TUPÃ NUM SOPRO DE TERNURA CONCEBEU A AGRICULTURA

Tupã num sopro de ternura concebeu a agricultura para os filhos desse chão

O primeiro setor do desfile da Acadêmicos do Tatuapé trouxe para a avenida a memória profunda da relação ancestral entre os povos originários e a terra, uma relação que o MST reconhece como raiz histórica da luta pela Reforma Agrária Popular

MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra

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Ao apresentar Tupã como força criadora que dá origem à vida por meio do broto primordial, o desfile reafirma que a agricultura nasce como gesto sagrado, não como mercadoria.
 
Antes do latifúndio, antes do agronegócio, antes da monocultura devastadora, já havia povos que plantavam em harmonia com a natureza, protegendo as águas, respeitando os ciclos e garantindo alimento para suas comunidades.
 
A mata ciliar, simbolizada como proteção das águas, dialoga diretamente com o projeto defendido pelo MST: produzir alimentos saudáveis preservando os bens comuns. Recuperar nascentes, reflorestar áreas degradadas, fortalecer a agroecologia, tudo isso ecoa essa visão originária de cuidado com a Mãe Terra.
 
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Quando Tupã oferece ao mundo a Deusa da Agricultura, guardiã da semente e do alimento, o enredo reafirma um princípio central da Reforma Agrária Popular: a semente é patrimônio dos povos.
 
O MST, ao organizar bancos comunitários de sementes, casas de sementes crioulas e experiências agroecológicas, retoma essa herança ancestral e a projeta como alternativa concreta ao modelo que envenena o solo e concentra renda.
 
O Setor Inicial do desfile conectou passado e presente, ancestralidade e luta contemporânea. Mostrou que plantar e colher sempre foi ato de comunhão e que hoje, diante da crise ambiental e da fome, essa sabedoria ancestral se torna horizonte político.
 
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Fotos: Priscila Ramos e Filipe Augusto Peres
 
 
 
 
 
 
 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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