SOB O BRILHO DA LUA

Sob o brilho da Lua

 

A Lua ( essa mesma que alumiou o amor de  Janja e Lula) é  um dos maiores satélites do Sistema Solar e o único da Terra. É o corpo celeste mais próximo a nós (apenas 380.000 quilômetros de distância). Seu interior é rochoso, e a superfície é rica em alumínio e titânio.

As amostras colhidas pelo homem na Lua provam que sua composição é semelhante à da Terra, apresentando praticamente os mesmos minerais. Em relação ao tamanho, ela representa ¼ do nosso planeta.

Entre as teorias que buscam explicar sua formação, a mas aceita atualmente diz que a Terra sofreu o impacto de um objeto de massa muito alta e nesse processo uma parte do nosso planeta foi lançada para fora, dando origem à Lua.

Apesar das diversas informações que os cientistas têm da Lua, inclusive amostras de rochas, não há uma resposta definitiva para o surgimento desse satélite.

O que é inegável, porém, é a influência que ele exerce em nossas vidas: popularmente atribui-se às fases da Lua, alterações não somente na natureza (como o efeito das marés), mas também no comportamento humano.

SOB O BRILHO DA LUA

Fonte: Nossa Terra: uma viagem às origens da vida. Fundação de Cultura Elias Mansur – FEM. Biblioteca da Floresta, 2010. Foto de Janja e Lula: Ricardo Stuckert. 

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Por Alexandre Garcia Peres —  in Poemas

A lua já foi inspiração para muitos poetas – e não é difícil entender o porquê. Esse astro misterioso, que ilumina as noites e mexe com as marés, também parece influenciar emoções, amores e devaneios. Nos versos, ela pode ser romântica, solitária, mágica ou até desencantada. Mas uma coisa é certa: sempre rende poesia das boas.
Neste artigo do Literatura Online, reunimos sete poemas incríveis que falam sobre a lua de jeitos bem diferentes. Tem soneto, poema modernista, versos cheios de mistério e até um toque de humor. De Alphonsus de Guimaraens a Paulo Leminski, cada autor enxerga a lua de um jeito único – e você vai poder sentir essa magia em cada estrofe. Então, venha se encantar com esses poemas e deixar a imaginação viajar sob a luz do luar!

1 – Soneto VIII – Alphonsus de Guimaraens

Neste soneto simbolista, a lua é retratada como uma figura etérea e mística, quase divina. Alphonsus de Guimaraens a compara a um anjo errante e uma harpa celestial, reforçando seu caráter espiritual.
O desejo de uma “lua eterna que não tivesse fases” sugere a busca por algo imutável e puro, contrastando com a impermanência do mundo. A atmosfera é de melancólica e contemplativa, com a lua sendo um símbolo de transcendência e mistério.

Vagueiam suavemente os teus olhares
Pelo amplo céu franjado em linho:
Comprazem-te as visões crepusculares…
Tu és uma ave que perdeu o ninho.
Em que nichos doirados, em que altares
Repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
Que vês no azul o teu caixão de pinho.
És a essência de tudo quanto desce
Do solar das celestes maravilhas…
Harpa dos crentes, cítola da prece…
Lua eterna que não tivesse fases,
Cintilas branca, imaculada brilhas,
E poeiras de astros nas sandálias trazes…

O Universo (Paráfrase) – Olavo Bilac

Neste poema, Bilac dá voz à lua, à Terra e ao Sol, mostrando como cada um gira ao redor de algo maior. No final, o homem, curioso, quer saber qual é o verdadeiro centro do universo. A resposta? Deus.
A lua aqui não é um símbolo romântico, mas um astro em movimento constante, parte de um sistema grandioso. O poema tem um tom didático e quase musical, fazendo a gente pensar sobre nossa pequenez no meio desse imenso cosmos.

A Lua:

Sou um pequeno mundo;
Movo-me, rolo e danço
Por este céu profundo;
Por sorte Deus me deu
Mover-me sem descanso,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu

A Terra:

Eu sou esse outro mundo;
A lua me acompanha,
Por este céu profundo . . .
Mas é destino meu
Rolar, assim tamanha,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Sol:

Eu sou esse outro mundo,
Eu sou o sol ardente!
Dou luz ao céu profundo . . .
Porém, sou um pigmeu,
Quer rolo eternamente
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Homem:

Por que, no céu profundo,
Não há-de parar mais
O vosso movimento?
Astros! qual é o mundo,
Em torno ao qual rodais
Por esse firmamento?

