Tarsila

TARSILA: ENVOLVIMENTO SOCIAL, PAIXÃO E DENÚNCIA ATRAVÉS DA ARTE

Tarsila: Envolvimento Social, Paixão e Denúncia através da Arte

Tarsila do Amaral (1886-1973) foi moderna e de vanguarda, uma pintora e desenhista brasileira. Sua obra mais conhecida é o quadro “Abaporu”, pintado em 1928 e presenteado ao seu esposo, à época, o escritor Oswald de Andrade, em seu aniversário. O quadro é muito significativo por apresentar, através da arte, as diferenças sociais e intelectuais do nosso Brasil e a latente necessidade de nos libertarmos das amarras estrangeiras na arte e na política.

Por Iêda Vilas-Boas 

Quando Oswald recebeu a tela, ficou imediatamente encantado e disse que aquele era o melhor quadro que Tarsila já havia pintado. Os elementos que constam na tela, especialmente a inusitada figura ao centro, despertaram em Oswald a ideia da criação do Movimento Antropofágico.

O Movimento consistia na deglutição da estrangeira, incorporando-a na realidade brasileira para dar origem a uma nova cultura transformada, moderna e representativa: expressão genuína da nossa cultura. Deu-se o início do revolucionário movimento literário do qual Tarsila fazia parte, juntamente com Oswald de Andrade e Raul Bopp, e este Movimento – Antropofagismo – tornou-se o mais radical de todos os movimentos literários que surgiram no período Modernista.

Tarsila teve fases marcantes em sua obra: defendendo o nacionalismo, a artista rompe completamente com o conservadorismo e enche-se de formas e cores assimiladas em sua viagem de “redescoberta do Brasil”, realizada em Minas Gerais, com seus amigos modernistas. Tarsila explora os temas tropicais, exalta a flora e a , as ferrovias e as máquinas, símbolos da modernidade urbana.

Com Abaporu, marca sua fase antropofágica, que ocorreu entre 1928 e 1930. É possível identificar traços característicos da artista como a escolha de cores fortes, a inclusão de temas imaginários e a alteração da realidade.

Abaporu nos apresenta algumas importantes interpretações e . Na pintura vemos um homem com grandes pés e mãos, e ainda o sol e um cacto. Estes elementos podem representar o físico que era o ofício da maior parte da população brasileira naquele período. A cabeça pequena significava a falta de pensamento crítico, de quem se limita a trabalhar com força, mas sem pensar muito. Vê-se aí uma severa crítica à sociedade de classes. Tarsila usou essa mesma técnica do gigantismo quando foi a primeira mulher brasileira a pintar a tela A negra (1923).

Outros elementos chamam a atenção nessa fase antropofágica: certa melancolia que transcende o quadro, o posicionamento da cabeça e expressão denotam alguma tristeza ou depressão. Além disso, o pé grande revela uma forte conexão do ser humano com a terra, seu chão, seu lugar. Aparece aí a temática dos retirantes e a ida pra capital, o abandono de seu espaço e o incerto futuro.

Tarsila usou sua arte para mostrar ao público, principalmente à elite, que existia um Brasil dolorido e sofrido além dos salões são-paulinos. A obra recebeu um nome de origem tupi-guarani e significa “homem que come gente (canibal ou antropófago). O título da tela é resultado de uma junção dos termos aba (homem), pora (gente) e ú (comer).

Tarsila do Amaral nasceu na Fazenda São Bernardo, no município de Capivari, interior de São Paulo, no primeiro dia do mês de setembro de 1886. Filha de José Estanislau do Amaral Filho e Lydia Dias de Aguiar do Amaral, tradicional e rica família de São Paulo.

A condição econômica abastada de Tarsila do Amaral abriu-lhe oportunidades para estudar na capital, no Colégio Sion, de freiras. Em seguida partiu para Barcelona, na Espanha, onde pintou seu primeiro quadro, “ Coração de Jesus”, aos 16 anos. Na sua volta ao Brasil, muito jovem ainda, casou-se com André Teixeira Pinto. O casamento foi breve, mas desse meteórico casamento, nasceu-lhe a sua única filha, Dulce, em 1906.

Tarsila foi, ao longo do tempo, se aprofundando nas artes. Estudou escultura em barro com o sueco William Zadig, desenho e pintura no ateliê de Alexandrino e artes variadas em Paris (1920-1922). Estudou também com Émile Renard. Em 1922, teve uma tela sua admitida no Salão Oficial dos Artistas Franceses.

