RECIFE SEMPRE
Cidade bonita
Cidade discreta
Difícil cidade
Cidade mulher.
Nunca te dás de uma vez.
Só aos pouquinhos te entregas
Hoje um olhar.
Amanhã um sorriso.
Cidade manhosa.
Cidade mulher.
Podias chamar-te Maria
Maria da Graça
Maria da Penha
Maria Betânia
Maria Dolores.
De Santiago te escrevo, Recife,
Para falar de ti a ti,
Para dizer-te que te quero
Profundamente, que te quero.
Cinco anos faz que te deixei –
Manhã cedo – tinha medo de olhar-te,
Tinha medo de ferir-te
Tinha medo de magoar-te.
Manhã cedo – palavras não dizia.
Como dizer palavra se partia?
Tinha medo de ouvir-me,
Tinha medo de olhar-me, Tinha medo de ferir-me,
Manhã cedo – as ruas atravessando
O aeroporto se aproximando,
O momento exato chegando,
Mil lembranças de ti me tomando
No meu silêncio necessário.
De Santiago te escrevo,
Para falar de ti a ti,
Para dizer-te de minha saudade, Recife,
Saudade mansa – paciente saudade,
Saudade bem-comportada.
Recife, sempre Recife, de ruas de
nomes tão doces,
Rua da União, que Manuel
Bandeira tinha “medo que
se chamasse rua Fulano
de tal” e que hoje eu temo
que venha a se chamar
Rua Coronel Fulano de Tal.
Rua das creoulas
Rua da aurora
Rua da amizade
Rua dos Sete Pecados.
Recife sempre.
Teus homens do povo
queimados do sol
gritando nas ruas, ritmadamente:
Chora menino pra comprar pitomba!
Eu tenho lã de barriguda pra “trabiceiro”!
Doce de banana e goiaba!
Faz tanto tempo!
Para nós, meninos da mesma rua,
aquele homem que andava apressado
quase correndo – gritando, gritando:
Doce e banana e goiaba!
Aquele homem era um brinquedo também.
Doce de banana e goiaba!
Em cada esquina, um de nós dizia:
Quero banana, doce de banana!
Sorrindo já com a resposta que viria.
Sem parar,
sem olhar para trás,
sem olhar para o lado,
apressado, quase correndo,
o homem-brinquedo assim respondia:
“Só tenho goiaba
– Grito banana porque é meu hábito”.
Doce de banana e goiaba!
Doce de banana e goiaba!
Continuava gritando,
andando apressado,
sem olhar para trás,
sem olhar para o lado,
o nosso homem-brinquedo.
Foi preciso que o tempo passasse,
que muitas chuvas chovessem,
que muito sol se pusesse,
que muitas marés subissem e baixassem,
que muitos meninos nascessem,
que muitos homens morressem,
que muitas madrugadas viessem,
que muitas árvores florescessem,
que muitas Marias amassem,
que muito campo secasse,
que muita dor existisse,
que muitos olhos tristonhos eu visse,
para que entendesse
que aquele homem-brinquedo
era o irmão esmagado
era o irmão explorado
era o irmão ofendido
o irmão oprimido
proibido de ser.
Recife, onde tive fome
Onde tive dor
Sem saber por que
Onde hoje ainda
Milhares de Paulos
Sem saber por que
Têm a mesma fome
Têm a mesma dor,
Raiva de ti não posso ter.
No ventre ainda, ajudando a mãe
a pedir esmolas
a receber migalhas.
Pior ainda:
a receber descaso de olhares frios.
Recife, raiva de ti não posso ter.
Recife onde um dia tarde
No ventre ainda, ajudando a mãe
a pedir esmolas
a receber migalhas
Pior ainda:
a receber descaso de olhares frios.
Recife, raiva de ti não posso ter.
Recife, cidade minha,
Já homem feito
Teus cárceres experimentei.