Todos os astros:

Não chega o teu estudo
Ao centro disso tudo,
Que escapa aos olhos teus!
O centro disso tudo,
Homem vaidoso, é Deus!

Lua Adversa – Cecília Meireles

Neste poema, Cecília Meireles compara suas emoções às fases da lua. Às vezes, quer companhia; outras, prefere a solidão. Mas nunca parece estar no mesmo ritmo dos outros – quando quer alguém, esse alguém já foi embora.
Com uma linguagem simples e melancólica, o poema traduz a inconstância dos sentimentos e do destino. A lua aqui não é só um astro no céu, mas um reflexo das mudanças internas da poeta. É um poema sobre desencontros, ciclos da vida e a inevitável passagem do tempo.

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…
Vaga música (1942)

Satélite – Manuel Bandeira

Aqui, Manuel Bandeira desconstrói a visão romântica da lua. Nada de mistério, amores impossíveis ou melancolia. Para o poeta, ela não é mais o “astro dos loucos e dos enamorados”, mas apenas um satélite, um corpo celeste sem significado maior.
Com ironia e tom modernista, o poema rejeita as metáforas tradicionais e enxerga a lua de forma objetiva, quase científica. No fim, no entanto, o próprio poeta admite gostar dessa lua sem firulas, pura e simples, apenas “coisa em si”. É um olhar diferente, sem encanto, mas ainda assim poético.

Fim de tarde.
No céu plúmbleo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.
Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
— Satélite.

Um raio de luar – Castro Alves

Neste poema, Castro Alves transforma o luar em um elemento dramático e quase fantasmagórico. A cena é carregada de tensão: um homem segura uma mulher desfalecida, acreditando que está morta. Mas, no instante em que a luz da lua a toca, um sorriso surge em seus lábios, como um sinal de vida ou um enigma misterioso.
Com versos cheios de imagens fortes e um tom teatral, o poema brinca com o suspense e a emoção. A lua aqui não é romântica nem contemplativa – ela é um elemento narrativo que ilumina um momento de dúvida entre a morte e a vida, trazendo um desfecho surpreendente e quase sobrenatural.

ALTA NOITE ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito…
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço… assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa…
Pálida e fria… Era talvez a morte…
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou…
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos…
O vulto recuou!… A noite em meio
Ia no céu!

Clair de Lune – Paul Verlaine

Paul Verlaine pinta um cenário sonhador e melancólico, onde a lua ilumina figuras mascaradas que dançam e tocam alaúdes, presas entre a alegria e a tristeza. O luar não é apenas um detalhe na paisagem, mas um elemento que intensifica essa atmosfera de mistério e nostalgia.
Esse poema inspirou “Clair de Lune”, a famosa peça para piano de Claude Debussy, que captura em música a mesma sensação de leveza e melancolia dos versos de Verlaine. A harmonia suave e fluida da composição remete ao brilho calmo do luar descrito no poema, tornando essa conexão entre literatura e música um dos exemplos mais belos do simbolismo na arte.

Tua alma é uma paisagem escolhida
Que encantando vão máscaras e bergamascas,
Tocando alaúde e dançando, e quase
Tristes em suas fantasias extravagantes.
Cantando em modo menor
O amor triunfante e a vida oportuna,
Não parecem acreditar em sua felicidade
E sua canção mistura-se ao luar,
Ao calmo luar triste e belo,
Que faz sonhar as aves nas árvores
E soluçar de êxtase as fontes,
As grandes fontes esbeltas entre os mármores.

Tradução via PoesiasPreferidas.

A Lua foi ao Cinema – Paulo Leminski

Com leveza e humor, Paulo Leminski transforma a lua em uma espectadora sensível, que se emociona com a história triste de uma estrela solitária. A simplicidade dos versos esconde uma reflexão delicada sobre solidão, invisibilidade e o desejo de pertencimento.
O poema brinca com a ideia de que até a lua, tão admirada, pode se sentir só. A metáfora final, com a lua pedindo pelo amanhecer, sugere um desejo de escapar da tristeza, trazendo um toque sutil de melancolia em meio ao tom lúdico. Leminski usa a poesia como um jogo de imagens e sentimentos, tornando a lua um reflexo das nossas próprias emoções.

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!

Pintura "Lua Cheia sobre o Porto de Boulogne" – Édouard Manet (1869), pintura impressionista que captura a luz suave da lua refletida no mar, trazendo um clima tranquilo e misterioso.
Pintura “Lua Cheia sobre o Porto de Boulogne” – Édouard Manet (1869), pintura impressionista que captura a luz suave da lua refletida no mar, trazendo um clima tranquilo e misterioso.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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