Em 1918, conhece o grande referencial da arte visual brasileira: Anita Malfatti. Houve imensa empatia entre as duas e foi Anita que comunicou à amiga sobre o grande acontecimento que viria a ser (em 1922) a Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Embora não tenha participado diretamente da “Semana de 22”, Tarsila se integra com os intelectuais modernistas.

Faz parte do “Grupo dos Cinco”, juntamente com Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. Eram todos modernistas e participaram ativamente do circuito cultural e intelectual de São Paulo durante os anos 20.

Em 1923, Tarsila volta à Europa e mantém contato com os modernistas que lá se encontravam, intelectuais, pintores, músicos e poetas, entre eles Oswald de Andrade. Estuda com Albert Gleizes e Fernand Léger, grandes mestres cubistas. Mantém estreita amizade com Blaise Cendrars, poeta franco-suíço que visitou o Brasil em 1924.

Em 1925, estando em Paris, Oswald de Andrade lança o volume de poesias “Pau-Brasil”, com ilustrações de Tarsila. Em 1926, a artista expõe em Paris, com grande sucesso. Nesse mesmo ano, casa-se com Oswald de Andrade.

Nossa jovem e talentosa pintora fez sua primeira exposição no Brasil em 1929, no Rio de Janeiro. Obteve grande repercussão e fama com a venda de seus quadros. Entretanto, o país passa pela famosa de 1929, período em que perdeu todos os seus bens e Tarsila vê sua fortuna e seu casamento com o poeta Oswald de Andrade se desmoronando.

Oswald de Andrade separa-se de Tarsila, pois havia se apaixonado e decidiu se casar com a revolucionária Patrícia Galvão, conhecida como Pagu. Convém registrar que Pagu era criada, como filha, na casa dos dois. Mas… quem há de julgar as coisas do coração? Tarsila sofre demais com a separação e com a perda da fazenda e de seu poderio econômico. Nessa fase ela se entrega ainda mais a seu trabalho no mundo artístico.

Em 1930, Tarsila conseguiu o cargo de conservadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo e pôs-se a organizar o primeiro Museu de Artes Paulista.  Porém, com o advento da ditadura de Getúlio Vargas e com a queda de Júlio Prestes, perdeu o cargo.

Em 1931, casa-se novamente, com o psiquiatra Osório César e com ele vai à Rússia, aprofunda-se com a ajuda do esposo nas questões sociais e políticas e toma por parada final a borbulhante Paris. Ali, Tarsila é tomada pelos problemas da classe operária. Sem dinheiro, trabalhou como operária de construção, pintora de paredes e portas. Logo conseguiu o dinheiro necessário para voltar ao Brasil. No Brasil, por participar de reuniões políticas de esquerda e pela sua chegada após viagem à URSS, Tarsila é considerada suspeita e foi presa, acusada de subversão.

Em 1933, pinta o quadro “Operários”, e inicia uma fase de temática em que se dedica a abordar o lado social, desumano e desigual nas relações de poder e entre as classes. São exemplos deste período as telas: Operária e Segunda Classe. Em meados dos anos 1930, o escritor Luís Martins, vinte anos mais jovem que Tarsila, torna-se seu companheiro constante, primeiro de pinturas, depois da sentimental. Ela se separa de Osório e se casa com Luís, com quem viveu até os anos 1950.

Em 1965, separada de Luís e vivendo sozinha, foi submetida a uma cirurgia de coluna, já que sentia muitas dores, e, devido a um erro médico, ficou paralítica, permanecendo em cadeira de rodas até seus últimos dias.

Em 1966, Tarsila perdeu sua única filha, Dulce, que faleceu de um ataque de diabetes, para seu desespero. Nesses tempos difíceis, Tarsila encontrou consolo no  espiritismo. A partir daí, passa a vender seus quadros, doando parte do dinheiro obtido a uma instituição administrada por Chico Xavier, de quem se torna amiga. Ele a visitava, quando de passagem por São Paulo, e ambos mantiveram correspondência.

Profundamente celebrada e reconhecida em vida, a artista participou da I Bienal de São Paulo (1951) e da Bienal de Veneza (1964). Faleceu em janeiro de 1973, em São Paulo, oitenta e sete anos, depois de ter vivido intensamente, pela arte e com a arte. Foi enterrada com um longo vestido branco, como era seu desejo. Deixou-nos, através da arte, um imenso de vida, envolvimento social, paixão e denúncia.

Iêda Vilas-Bôas – Escritora. Presidenta da Academia Letras do Nordeste Goiano – ALANEG.  Falecida em 08 de abril de 2022. Faz imensa falta. 

Publicado originalmente em 19 de setembro de 2019

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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