O SABÃO DE TINGUI DE DONA FLOR

O SABÃO DE TINGUI DE DONA FLOR

O sabão de tingui de dona Flor

Dona Flor é erveira famosa do povoado do Moinho, que fica no sopé de uma serra do município de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. Lá, dona Flor aguarda a chamada para os partos  caseiros – é dola experiente, por suas contas já fez 328 – e está a postos para mais um.

Por Zezé Weiss

Enquanto espera para ajudar a trazer mais um ser humano ao mundo, Dona Flor vai cuidando do jardim, criando frangos e patos, fazendo farinha, geleias e doces, e preparando remédios caseiros, como o fortificante que batizou como “vinho de amora,” segundo a filha Deusa um eficiente protetor da próstata, e feito totalmente sem álcool.

Conhecida e respeitada por toda a comunidade, pra quem vem de fora, a chegada à casa de dona Flor é marcada pro uma placa rosa, onde anuncia os produtos caseiros que vende em uma lojinha improvisada em um cômodo separado, à frente da casa simples de alvenaria onde vive e trabalha.

Dona Flor placaFoto: Zezé Weiss

Semana passada andei pelo Moinho e não encontrei dona Flor. Na lojinha da casa, comprei de Deja um vinho de amora e alguns sabonetes de tingui. Já faz tempo que andava atrás do sabão de tingui da dona Flor porque, pelas notícias da rádio cipó, ainda é feito como nos tempos da minha avó Maria Feliciana, apenas com o fruto do tingui macerado e a diquada de cinza, feita em casa, sem nada de soda cáustica.

Desde criança, aprendi que o sabão de tingui (do tupi tingyia, o que embriaga peixes) cura coceira, seca ferida, corta seborreia, viça a pele,  fortalece o couro cabeludo e dá brilho nos cabelos. Na roça onde fui criada, na Fazenda Aldeia dos Índios, quase uma légua distante da pequena sede do município de São Francisco de Sales, nas Minas Gerais, não tinha essas coisas de criança ganhar presente, nem de fazer aniversário.

O primeiro presente que me lembro de ter ganhado, quando completei meus nove anos, foi uma bola bem preta e bem redonda de sabão de tingui. Lá por casa deu de dar umas perebeira danada nas crianças, os mais antigos diziam que por excesso da ingestão de manga e coco xodó, e vó Maria entendeu de curar as minhas com banhos diários tocados a sabão de tingui, que ela chamava de timbó.

Dona Flor Isabele Araujo Divulgacao

Foto: Isabele Araújo

Encafifada com o tingui, essa semana voltei ao Moinho em um final de tarde. Encontrei dona Flor toda serelepe,  fazendo as unhas, cuidando da própria beleza. Como prosa de roça nunca segue em linha reta, antes de falar do sabão dona Flor me contou das duas vezes em que foi picada por cobra – uma por cascavel e outra por cobra coral, e de como se curou, ela mesma, com as ervas que aprendeu, com a avó indígena, a usar desde criança.

Soube também do curso de enema com plantas medicinais que vai ministrar na próxima semana em Cavalcante, outra cidadezinha histórica da Chapada dos Veadeiros. “Eu queria tanto que você participasse, porque com enema se limpa tanta coisa, limpa verme, limpa inflamação, limpa  até mioma…”, diz animada com a viagem e com a possibilidade de ensinar mais um tiquim à filha Deja, a quem está preparando para ser sua sucessora.

“Deja já está ótima na produção do vinho de amora, e agora em agosto vai pegar firme comigo na colheita do tingui”, diz dona Flor. Então me conta que no Goiás o tingui fica no ponto no mês de agosto, raras vezes no final de julho. Conta também que ainda tem energia para subir nas árvores enormes para balançar os galhos e derrubar os frutos, que depois coloca em sacos ou latas e carrega, ela mesma, pra casa.

Antes de fazer o fazer o sabão de tingui, dona Flor conta que é preciso preparar as sementes do Tingui (Magonia pubescens A. St. Hil. – Sapindaceae),  também conhecido como  “cuitê, mata-peixe, pau-de-tingui, timbó, timbó-do-cerrado, timpopeba, tingui-açu, tingui-capeta e tingui-de-cola” e a diquada, o líquido natural que substitui a soda cáustica na produção de sabão. 

Dos tempos da minha vó Maria, eu me lembro que se coloca cinza em uma lata com furos pequenicos, depois soca bem para ficar firme, depois vai colocando água aos poucos, e vai deixando curtir. Confiro com dona Flor e ela diz que é assim mesmo.

