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Três meses

Três meses

(Chico Machado), entre tristezas e alegrias, conta sobre continuar a vida sem D. Pedro e sua defesa intransigente dos mais pobres, peões, mulheres, indígenas. Nos conclama a seguir e continuar a luta, nestas terras de desmandos

Hoje é domingo (08), Dia do Senhor! O “Dia do Senhor” é um termo bíblico, presente na Bíblia hebraica e no Novo Testamento para designar um dia especial, em que nos voltamos para reverenciar o nosso Deus de forma mais direta. Dia este, conforme está descrito no livro dos Atos dos Apóstolos: “O sol se transformará em trevas, e a lua em sangue, antes que chegue o dia do Senhor, dia grande e glorioso. (At 2, 20) Guardamos o Domingo em lugar do Sábado judaico, pelo fato de Jesus ter Ressuscitado no Domingo, o primeiro dia da semana.

Quando criança eu adorava este dia. Era o dia que a nossa numerosa família se reunia. Fazendo jus a boa culinária mineira, a nossa mãe não deixava que faltasse a tradicional galinha caipira, acompanhada de quiabo e angu de milho verde. Ah, tinha também o pirão feito com o caldo da galinha. Como eu gostava daquele ambiente familiar! Trago também na memória a canção que sempre cantávamos naquele dia, que, somente mais tarde é que eu fui saber, que era uma referência ao salmo 122: “Fiquei foi contente, com o que me disseram: a gente vai pra Casa do Senhor!”

No dia de hoje, nós da Prelazia de São Félix e todos aqueles e aquelas que o conheceram de perto, trazemos em nós um misto de alegria e tristeza: hoje, faz três meses, que Pedro partiu para a Casa do Pai, fazendo a sua páscoa do meio de nós. Se bem o conheci, estaria agora dizendo a todos, para não nos entristecermos, pois este é o fim de todos: o encontro inadiável com o Ressuscitado, a quem carinhosamente se referia como “A Testemunha Fiel”.

Na minha fértil imaginação já até elaborei no pensamento, um possível encontro entre Pedro, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara e Dom Tomás de Balduino. Amigos de longas datas, que souberam em vida, compartilharem o fel e o mel, como se dizia lá na minha terra. Que calorosa conversa, não deve ter surgido entre estes personagens tão queridos e marcantes na história de nossa Igreja. Ainda me lembro do dia, em que fomos dar a notícia a Pedro, da páscoa de seu amigo Paulo Evaristo. Do brilho de Seus olhos, escapou uma teimosa lágrima, acompanhada do seguinte comentário: “Quando vejo um dos meus amigos partirem, lembro também que eu estou na fila.” Choramos juntos naquele dia.

Entre tristeza e alegria, ficamos nós daqui tentando dar continuidade a vida. Pedro partiu e nos deixou uma responsabilidade muito grande. Responsabilidade esta de dar conta de levar adiante o seu enorme legado. Coisa não muito fácil de fazer, dado o tamanho de sua contribuição para a caminhada de nossa Igreja. Uma Igreja encarnada e de cunho eminentemente martirial, cuja mística a colocava em sintonia com os pequenos. Em contrapartida, a Igreja de agora, segue penando para ser fiel aquilo que Jesus pensou e anunciou. Uma Igreja mais católica que cristã, onde parte de seus membros, estão mais preocupados em vivenciar os dogmas e as doutrinas, que o carisma fundante da Igreja das primeiras comunidades cristãs, que se espalhavam pelo meio do povo pobre. Uma Igreja, sem dúvida, carente de conversão ao projeto original de Jesus de Nazaré.

Estamos sentindo muito a sua falta por aqui! De quando nos reuníamos na capela para a oração matinal. Nestas horas você ainda estava bastante lúcido, pois não havia ingerido ainda, a carga de medicamentos, em virtude do irmão Parkinson que havia apoderado de você. Foi numa daquelas manhãs, que ouvi uma das melhores sínteses, acerca do avanço da direita pelo mundo. Foi quando pedimos para você dar a bênção, como sempre fazíamos, e você veio com esta fala, mostrando que estava por demais antenado, com o que acontecia à sua volta e alhures.

Você foi único Pedro! Mesmo que tenha me contradito, numa das vezes que te falei sobre isto e você, simplesmente me contrapôs, dizendo que “para Deus, todos nós somos únicos”. A sua fé profética e a sua espiritualidade revolucionária de derrubar todas as cercas, o fazia um homem diferenciado dos demais. Para você, oração sintonizava com a sua ação transformadora. A sua defesa intransigente dos mais pobres, peões, mulheres, indígenas, precisa ser continuada, nestas terras de desmandos. Muito aprendi contigo e tento utilizar deste aprendizado na minha vidinha errante aqui pelo Araguaia, principalmente no que diz respeito aos povos indígenas, razão do meu estar por aqui, fazendo da causa indígena, a causa de todos nós!

Fonte: Via Whatsapp
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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