Neles, fui objeto
Fui coisa
Fui estranheza. Quarta feira. 4 horas da tarde.
O portão de ferro se abria.
Hoje é dia de visita.
Sem fila.
O relógio de minha casa também dizia
Um, dois, três, quatro,
Quatro, três, dois, um,
Mas sua cantiga era diferente.
Assim, cantando,
O tempo dos homens
Apenas marcava.
Recife, cidade minha,
Em ti vivi infância triste
Adolescência amarga em ti vivi.
Não me entendem
Se não te entendem
Minha gulodice de amor
Minhas esperanças de lutar
Minha confiança nos homens
Tudo isto se forjou em ti
Na infância triste
Na adolescência amarga
O que penso
O que digo
O que escrevo
O que faço
Tudo está marcado por ti.
Sou ainda o menino
Que teve fome
Que teve dor
Sem saber porque
só uma diferença existe
entre o menino de ontem
e o menino de hoje,
que ainda sou:
Sei agora por que tive fome
Sei agora por que tive dor.
Recife, cidade minha.
Se alguém me ama
Que a ti me ame
Se alguém me quer
Que a ti te queira.
Se alguém me busca
Que em ti me encontre
Nas tuas noites
Nos teus dias
Nas tuas ruas
Nos teus rios
No teu mar
No teu sol
Na tua gente
No teu calor
Nos teus morros
Nos teus córregos
Na tua inquietação
No teu silêncio
Na amorosidade de quem lutou
E de quem luta.
De quem se expôs
E de quem se expõe
De quem morreu
E de quem pode morrer
Buscando apenas
Cada vez mais
Que menos meninos
Tenham fome e
Tenham dor
Sem saber por que
Por isto disse:
Não me entendem
Se não te entendem.
O que penso,
O que digo,
O que escrevo,
O que faço,
Tudo está marcado por ti.
Recife, cidade minha,
Te quero muito, te quero muito
Santiago, fevereiro de 1969.
Paulo Freire”
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A ESCOLA SEGUNDO PAULO FREIRE
Escola é… é criar ambiente de camaradagem, é conviver, é se “amarrar nela”! Ora, é lógico../Numa escola assim vai ser fácil/estudar, trabalhar, crescer,/fazer amigos, educar-se,/ser feliz.
Por Paulo Freire
o lugar onde se faz amigos
não se trata só de prédios,
salas, quadros,
programas, horários, conceitos…
Escola é, sobretudo, gente,
gente que trabalha, que estuda,
que se alegra, se conhece, se estima.
O diretor é gente, o coordenador
é gente,
o professor é gente, o aluno é gente,
cada funcionário é gente.
E a escola será cada vez melhor
na medida em que cada um
se comporte como colega,
amigo, irmão.
Nada de “ilha cercada de gente
por todos os lados”.
Nada de conviver com as
pessoas e depois descobrir
que não tem amizade de ninguém
nada de ser como o tijolo
que forma a parede,
indiferente, frio, só.
Importante na escola não
é só ajudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade,
é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se “amarrar nela”!
Ora, é lógico…
Numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
ser feliz.

Paulo Reglus Neves Freire (Recife, 19 de setembro de 1921 – São Paulo, 2 de maio de 1997) foi um educador e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira.
Seu trabalho teórico envolve uma forte crítica da educação bancária comum em seu tempo, na qual o professor faz “depósitos” de conhecimento no aluno, que os recebe passivamente. Em vez disso, Freire propõe uma educação dialógica, isto é, fundamentada no diálogo. Tal educação é também problematizadora, pois induz os educandos a terem uma postura crítica ante a realidade que os oprime.
Freire também é famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos que busca desenvolver essa consciência crítica no momento da alfabetização. Freire, acreditando que todos os homens têm por vocação o ser mais, buscava que eles fossem sujeitos de suas ações, atingissem sua plena realização enquanto seres humanos e fossem capazes de transformar o mundo.