Pergunto, por fim, se faz uma quantidade grande, e se tem muito sabão pra vender. Ela me diz que depende da produção dos frutos, que no ano passado  a colheita foi fraca, e que portanto tem pouco sabão pra vender. Assim sendo, tratei logo de garantir o meu estoque até a produção deste ano que, segundo dona Flor, fica pronta em agosto.

sabão de tingui no pratoFoto: Zezé Weiss

SOBRE O TINGUI                                                                                                                            

Fontes: Plantas que Curam / IbFlorestas/DM 

  • Troncos com diâmetros de até 39 cm; ritidoma de cor cinza ou amarelada, áspero, com depressões pequena e irregulares.
  • Copa com ramos terminais pilosos e acinzentados ou castanhos.
  • Folhas compostas; imparipinadas; alternas, espiraladas; com 5 a 11 folíolos alternos ou opostos; elípticos ou oblongos; de até 10 cm de comprimento e 5 cm de largura.
  • Flores de até 2 cm de diâmetro, com cinco pétalas livres, de cor esverdeada.
  • Floração: julho a setembro, com flores masculinas e femininas
  • Polinização: abelhas
  • Dispersão: vento
  • Germinação: taxa de até 96%, logo após a coleta
  • Propagação: sementes ou estacas de galhos e raízes.
  • Frutificação: agosto a novembro, na maior parte do Cerrado brasileiro
  • Frutos:  de até 10 cm de diâmetro; lenhosos; deiscentes, de cor marrom.
  • Sementes: de até 8 cm de diâmetro, aladas; de cor castanha; muitas por fruto
  • Habitat e distribuição: ocorre nos solos mais ricos no cerrado sentido restrito, cerradão mesotrófico e matas secas, no Distrito Federal e nos estados: Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Piauí, São Paulo e Tocantins. 
  • Uso:  árvore melífera. Frutos e sementes usados no artesanato. Madeira com densidade de 0,84g/cm3. Árvore tóxica para peixes e mamíferos.
  • Uso na medicina popular: sementes – úlceras; casca – feridas;  raízes – nervos. A cinza e as sementes servem para fabricar sabão. A resina da casca é tida como inseticida e usada contra piolhos.
  • Uso na Veterinária:  a infusão da casca é usada para curar úlceras de cavalos, originadas por picadas de insetos (Corrêa, 1979b). Essa infusão libera uma toxina utilizada para tinguijar (intoxicar) e capturar os peixes, usados na alimentação (Lima, 1977).

tingui fruto www.floresdocerrado.fot .brFoto: Flores do Cerrado

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Dona Flor: Cerratense, Raizeira e Parteira do Moinho 

Ao avançar pela GO-118, sentido Brasília Alto Paraíso, é marcante a presença de chapadões e formações rochosas que descortinam a beleza cênica do bioma Cerrado na região

Por Eliana Feitosa

Em Alto Paraíso, muitos são os lugares intocados, com pouca ou nenhuma interferência humana, santuários ainda preservados. Dentre eles encontra-se o Povoado do Moinho.

Situado a 12 km da cidadezinha de Alto Paraíso, entre nativos e chegantes, no Moinho vivem pouco mais de 200 pessoas, em sua maioria afrodescendentes (maior concentração do município) que preservam seus modos de vida e tradição desde os tempos em que fugiram da escravidão.

O Moinho está localizado no coração da Chapada dos Veadeiros, às margens do Rio São Bartolomeu, afluente do Rio Paranã, na bacia do Rio Tocantins. Perto dele passa o Rio Preto, afluente do São Bartolomeu, que alimenta a cachoeira Anjos e Arcanjos, principal atração turística local.

O historiador Luiz Lima, profundo conhecedor da geografia e história da Chapada dos Veadeiros, descreve o lugar com riqueza de detalhes:

“Na grande curva que custeia a serra, descortina-se, a norte, o grande e profundo Vale do Moinho, com vila minúscula e escondida no arvoredo de quintais frondosos. Lá em baixo, já na cota mil, os sítios com singelas casinhas de adobe, evocam sutis encantamentos. Nesta panela férica e temperada, o rio São Bartolomeu, pra lá e pra cá, vai intercruzando as pontes do caminho, banhando como Nilo benfazejo, as terras que outrora vicejou pepitas de ouro, e depois dourados trigais. ”

DONA FLOR

Dona Flor do Moinho, 78 anos, mãe de 18 filhos paridos, e de outros criados, conta que já realizou mais de 300 partos.

