UMA BOLSA VITALÍCIA PARA MESTRES E GUARDIÕES

UMA BOLSA VITALÍCIA PARA MESTRES E GUARDIÕES

UMA BOLSA VITALÍCIA PARA MESTRES E GUARDIÕES

Sabina Parto Bom, que vivia lá no rumo do Tabuleiro do Veio João, andava sempre se gabando pelos quatro cantos, que nenhum menino ou menina, aparados por ela, veio a falecer. Todos cresceram fortes, trabalhadores, bonitos e bonitas.

Por Altair Sales Barbosa 

Dizia ainda que ensinara sua arte para sua filha, que teve o mesmo êxito da mãe, embora sua arte de aparar fora abreviada pela criação na cidade de um posto de saúde, porque as pessoas resolveram dar à luz neste posto.

A filha de Sabina continuava curando as crianças de defluxo, obradeira, intestino preso, dor do estômago e tantos outros males, com ervas do campo, que aprendera a usar com sua mãe. Foi assim durante toda sua vida.

Ano passado, caminhando pelo centro da cidade, vi duas pessoas catando pedaços de isopor, que sujavam as ruas da cidade. Pouco tempo depois, quase que como num milagre, vi aquelas pessoas, expondo as peças de isopor, que haviam sido transformadas em animais nativos e em até réplica de fósseis.

Caminhando pela feira, uma coisa encantadora cintilara os meus olhos, tratava-se de uma maquete onde se via um pequeno arraial, com suas casas típicas, centros de serviços, igreja e bares, todos feitos com capricho em papelão usado, mas finamente pintados e decorados, que mais pareciam a beleza da joia de um diamante.

Mais adiante, embebecido do espírito de uma criança, viajava nas histórias dos teatrinhos de fantoches e mamulengos. Quando percebi, quase que como num sonho, parece que não me encontrava neste mundo. Estava rodeado por moringas, potes, esculturas em cabaças, cerâmicas e em tocos velhos de madeira, que até cheguei a vislumbrar num deles o rosto de algum profeta.

Tudo era motivo de alegrias, com tantas criatividades, eram tintas feitas de vegetais e minerais. Aviões e carrinhos feitos dos talos de buriti. Mais adiante um carro de boi, com seis juntas, com fueros, rodas, cangas, até uma pequena cabaça e um ponteiro com ferrão.

Papéis com desenhos mostrando rios que corriam pelos campos e florestas. Até um olho d`água, feito com material descartado, que, de tão real, despertava sede na gente. Um cordão com quadros de xilogravura, impressos na hora, num antigo prelo.

Logo me veio a lembrança das bonecas de pano, que minha mãe ganhava de alguma amiga e que acariciava o sono das minhas irmãs.

No centro desse redemoinho de belezas, um certo pensamento erudito começou invadir a minha mente e me impulsionar a pensar no conceito de cultura, com indagações do tipo: como seria classificada a cultura, que representava aquele universo? 

Hesitava em rotulá-la como cultura popular, por ser este um termo genérico, referente ao que esteja associado ao povo. Pensei também em caracterizá-la como uma cultura recheada de oralidade e sedimentada em hábitos, crenças, artes, folclore, tudo sem regras rígidas, mas percebi que não era só isso, ainda faltava algo, que naquele momento ainda não conseguia captar. bolsa

Me lembrei do conceito de Paulo Freire, que em síntese ressalta que cultura é a natureza transformada pelo homem em objeto de sua extensão. Mas percebi que o que presenciara ia além. Tinha alguma coisa, que estava lá, mas não conseguia ver. bolsa

Pensei na adaptação, associação e ideologia, estrutura de cultura trabalhada por Darcy Ribeiro, mas também percebi que o universo do material exposto na feira transcendia essa dimensão. 

Garimpei conceito de Antropologia, dissecado por Ruth Benedict – Anthropogy is the study of humans beings as creatures of Society, mas também não fiquei satisfeito, porque quase que completo o conceito de Antropologia trabalhado por Benedict ainda não espelhava a visão de globalidade que eu buscava.bolsa

Era como se fosse geração espontânea, que ninguém consegue explicar, mas que existe no campo cultural. Por isso, ficava e fico em dúvida quando um detentor de certo pensamento erudito é obrigado a exigir do autor de uma ideia sui generis, uma bibliografia, ou usar a desgastada expressão, de acordo com fulano etc. etc.bolsa

Foi então que me lembrei dos ensinamentos de Câmara Cascudo, que sempre era firme em dizer: Ninguém estuda pré-história, história natural, geologia, pelos componentes, reduzindo ao material examinado o destino da análise especulativa. Se essa constelação inteira não se destina ao esclarecimento do Homem através da quarta dimensão, o sonho é apenas sono, entorpecimento cultural, esplendor de erudição inútil.bolsa

Se não entendermos toda a trajetória dos caminhos do Homo-sapiens-sapiens, nunca iremos entender que somos portadores, interpretes, agentes e reagentes no tempo e no espaço.

Assim deve ser visto o produto dessas pessoas, que fazem da vida um sonho de felicidade. Sua cosmovisão guia mestres, artesãos e guardiões de uma cultura que extrapola a visão do comum que só é percebida por pessoas sensíveis compreensíveis da grandeza da humanidade total.

Eles, que durante a semana ensinam seus ofícios para as crianças nas escolas e, nos fins de semana, procuram vender seus produtos na feira, para a vida continuar, de tanto sonhar esqueceram da sedução irresistível do futuro.

Hoje vivem por aí, nos cantos dos lugares, não cantando como faziam, mas catando para viver.bolsa

Para esses guardiões que vieram de outras galáxias, cabe hoje ao poder público dar um mínimo de dignidade, quem sabe através de uma bolsa vitalícia pelos sonhos que despertaram em todos nós.bolsa

altair sales barbosa 15 12 09 ed pelikano 11 1Altair Sales BarbosaDoutor em Antropologia /Arqueologia. Sócio Titular do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás. Pesqui- sador Convidado da UniEvangélica de Anápolis. Conselheiro da Revista Xapuri. Excerto de Cerrado – a constelação do meio-dia. Editora América Ltda, 2022.

Capa: Prefeitura de Olindabolsa

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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