Pedagogia do Oprimido, o principal trabalho de Paulo Freire
Seu principal trabalho, Pedagogia do Oprimido, livro em que propõe sua pedagogia dialógica, se diferenciou do “vanguardismo” dos intelectuais de esquerda tradicionais, pois defendeu o diálogo com as pessoas simples, e não a imposição de ideias pré-concebidas sobre elas (o que, para Freire, é mero ativismo). Trata-se do terceiro livro mais citado em trabalhos acadêmicos de ciências sociais em todo o mundo.
Foi o brasileiro mais homenageado da história, com pelo menos 35 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades da Europa e América; e recebeu diversos galardões como o prêmio da UNESCO de Educação para a Paz em 1986.
Em 13 de abril de 2012 foi sancionada a Lei nº 12 612, que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira. Embora suas
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 19 de setembro de 1921 no Recife, capital do estado brasileiro de Pernambuco. Filho de Joaquim Temístocles Freire, capitão da Polícia Militar de Pernambuco e de Edeltrudes Neves Freire, Dona Tudinha, Paulo teve uma irmã, Stela, e dois irmãos, Armando e Temístocles. A irmã Stela foi professora primária do Estado.
Armando, funcionário da prefeitura da cidade do Recife, abandonou os estudos aos 18 anos, não chegou a concluir o curso ginasial. Temístocles entrou para o Exército. Aos dois, Paulo agradece emocionado, em uma de suas entrevistas a Edson Passetti, pois começaram a trabalhar muito jovens, para ajudar na manutenção da casa e possibilitar que Paulo continuasse estudando.
A Família de Paulo Freire
Sua família fazia parte da classe média, mas Paulo Freire vivenciou a pobreza e a fome na infância durante a depressão de 1929, uma experiência que o levaria a se preocupar com os mais pobres e o ajudaria a construir seu revolucionário método de alfabetização.
Por seu empenho em ensinar os mais pobres, Paulo Freire tornou-se uma inspiração para gerações de professores, especialmente na América Latina e na África. O talento como escritor o ajudou a conquistar um amplo público de pedagogos, cientistas sociais, teólogos e militantes políticos, quase sempre ligados a partidos de esquerda.
A partir de suas primeiras experiências no Rio Grande do Norte, em 1963, quando ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias, Paulo Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização, adotado primeiramente em Pernambuco. Seu projeto educacional estava vinculado ao nacionalismo desenvolvimentista do governo João Goulart.
Na política, integrou o Partido dos Trabalhadores, tendo sido Presidente da 1ª Diretoria Executiva da Fundação Wilson Pinheiro, fundação de apoio partidária instituída pelo PT em 1981 (antecessora da Fundação Perseu Abramo); além de Secretário de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo na gestão petista de Luiza Erundina (1989-1992).
Freire entrou para a então Universidade do Recife em 1943, hoje UFPE, para cursar a Faculdade de Direito, mas também se dedicou aos estudos de filosofia da linguagem. Apesar disso, nunca exerceu a profissão e preferiu trabalhar como professor numa escola de segundo grau lecionando língua portuguesa.
Em 1944, uniu-se em matrimônio com a colega de trabalho Elza Maia Costa de Oliveira, casamento este que durou até o ano de 1986, quando sua esposa morreu. Dois anos depois, em 1988, o educador casou-se com a também pernambucana Ana Maria Araújo, apelidada de “Nita”, que além de conhecida desde a infância era sua orientanda no programa de mestrado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde foi professor.
Ambas as esposas foram reconhecidas por Paulo como importantes em sua carreira, inclusive quando o educador dedicou seu título de Doutor Honoris Causa na PUC de São Paulo “à memória de uma e à vida da outra”. Em 1946, Freire foi indicado ao cargo de diretor do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social no Estado de Pernambuco, onde iniciou o trabalho com analfabetos pobres.
Fonte: Wikipedia