Aos nove anos de idade, já preparava chás e efusões sob a orientação da mãe. Teve todos os seus filhos de parto normal, em casa, e cuidou de si mesma e de outras mães com os preparados de ervas e plantas do Cerrado.

Sobre esse conhecimento, dona Flor explica: “Aprendi tudo olhando, sempre fui muito curiosa, queria saber o que acontecia quando a mãe ia ganhar a criança, logo me ofereci para ajudar, era tudo muito normal. Tive meus filhos só, logo, uso muito o barbatimão, é a planta da mulher, não pode tomar muito não, mas antes de engravidar ele limpa tudo e depois do parto cicatriza. ”

Descendente de negros que se estabeleceram há muitas décadas na região, onde encontraram refúgio e condições de vida no Cerrado, dona Flor faz parte dos Quilombola que vivem Moinho, descendentes de escravos e de índios do tronco Macro-Jê.

Segundo dona Flor, a grande herança de seus ancestrais é o conhecimento tradicional, fruto da união dos povos indígenas e negros, oriundos da escravidão, muitos deles servidores dos garimpos durante a corrida pelo ouro que ocorreu na região.

Don Flor
Foto: Eliana Feitosa

AS FONTES DE CURA DE DONA FLOR

A economia no Povoado do Moinho está diretamente ligada às belezas do lugar e à comercialização de produtos como artesanato, verduras orgânicas e preparados como xaropes e garrafadas da medicina tradicional, objeto de procura de pessoas vindas de diversas partes do Brasil e o mundo que visitam o povoado.

O Cerrado é alimento e cura, fonte de renda e lazer. Nessas comunidades cada indivíduo desempenha um papel importante para o grupo, sempre respeitando as lideranças, os mais velhos, traço dos costumes repassados pela ancestralidade e pelo harmonioso convívio que estabelecem.

A qualidade da água que alimenta rios, córregos e cachoeiras do Moinho alimentam também uma fração de Cerrado com características medicinais peculiares. O Rio Pretinho que alimenta a horta e os cultivos nos quintais nutre espécies de várias potencialidades terapêuticas.

O conhecimento tradicional em meio a uma sociedade que considera a natureza elemento comercial, subjugada e cuja finalidade é o lucro, tende a desaparecer caso não haja intervenções de manutenção da comunidade tradicional no campo e valorização da sabedoria ancestral.

A origem das plantas medicinais utilizadas nas preparações de remédios caseiros é muito diversificada: elas são cultivadas ou coletadas no Cerrado, doadas por pessoas conhecidas, adquiridas através de troca por remédios caseiros, ou ainda compradas em mercados ou raizeiros.

Todos possuem indicação, modo de usar e composição, mas é na cuidadosa orientação de Dona Flor que os adoentados mais confiam. Entre os remédios manipulados da farmácia instruções e receitas de diversos chás, emplastos, efusões que tem as plantas do Cerrado como princípio ativo.

AS CIÊNCIAS DE DONA FLOR

A coleta das ervas, plantas do Cerrado revela o ritual de respeito e reverência à natureza, representa o conhecimento indígena que foi repassado aos negros africanos que se refugiaram no lugar, sobre a forma de coletar plantas “do mato” para fazer os remédios.

Dona Flor explica: “Para buscar as plantas primeiro você prepara o coração e o espírito para trabalhar a natureza. Você não pode retirar uma folha, casca ou flor da floresta se você estiver com mal humor ou raiva senão a planta morre.”

Proteger comunidades tradicionais é perpetuar o bioma e as espécies que nele vivem. O Cerrado, berço das águas, necessita de uma legislação que valorize o “preservar” acima do desmatar para desenvolver, cultura implantada na década de setenta no Centro Oeste.

As comunidades tradicionais remanescentes de quilombola que vivem na região da Chapada dos Veadeiros são o exemplo da convivência harmônica do homem com o Cerrado. O Cerrado é alimento, é cura e é vida. Assim pensa a cerratense dona Flor.

Eliana Feitosa – Mestranda em Geografia pela Universidade de Brasília. Licenciada em Geografia pela UEG – Formosa. Pedagoga e Teóloga. Pesquisadora de Comunidades Tradicionais. Este artigo é fruto das pesquisas de campo para a Dissertação de Mestrado – Identidade e Cultura: estudo etnogeográfico da comunidade tradicional do Moinho em Alto Paraíso/GO, ocorrida entre 2015 e 2016.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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