wentz e Silva
O romance, que narra a travessia de Guma e Lívia sob as leis e os destinos do cais — onde o amor se entrelaça ao perigo constante das águas e à sobrevivência diária — revela, pela articulação entre mitologia e condição espoliativa, um país marcado por desníveis sociais historicamente enraizados em sua formação.
Noventa anos depois, o que se enxerga é uma obra que convida a pensar que as dimensões históricas — as quais a literatura enxerga de forma estética, permitindo que se aguce sentidos humanos, deixando-os tomados por essa forma estética de enxergar a história — formam o presente, seus dilemas e tensões. Faz-se oportuno aprofundar-se no que esse primor estético tem a nos oferecer.
Em seu nonagésimo aniversário, cabe olharmos para o cais que despertou o Jorge Amado de 24 anos e pensarmos na forma como o romance consegue expandir os livros de história, para fazer ver com mais amplitude as contradições que formam nossos elementos nacionais.
O enredo de “Mar Morto” desnuda um cais atravessado pelas mazelas, marginalidades e desníveis ao pleno vapor da industrialização desenfreada e autoritária do projeto varguista de capitalismo.
Acompanhando o destino e a lei que pulsa o romance: a morte no mar em um dia de repente, somos levados ao cerne do dilema da vida no cais, a condição espoliativa. A dureza dessa condição que impõe desníveis aos trabalhadores do mar ganha, entretanto, um tom ampliado que a Bahia conhece bem: Iemanjá.
O orixá aqui, relendo o itã de Orungã, funciona como elocução metafórica à condição espoliativa. Ou seja, só é possível suportar as mazelas pela certeza de que um dia a busca de Janaína levará para as tão sonhadas terras de Aiocá. É construindo as personagens que Jorge Amado consegue caminhar de forma muito mais decisiva à poesia do povo.
Na concepção de romancista, a experiência é primordial para a construção do texto literário. Em diversas entrevistas, ele afirma que escreveu o que viveu ou que poderia ter vivido.
Os homens do cais são descritos sob a ótica de alguém que penetrou a vida e compreendeu suas dimensões mais profundas. Guma, o saveirista corajoso, e Lívia, a amada que se revolta, extrapolam os limites da compreensão do mundo nos anos 1930 e nos colocam frente a frente com a dureza da vida na periferia do capitalismo.
No que tange aos aspectos formais, Mar Morto é, como nos ensina Antonio Candido, uma obra que alinha a tonalidade poética ao enquadramento narrativo, superando, assim, o puramente descritivo.
Além disso, há aqui também um esforço de concepção do narrador como figura atenta aos limiares sociais da realidade. Este narrador, por sua vez, é honesto com sua condição de classe e consegue entender sua posição na história.
Outro traço formal interessante para pensar o romance é o espaço, o cais e a vida na estrutura à qual está empregada, que constrói uma relação dinâmica com o mundo, potencializando os sentidos histórico-estéticos para entender miséria, marginalidade, mitologia e trabalho, se afastando de folclorizações e fetichismos.
É o cais da Bahia tal como ele é, em matéria realista e lírico- documental.
Inegável o papel de Mar Morto no sistema literário brasileiro, é interessante que a crítica literária e a própria comunidade apreciadora da literatura se atenham a uma condição que noventa anos depois me parece altamente relevante: a unidade do proletariado.
De forma orgânica, que o debate da sociedade de classes, a conjuntura do trabalho espoliado, a compreensão da estrutura dorsal de exploração capitalista e o projeto desarquitetal de regimes autoritários ainda estão em voga, entretanto, cedendo espaço para temas e questões a serviço do capital.
Olhemos para o que Jorge Amado projeta em “Mar Morto”. Seu modelo literário engajado não dá planos revolucionários, mas acende fecundamente uma relação de como a relação trabalho-sistema se estabeleceu no Brasil moderno.
Nos anos 1930, a definição de trabalho tem relação direta com o autoritarismo varguista, ou seja, a definição de quem é ou não trabalhador. Se olharmos o mundo do trabalho em nosso tempo, vemos que a ostensiva autoritária caminha a passos semelhantes.
Reside aí a relevância e a atualidade da leitura de Mar Morto, noventa anos depois. Só é possível compreender o agora se os passos anteriores forem nítidos e humanamente sensíveis. Isso indica que o repertório de obras que lemos de autores consagrados no sistema literário consegue apontar o norte do nosso problema formativo e das contradições que fecundam e pulsam o Brasil.
Tentando fugir de leituras anacrônicas, o que essa análise evidencia, em seu caráter dialético, é apontar um caminho de leitura para uma obra que indica a gênese dos dilemas trabalhistas de nosso povo.
Jorge Amado fez um trabalho que exige muita coragem e isso qualquer um que tire alguns minutos para investigar verá. Sua concepção de literatura, de mundo e de política constrói, significativamente, um caminho estético possível para entender a dureza da vida.
Se engana, entretanto, quem acredita que Mar Morto é uma obra imatura do romancista. Em matéria de verdade, é mais que compreensível que este romance construa elementos que possibilitam entender de forma estética, depurando os sentidos humanos, a história do nosso povo e a sua relação mitológica.
Ler este romance, ao pulsar de um ano de grandes transformações e rearquiteturas políticas, é reconhecer o papel do povo, sua história e sua condição revolucionária na roda da história. O povo vence no romance amadiano e deve poder vencer também na vida política cotidiana.
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p style=”text-align: justify;”>Arthur Wentz e Silva – Graduando em Letras — Língua Portuguesa e Respectiva Literatura, pela Universidade de Brasília (UnB), onde dedica-se ao estudo de Jorge Amado, Romance de 1930 e, especificamente, do “Mar Morto”. Capa: Otto Stupakkof/Acervo IMS.