TXAI MACÊDO: MORRE ÚLTIMO SERTANISTA AUTÊNTICO DO ACRE

 
Morre o último sertanista autêntico da Amazônia do Acre, o indigenista Txai Macêdo 
 
Era um homem do mato, mateiro e amigo, irmão de fé da caminhada indígena na distante amazônia do Acre…. Também perseguido pela ditadura militar por suas atividades, companheiro dos primeiros contatos com indígenas isolados junto com Zé Meireles e Porfírio Carvalho.
 
 
Era um jovem corajoso que amava a vida de aldeia junto aos Iawanaua quando a FUNAI atuava nas aldeias, nos chamados Postos Indígenas, presença essencial do Estado nos territórios indígenas e que hoje foram extintos pelo próprio governo.
 
Além de participar como Sertanista e Indigenista da construção da Aliança dos Povos da Floresta, junto viajamos pelo Rio Juruá numa viagem inédita com Milton Nascimento. Como condutor da delegação junto com o Líder Indígena Sian Kaxinawa, Macedo trazia segurança na barca que nos conduzia pelas curvas do Rio.
 
Um dia Macedo e outros mateiros me avisaram que naquela noite iríamos pernoitar numa praia para jantar e dormir… e que eu avisasse ao Milton. Na hora da cerimônia do chá da Ayahuaska, Macedo me avisou que a cerimônia era composta de uma cantoria da floresta…. mas faltava um instrumento…. e o único que havia era o violão pessoal dos Show do Milton, e se eu não poderia pedir emprestado.
 
Expliquei com calma a cerimônia e perguntei se o Milton podia participar. Ele ficou exultante… então perguntei se ele não podia emprestar o violão para animar a cantoria… Na hora da cantoria, naturalmente os animais começaram a cantar e apareceu no céu uma grande Lua, que nas cidades não temos tempo de contemplar….
 
Macedo naquele momento, me perguntou se não podia pedir para Milton cantar…. Karamba… não basta o violão… e eu vi que era um momento inspirador… Falei pro Milton que como ele havia emprestado o violão de seus Shows ele estava sendo convidado para participar da cerimônia.
 
Vou ter que tomar o chá? ele me perguntou… não, respondi…. você vai cantar…. e então ele me perguntou: qual música??? Eu falei: Milton olha pra esse grupo de Indígenas e Seringueiros…. no meio da floresta…. não precisa uma de suas canções…. apenas solfeje com uma musica do seu coração…. o Macedo está te pedindo…
 
E ele cantou, ou melhor murmurou uma das mais belas canções…. mas não fez parte do disco de Milton….
 
Agora nossa emoção, nossa oração ao grande Irmão dos Povos da Floresta, Antonio Macedo, que caminha agora no campo dos Ancestrais.
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Arquivo Marcos Terena 
 
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O domingo começa com a notícia da partida de Txai Macêdo, um dos grandes, um dos imprescindíveis líderes da floresta. Visionário, vanguardista, a Macêdo o Acre e o Brasil devem a  esforço de uma vida dedicada à defesa dos povos indígenas, dos seringueiros e de todos os povos da floresta. 
Ante o susto, publicamos a nota do AC 24 horas e matéria do próprio Macêdo, publicada em suas redes sociais e aqui na Xapuri, contando um pouco de sua rica e fecunda história. Em momento oportuno, publicaremos nossa homenagem ao Txai que revolucionou nossas vidas e a mim, pessoalmente, me permitiu compreender  mosaico de complexidades dos povos da floresta com outro olhar.
Para sempre, um grande salve para Antonio Luiz Baptista de Macêdo, o Txai Macêdo, o grande parceiro de Chico Mendes, das Reservas Extrativisas e da Aliança dos Povos da Floresta! 
Zezé Weiss/Redação Xapuri.

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Fonte:  ac24horas.​
 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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